Por que este CEO distribuiu R$ 1,3 bilhão aos funcionários após vender empresa

Graham Walker vai deixar a Fibrebond após venda da empresa de sua família — Foto: Reprodução / YouTube

Em março deste ano, Graham Walker, 46, chamou a funcionária Lesia Key para uma conversa nos arredores da fábrica em Minden, Louisiana. Após agradecer pelos 29 anos de casa, ele entregou a ela um envelope. Key abriu, chorou e, como contou ao The Wall Street Journal, sentiu que “antes, vivíamos de salário em salário; agora posso viver, sou grata”. Ela recebeu um dos bônus que o CEO distribuiu aos 539 funcionários da Fibrebond — uma compensação inesperada e transformadora.

Fundada pela família Walker em 1982, a Fibrebond fabrica gabinetes para equipamentos elétricos e infraestrutura de data centers. A empresa sobreviveu a um incêndio que destruiu sua fábrica em 1998, ao estouro da bolha da internet e a demissões em massa quando o quadro caiu de 900 para 320 pessoas. Em 2024, veio a virada: a venda para a Eaton por US$ 1,7 bilhão (R$ 9,4 bilhões, na cotação atual). Walker impôs uma condição no contrato: 15% do valor (US$ 240 milhões, ou R$ 1,3 bilhão) iriam para os funcionários. “Parecia justo que os funcionários tivessem quase um quarto de bilhão de dólares nas mãos”, disse ele ao WSJ, comentando que escolheu o número “porque é mais de 10%”.

Os pagamentos — bônus médios de US$ 443 mil, distribuídos ao longo de cinco anos como incentivo de retenção — variaram conforme o tempo de casa. Funcionários mais antigos receberam muito mais. Key, 51, quitou a hipoteca, abriu uma boutique e lembra que, quando começou, “ganhava US$ 5,35 por hora, com três filhos pequenos e muitas dívidas”.

A decisão de Walker nasceu de um histórico construído na crise. Após o incêndio de 1998, a família continuou pagando salários durante a reconstrução, o que fortaleceu a confiança dos funcionários. Na década de 2000, Walker e o irmão assumiram a gestão e passaram anos reduzindo dívidas e procurando novos mercados. Ele lembra que se sentia como “a família do seriado 'Caindo na Real Arrested Development dirigindo por aí em um carro adaptado para escada, depois que a família da série teve que vender o jato particular”, disse ao WSJ. “Havia muitos sinais de um negócio que antes era bem-sucedido, mas não muita coisa acontecendo.”

A aposta definitiva veio com o investimento de US$ 150 milhões em infraestrutura para data centers — uma guinada que coincidiu com a explosão da demanda por computação em nuvem na pandemia e, mais recentemente, pela inteligência artificial. Segundo o WSJ, as vendas da Fibrebond cresceram quase 400% em cinco anos, despertando o interesse de empresas maiores.

A cultura interna também ajudou. Hector Moreno, executivo de desenvolvimento de negócios, destacou ao jornal que “todos se apoiam mutuamente”, lembrando de práticas de incentivo, como bônus coletivos por metas de segurança e um fundo administrado por funcionários para apoiar colegas endividados. Moreno afirma que, no dia da distribuição dos envelopes, “foi como dizer às pessoas que elas ganharam na loteria; eles perguntavam: ‘Qual é a pegadinha?’”.

O impacto se espalhou pela cidade. Nick Cox, prefeito de Minden, disse ao WSJ que há “muita repercussão sobre a quantidade de dinheiro que está sendo gasta” no comércio local, citando aumento no movimento e em serviços. Para uma cidade com apenas 12 mil habitantes, onde o Walmart é o único outro grande empregador, o efeito foi imediato.

Nem tudo foi simples. Parte dos funcionários se surpreendeu com a carga tributária — alguns pagando até um terço do bônus. Além disso, o pagamento anual por cinco anos dificulta a saída da empresa. Mas para outros, como Hong Blackwell, 67, a regra ajudou: por ter mais de 65 anos, ela pôde receber e se aposentar imediatamente. “Agora não preciso me preocupar. Minha aposentadoria é tranquila e pacífica”, disse ao jornal. Ela comprou um carro para o marido e planeja viajar, “mas vou guardar a maior parte do dinheiro”.

Walker, que deixará a empresa em 31 de dezembro, diz ao WSJ que a motivação também é pessoal: não queria ir ao supermercado da cidade e “sentir vergonha” por ter ficado com todo o ganho. Ele espera que o legado siga vivo. “Espero ter 80 anos e ainda ouvir como isso impactou alguém”, afirmou.

Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios


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