Petróleo venezuelano, no passado, já respondeu por 70% do consumo dos EUA. Empresas americanas foram nacionalizadas sob Chávez e até hoje buscam indenização. Mas analistas citam entraves práticos para retomada. E veem reação da China como incógnita
Refinaria da estatal PDVSA, em Maracaibo, na Venezuela. Analistas acreditam que petrolíferas dos EUA vão esperar até efetivamente o controle de regulamentação e legislação ficar sob os americanos — Foto: Gaby Oraa/BloombergAo explicar as motivações para o ataque militar americano à Venezuela e a consequente captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Donald Trump disse que as petrolíferas americanas voltariam a atuar na produção e exploração do petróleo venezuelano.
— Nossas grandes petrolíferas, as maiores de qualquer lugar no mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar infraestrutura horrivelmente quebrada, a infraestrutura do petróleo, e começar a fazer dinheiro para o país — disse Trump no pronunciamento inicial à imprensa, durante entrevista coletiva em Mar-a-Lago.
As declarações deixaram claro o interesse de Trump na Venezuela: o petróleo. Apesar de responder por menos de 1% da produção atual de petróleo do mundo, a Venezuela detém as maiores reservas provadas da commodity, com cerca de 220 bilhões de barris, ou 17% do total global.
Hoje, o país está sob embargo americano e, das empresas dos EUA, apenas a Chevron opera na Venezuela, graças a uma autorização especial. Mas, no passado, a Venezuela chegou a ser o maior fornecedor de petróleo dos EUA, antes de o governo de Hugo Chávez (1999-2013) nacionalizar e expropriar ativos de empresas estrangeiras do setor no começo dos anos 2000.
Trump, neste sábado, citou indiretamente este episódio em mais uma menção aos interesses dos EUA no setor:
— Eles falam em “nosso petróleo”. [Mas] nós construímos toda aquela indústria lá, e eles só tiraram de nós como se fôssemos nada, e tivemos um presidente que decidiu não fazer nada. Fizemos algo sobre isso. Tarde, mas fizemos.
Mas como será, na prática, a atuação das petrolíferas americanas numa Venezuela pós derrubada de Maduro? Analistas veem dificuldades práticas para uma retomada rápida da produção petrolífera por empresas dos EUA na Venezuela e citam o aumento do risco geopolítico — com a posição da China sendo importante nesta equação — como uma grande fonte de incerteza para o mercado global de petróleo após a ação militar inédita de Trump. E, a curto prazo, preveem uma alta nos preços do petróleo com os agentes reagindo a essa instabilidade.
As empresas americanas terão que aderir à estratégia de Trump em um país instável, sob intervenção militar estrangeira e convulsionado socialmente. E as tensões com a China tendem a se acirrar, trazendo instabilidade para toda a América Latina, inclusive o Brasil, país que é grande destino de investimentos chineses em energia e agricultura, alerta o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.
— Trump não manda nas empresas americanas. Quem vai decidir colocar dinheiro num país sob intervenção militar estrangeira, convulsionado? Elas vão querer se posicionar de forma concreta e massiva no país? É tudo muito instável.
Efeitos para o Brasil
Em termos geopolíticos, ele diz que a situação ficou mais tensa diante da polarização entre Estados Unidos e China, que pôs muito dinheiro na Venezuela, emprestando bilhões de dólares ao país em troca de petróleo.
— Qual vai ser a reação da China? Ela é um grande investidor estrangeiro no Brasil no agro, no setor de energia. Essa rivalidade entre China e EUA, que parecia distante do contexto da América Latina, chegou aqui. A participação da China na América Latina é muito grande. Será que os chineses continuam investindo?
Para Almeida, muda tudo na região, inclusive o papel do Brasil como média potência que exerce influência na América Latina.
— As eleições no Brasil vão ser impactadas. A América Latina não vai ser a mesma após essa intervenção. Veja Milei (Javier Milei, presidente da Argentina) com apoio aberto e eufórico (ao ataque americano). É um contexto geopolítico muito complexo.
Apesar de ter reservas gigantescas, a Venezuela produz hoje em torno 1 milhão de barris diários de petróleo — para efeitos de comparação, o Brasil produz 5 milhões, os EUA, 13 milhões e a Arábia Saudita, 12 milhões. O petróleo venezuelano é do tipo pesado, de mais difícil produção e, historicamente, as refinarias americanas foram adaptadas para processá-lo. Mas também as refinarias chinesas têm esta capacidade e, recentemente, após anos de embargo dos EUA, a China se tornou o principal comprador de petr
Claudio Pinho, advogado especialista no setor de petróleo e professor da universidade Mackenzie Rio, lembra que, há 15 anos, 70% do petróleo consumido nos EUA vinham da Venezuela, e as empresas tiveram seus ativos encampados pelo governo. Ainda hoje essas petrolíferas estão em busca de indenizações:
— Há um sem-número de indenizações pleiteadas pelas empresas contra o regime de Maduro. Elas não vão se instalar no marco zero (nesse primeiro momento da intervenção). Vão esperar até efetivamente o controle de regulamentação e legislação vir para as mãos dos americanos. Se vai durar uma semana, um mês, um dia, não sabemos.
Pinho diz que a Venezuela, nesses últimos 15 anos, deixou de explorar petróleo, limitando-se à produção nos campos que já estavam em operação, sem novas descobertas. Para avançar e buscar novos áreas, precisa tanto de tecnologia quanto de investimento.
— Ao deixar de ser fornecedor dos Estados Unidos, a Venezuela diminuiu seu papel no cenário mundial.
Impacto residual no preço
Num segundo momento, segundo Pinho, elas poderiam assumir a produção juntamente com a PDVSA (estatal de petróleo da Venezuela) ou não, e começaria a quebra seletiva das sanções comerciais impostas à Venezuela.
— O terceiro foco seria a busca pelo início da exploração offshore (produção em alto-mar), que é quase uma corrida do ouro nesse manancial no litoral.
O ataque deve fazer o preço do barril de petróleo subir, mas pouco, algo entre US$ 2 e US$ 3, nos próximos dias, diz Almeida:
— Não tem fundamento no mercado de petróleo que justifique uma disparada no preço. Há muito estoque na China, nos EUA. Pode haver um repique, mas não volta a US$ 80, US$ 90 o barril
O preço do petróleo, nos últimos meses, tem ficado em torno de US$ 60.
Segundo Almeida, mesmo que a capacidade de produção, num espaço de cinco anos, aumente para 2 milhões de barris por dia não vai fazer a diferença no mercado internacional de petróleo:
— Venezuela não define sozinha o preço. O efeito dessa intervenção é muito mais no ponto vista especulativo com a redução da oferta que vai surgir por algum tempo.
Fonte: O Globo

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