Brasileiro legal nos EUA é preso pela imigração ao tentar voltar ao Brasil

Daniel, Gabriela e os filhos — Foto: Arquivo pessoal

O brasileiro Daniel Campos, 45, morava há mais de 10 anos legalmente nos Estados Unidos com a esposa Gabriela Paz, 38, dona de casa e criadora de conteúdo, e seus cinco filhos. Mas, em 2025, decidiram que era o momento de retornar ao Brasil. A família, que morava no Texas, pretendia se mudar para Santa Catarina.

Gabriela voltou primeiro, com as crianças. Mas poucos dias antes de embarcar, em 16 de dezembro, Daniel foi preso pela ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e, até agora, o motivo não foi esclarecido.

"Ele estava a caminho da casa de um amigo, na Flórida. Nesse trajeto, ele foi parado pela polícia rodoviária. Algo relacionado a uma infração de trânsito acabou desencadeando a presença da imigração. Foi ali, de forma totalmente inesperada, que ele acabou detido", diz Gabriela, em entrevista exclusiva à CRESCER.

Daniel e Gabriela se mudaram para os Estados Unidos em 2014. "Na época, o Daniel trabalhava com informática no Brasil e viajava com frequência para os EUA por conta da empresa. Com o tempo, surgiu a oportunidade de abrir uma sede lá, e isso despertou em nós o desejo de tentar uma vida nova em outro país", lembra.

Um pouco antes disso, ela havia passado seis meses morando no país e ficou apaixonada. "Quando voltei ao Brasil, já sabia, no fundo do meu coração, que aquele era o lugar onde eu queria construir a nossa história. Então, quando surgiu essa chance através do trabalho do Daniel, abraçamos com muita esperança e vontade de crescer. Foi um sonho que começou a ganhar forma ali", afirma.

'A sensação de não pertencer foi ficando mais forte'

Durante o processo para adquirir o green card (documento que permite a um estrangeiro morar e trabalhar permanentemente nos Estados Unidos), eles não tiveram nenhuma intercorrência. "Tudo aconteceu por meio do trabalho dele. A empresa abriu uma sede nos Estados Unidos e surgiu a oportunidade de solicitar o green card por vias profissionais. Foi um caminho longo, cheio de etapas e documentos, mas sempre vivido com muita fé e dedicação, acreditando que estávamos construindo um futuro melhor para a nossa família", conta.

Eles viveram uma vida tranquila no Texas, conquistaram uma casa, chegaram até a morar em um motorhome e tiveram cinco filhos — Kevin, 10 anos, Amy, 7 anos, Daniel, 6 anos, Nathalie, 4 anos, e Beatrice, 11 meses. Mas, mesmo quando pareciam ter conseguido tudo que queriam, algo ainda não parecia certo.

"Eu nunca consegui me sentir completa lá. Nem eu, nem o Daniel. Desde 2018, já existia o desejo de voltar para o Brasil, mas percebíamos que ainda não era o momento. Deus foi guiando nossos passos. Durante esse tempo, vivemos histórias lindas, momentos importantes e alcançamos coisas que levaremos para sempre", afirma.

Com o passar dos anos, a vontade de voltar crescia cada vez mais. "A sensação de não pertencer foi ficando mais forte. Eu me sentia muito presa, sem liberdade para coisas simples e isso ia pesando no meu coração", diz.

A falta de uma rede de apoio também contribuiu. "Não tínhamos família por perto, não tínhamos amigos próximos, era sempre só nós. E por mais amor que exista dentro de uma família, a gente sente falta de ter uma rede, de ter raízes, de ter um lugar que abrace a gente. No Brasil, eu sempre me senti mais leve, mais livre, mais eu", explica.

Gabriela grávida de Beatrice ao lado de Daniel e os filhos — Foto: Arquivo pessoal

'Foi ali, de forma totalmente inesperada, que ele acabou detido'

Em 2025, com a filha recém-nascida, eles bateram o martelo: iriam retornar ao Brasil de vez. "Decidimos que era hora de começar a planejar a volta de verdade. Foi um processo que levou muitos meses, cheio de expectativas, de fé e de coragem. E, mesmo com todas as dificuldades que surgiram no caminho, sinto que fizemos a escolha certa para o nosso coração e para o futuro da nossa família", destaca.

Gabriela retornou para Florianópolis, Santa Catarina, com as crianças, enquanto Daniel terminava de resolver pendências. "Ele viria para o Brasil no dia 23 de dezembro para se reunir comigo e com as crianças. Nós já estávamos aqui há bastante tempo, esperando por ele. Até o nosso cachorro, o Buddy, viajaria com ele", conta.

Mas no dia 16, uma semana antes, a vida de Gabriela e Daniel virou de cabeça para baixo. "Ele estava a caminho da casa de um amigo, na Flórida. Durante esse trajeto, ele foi parado pela polícia rodoviária. Algo relacionado a uma infração de trânsito acabou desencadeando a presença da imigração. Foi ali, de forma totalmente inesperada, que ele acabou detido", diz.

