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Um estudo recente mostrou que o autismo pode ser a porta para entender a evolução do cérebro humano - Foto: Canva |
Pesquisas recentes têm levado cientistas a olhar para o transtorno do espectro autista, o TEA, sob uma nova perspectiva. Em vez de ser compreendido apenas como um conjunto de alterações que dificultam a interação social, o autismo começa a ser estudado como uma possível variação do neurodesenvolvimento ligada à própria evolução do cérebro humano.
Essa abordagem ganha força a partir de estudos em áreas como Psicologia Evolucionista e Genética de Populações, que investigam como determinadas características cognitivas podem ter sido preservadas ao longo do tempo pela seleção natural. A ideia central é que alguns traços associados ao autismo podem ter oferecido vantagens em diferentes momentos da história humana.
O debate é relevante porque ajuda a ampliar a compreensão sobre o TEA, contribui para reduzir estigmas e reforça a importância de políticas educacionais e sociais mais preparadas para lidar com a diversidade de funcionamentos do cérebro humano.
Nova forma de entender o autismo
Durante décadas, o autismo foi descrito principalmente a partir de dificuldades de comunicação, interação social e processamento sensorial. Embora essas características continuem sendo parte do diagnóstico, pesquisadores têm chamado atenção para o fato de que muitos indivíduos dentro do espectro também apresentam habilidades específicas, como forte capacidade de sistematização e reconhecimento de padrões.
Essas competências são cada vez mais valorizadas em áreas ligadas à ciência, à tecnologia e à organização de sistemas complexos. Para alguns cientistas, isso indica que a neurodivergência pode ter desempenhado um papel funcional no desenvolvimento das sociedades humanas.
A hipótese não nega os desafios enfrentados por pessoas autistas, mas propõe uma leitura mais ampla. O autismo passari+a a ser visto também como uma variação cognitiva, e não apenas como um transtorno a ser corrigido.
Evolução de neurônios e genes
Um dos estudos que embasam essa discussão foi conduzido pelos pesquisadores Starr e Fraser, da Universidade de Stanford, e publicado na revista Molecular Biology and Evolution. O trabalho analisou neurônios excitatórios do neocórtex, região do cérebro associada a funções cognitivas complexas, como linguagem, planejamento e abstração.
Os cientistas observaram que esses neurônios evoluíram de forma mais rápida na linhagem humana do que em outros primatas. Essa aceleração chamou atenção por coincidir com uma redução na expressão de determinados genes ligados à proteção do neurodesenvolvimento.
Segundo os autores, a menor atividade desses genes está estatisticamente associada a um risco maior de diagnóstico de TEA. A interpretação é que o mesmo processo evolutivo que favoreceu habilidades cognitivas avançadas pode ter aumentado, como efeito colateral, a presença de traços autísticos na população.
Trade-offs da evolução humana
Na biologia evolutiva, o conceito de trade-off descreve situações em que um ganho adaptativo vem acompanhado de custos. No caso do cérebro humano, a expansão de capacidades cognitivas pode ter ocorrido junto com uma maior vulnerabilidade a variações no neurodesenvolvimento.
Essa leitura sugere que, em ambientes ancestrais, perfis cognitivos hoje associados ao autismo poderiam ter sido vantajosos para tarefas que exigiam foco intenso, análise detalhada e repetição de padrões. Ao longo do tempo, esses traços teriam sido mantidos na população.
A ideia ajuda a explicar por que características associadas ao TEA continuam presentes em diferentes sociedades e contextos históricos, em vez de desaparecerem ao longo das gerações.
Debate científico
Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos indicam que uma em cada 36 crianças é diagnosticada dentro do espectro autista. Números semelhantes têm sido observados em outros países, especialmente em nações de alta renda.
Parte desse crescimento é atribuída à ampliação dos critérios diagnósticos e ao maior acesso à informação. Ainda assim, pesquisadores discutem se apenas esses fatores explicam o aumento ou se há também mudanças reais na prevalência do TEA.
Diferentemente de hipóteses ambientais sem comprovação científica, os estudos genéticos sugerem que processos evolutivos podem estar relacionados a essa tendência. A discussão permanece aberta e segue sendo investigada por diferentes áreas do conhecimento.
Acasalamento assortativo
Outra teoria frequentemente citada nesse debate é a do acasalamento assortativo, proposta pelo psicólogo e neurocientista britânico Simon Baron-Cohen. Segundo essa ideia, pessoas com traços semelhantes tendem a se unir com mais frequência em determinados contextos sociais.
Em ambientes como polos tecnológicos e universidades, indivíduos com perfil mais voltado à sistematização e à análise lógica acabam se encontrando e formando famílias. Isso poderia aumentar a chance de descendentes herdarem conjuntos genéticos associados a essas características, elevando também a probabilidade de manifestações do espectro autista.
A teoria não é consensual, mas contribui para compreender como fatores sociais e biológicos podem interagir ao longo do tempo.
Fonte: Só Noticia Boa


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