Esqueça a motivação: é disso que você precisa para alcançar seus objetivos, segundo a ciência


Estudo mostra que para alcançar o que deseja você precisa realizar uma ação que está longe de ser óbvia.

- Estudo sugere que desconfiar das próprias dúvidas pode ajudar a manter o foco em metas importantes. Crédito: Pexels

Com a chegada de 2026, reaparece o ritual dos planos e das promessas pessoais. É o momento em que se renova a aposta na motivação e no foco como motores capazes de sustentar metas ambiciosas ao longo do ano. Na cultura da produtividade, essa combinação costuma ser apresentada como a principal força por trás de qualquer conquista. Em contrapartida, sentir dúvidas, insegurança ou desânimo durante o processo costuma ser interpretado como sinal de fraqueza ou fracasso iminente.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio sugere que essa leitura é simplificadora. Os dados indicam que não é exatamente a motivação constante que faz as pessoas avançarem em direção aos seus objetivos. Até porque o desânimo faz parte do percurso. Em algum momento, quase todo mundo se pergunta se está no caminho certo, se o esforço vale a pena ou se não seria melhor desistir. Para alguns, essa dúvida interrompe o trajeto. Para outros, segundo a pesquisa, é justamente aí que ocorre uma virada decisiva.

Os pesquisadores decidiram observar um aspecto menos evidente desse processo. O foco não foi apenas a presença da dúvida, mas a confiança que o indivíduo deposita nos próprios pensamentos quando ela surge. O estudo analisou o papel da chamada dúvida metacognitiva, que diz respeito ao quanto a pessoa acredita que suas avaliações internas são corretas. A pergunta central era direta. O que acontece quando alguém passa a questionar se suas dúvidas são realmente confiáveis?

Os resultados apontaram para um efeito contraintuitivo. Participantes que já se sentiam inseguros em relação aos seus objetivos e foram induzidos a confiar mais nos próprios pensamentos demonstraram menor comprometimento. Ao reforçar a confiança nas ideias que expressavam hesitação, acabaram se afastando da meta.

Em sentido oposto, aqueles que passaram a desconfiar do próprio raciocínio, questionando a validade das dúvidas que surgiam, mostraram maior disposição para continuar. Quando a dúvida deixou de ser tratada como verdade absoluta, perdeu força para interromper o caminho e passou a ocupar um lugar menos decisivo no processo.


Por que questionar a dúvida aumenta o comprometimento

Esse padrão apareceu em dois experimentos distintos. Em um deles, os participantes escreveram sobre situações em que confiaram ou desconfiaram do próprio pensamento. No outro, responderam questionários usando a mão não dominante, um recurso simples que provoca estranhamento e leva a pessoa a duvidar da validade do que está pensando. Em ambos os casos, o efeito foi semelhante. Quando a dúvida era colocada em xeque, deixava de paralisar.

O achado ajuda a explicar por que algumas pessoas persistem mesmo em contextos adversos. Não se trata de pensamento positivo nem de autoconfiança exagerada. Trata-se de reconhecer que pensamentos não são verdades fixas e que nem toda hesitação funciona como alerta legítimo. Em muitos casos, é apenas ruído cognitivo.


Os limites da estratégia

Há, no entanto, uma condição importante. O efeito funciona melhor quando não é percebido como técnica explícita. Nos estudos, os participantes não sabiam que estavam sendo levados a questionar suas próprias dúvidas. Fora do ambiente experimental, isso aponta para um papel cuidadoso de terapeutas, professores, amigos ou familiares, mais interessados em estimular reflexão do que em oferecer respostas prontas.

O próprio autor faz um alerta. Usar esse mecanismo sem critério pode levar ao excesso de confiança e à perda de senso crítico. Questionar a dúvida não significa ignorar limites reais ou sinais claros de esgotamento. O valor da descoberta está no equilíbrio entre desistir cedo demais e insistir sem avaliação.

Em um contexto em que decisões pessoais são constantemente pressionadas por métricas, comparações e expectativas externas, o estudo oferece uma conclusão incômoda e libertadora. Seguir em frente nem sempre exige mais certezas. Às vezes, exige apenas desconfiar da dúvida que insiste em mandar parar.


Fonte: O Globo




Postagem Anterior Próxima Postagem