Segundo ela, o motivo da prisão não foi esclarecida. "Essa é uma parte da nossa história que ainda não conhecemos por completo porque, desde que tudo aconteceu, conseguimos conversar muito pouco com o Daniel. As ligações são curtas e difíceis, então ainda não tivemos condições de entender todos os detalhes", ressalta.

"Desde então, estamos tentando entender melhor o que aconteceu, ao mesmo tempo em que buscamos força e caminhos para trazê-lo de volta para casa", acrescenta.

'Foi como ter o chão arrancado dos pés'

"Foi um choque profundo. O Daniel estava justamente vindo nos encontrar quando tudo aconteceu. Receber a notícia da detenção, estando longe, foi como ter o chão arrancado dos pés", lamenta.

"A primeira reação foi de desespero. Faltavam poucos dias para voltar e, de repente, tudo muda. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que precisava me manter firme pelas crianças. Então, mesmo com o coração apertado, respirei fundo, me apoiei na fé e segui tentando entender o que tinha acontecido, enquanto buscava forças para continuar lutando por ele", acrescenta.

Entrar em contato com o marido após a detenção foi um desafio. "Logo que foi detido, ele passou por seis centros de detenção diferentes. Na primeira semana, ele ficou completamente incomunicável. Foi um dos períodos mais angustiantes da minha vida — não sabíamos se ele estava vivo, se estava bem, se estava sendo cuidado. Era um silêncio que machucava", lembra.

Quando finalmente receberam a primeira ligação, Daniel contou que estava passando por muitas necessidades. "Era tão difícil pra ele que chegou a pedir nossa ajuda para tentar tirá-lo dali, para conseguir uma transferência qualquer coisa que o tirasse daquele sofrimento", diz.

Felizmente, essa mudança aconteceu. "Hoje, ele está em uma unidade onde as condições são melhores e onde conseguimos nos comunicar de verdade. Alguns imigrantes recebem um tablet, e por meio dele fazemos chamadas de vídeo com créditos. Ele também pode usar o telefone do centro para ligar ao Brasil. Assim, temos conseguido conversar pelo menos duas vezes ao dia, o que traz um pouco de paz em meio a tudo isso", destaca.

'Optei por não compartilhar com as crianças'

As crianças já conversaram com ele desde a detenção. Mas, Gabriela resolveu não dizer o real motivo do atraso da chegada do pai. "Eu optei por não compartilhar com as crianças tudo o que realmente está acontecendo. Elas são muito pequenas, e eu não vejo necessidade de expô-las a um sofrimento tão grande", explica.

"Para elas, eu disse apenas que o Daniel precisou adiar um pouco a vinda dele porque tinha algumas pendências para resolver antes de viajar. Assim, elas seguem esperançosas, acreditando que o pai está chegando e é essa esperança que quero preservar", acrescenta.

'O que nos resta é esperar'

Hoje, Daniel está com uma ordem de deportação expedida. "Embora ele tivesse optado pela saída voluntária, essa opção foi cancelada, e agora a deportação será realizada pelo próprio governo americano. Desde o dia 16, ele aguarda um voo para o Brasil é apenas isso que falta para finalmente voltar para casa", afirma Gabriela.

Ele não tem nenhum processo pendente, não precisa ver juiz e não há mais nada a ser analisado. "Dois voos para o Brasil já aconteceram nesse período, mas ele não foi incluído em nenhum deles. Seguimos na esperança de que ele consiga embarcar no próximo, ou no seguinte, para que até o fim do mês, ele esteja de volta com a família. Mas, infelizmente, ainda não existe uma previsão certa", lamenta.

Segundo ela, o sistema de imigração dos EUA é complexo. "As regras funcionam de maneira muito diferente das cortes comuns. Uma vez que a pessoa entra em custódia, já não existe mais a possibilidade de acionar a justiça tradicional. No caso do Daniel, ele assinou a ordem de deportação e, a partir desse momento, o processo passou a ser totalmente administrativo", explica.

Agora, ele não consegue recorrer a mais nenhum recurso. "Ele apenas aguarda o voo que o trará de volta para o Brasil. O que nos resta é esperar, com fé e esperança, para que ele consiga embarcar o quanto antes e finalmente volte para casa", destaca.

'Tenho percebido um clima de tensão crescente'

Para Gabriela, a situação dos imigrantes, não só brasileiros, como também de outras nacionalidades, é muito delicada. "Tenho percebido um clima de tensão crescente, e até pessoas que se naturalizaram americanas, mas não nasceram lá, também têm demonstrado preocupação. Muita coisa mudou recentemente, e isso tem deixado a comunidade imigrante insegura", lamenta.

Infelizmente, o caso de Daniel não é isolado. "Já vimos outros casos de pessoas totalmente documentadas, com tudo em dia, que mesmo assim foram detidas. Não são situações comuns, mas acontecem", diz.

"Na minha percepção, as coisas têm piorado bastante. Os brasileiros comentam muito sobre isso, muita gente vive com medo, e a imigração tem atuado de forma cada vez mais rígida. O clima está tão tenso que até protestos têm acontecido, e infelizmente houve até situações fatais relacionadas a esses conflitos. É algo que mexe profundamente com todo mundo", finaliza.

Fonte: Crescer


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