Criação de abelhas nativas impulsiona conservação ambiental e geração de renda no ES



No interior de Colatina, um meliponário vem transformando a relação entre agricultura, biodiversidade e comunidade. O Jardim de Mel, criado em 2019, trabalha com abelhas nativas sem ferrão e mostra que, no campo, a conservação pode caminhar junto com inovação, educação e sustentabilidade.

Mais do que produzir mel, as abelhas nativas são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, são responsáveis pela polinização de mais de 75% das plantas nativas, atuando de forma silenciosa, mas determinante.


Essa foi a motivação que levou o agrônomo Hércules Birchler a abraçar a meliponicultura.

“Nós fazíamos reflorestamentos e começamos a perceber que faltava esse inseto na natureza, que é tão importante, que faz a polinização. Comecei a apresentar as abelhas nativas, que poucos conheciam. A primeira grande chance que tivemos de mostrar a ideia foi no ESX, um evento de startups no Espírito Santo. Fomos convidados a expor e levar essa inovação para o agronegócio, uma tecnologia ancestral que queremos resgatar.”

O espaço reúne hoje mais de 130 colônias de diferentes espécies, cada uma com suas particularidades e potencialidades. Além da produção de mel, própolis e cera, o meliponário desenvolve projetos de educação ambiental, manejo e pesquisas.

O mel das abelhas sem ferrão é raro e muito valorizado. Birchler explica: “É um alimento considerado nutracêutico. Tem várias propriedades medicinais, uma umidade maior e um grande potencial na gastronomia e na medicina, como no preparo de xaropes.”

Apesar de produzido em pequena escala, o foco é o propósito: respeitar o ciclo natural das colônias e promover a regeneração ambiental.

A bióloga Thaiz Romão destaca a diversidade da fauna no estado. Thaiz Romão, bióloga, destaca: “Aqui no Espírito Santo temos 39 espécies catalogadas de abelhas sem ferrão. Com isso, conseguimos desenvolver ações de educação ambiental e geração de renda, tanto com a venda de enxames quanto com a produção de mel, própolis e pólen. Fazemos desse espaço um modelo para ser replicado em outros ambientes. Atuamos em instituições de ensino, projetos sociais e empresas, contribuindo para pilares ESG e para a agricultura familiar e regenerativa.”

O Jardim de Mel atua como negócio de impacto socioambiental e adota o modelo NISA, equilibrando retorno financeiro, social e ambiental. A gerente de projetos, Letícia Barcellos, explica: “A Jardim de Mel é uma empresa estruturada com base em um modelo de negócio de impacto socioambiental. Temos pilares específicos que precisam coexistir: lucro, entrega social e entrega ambiental. Sem esses três pilares funcionando ao mesmo tempo, não conseguimos nos enquadrar no modelo”.

O impacto das abelhas nativas também é reconhecido pelo setor produtivo. Estudos mostram que sua presença em lavouras de café pode elevar a produtividade em até 16%. Além disso, são consideradas bioindicadoras de saúde ambiental e se adaptam a diferentes biomas.

Thaiz reforça o papel ecológico. “As abelhas sem ferrão têm papel fundamental na preservação dos ecossistemas porque fazem a polinização cruzada, que é a troca genética entre as flores. Por isso são tão importantes para a manutenção das matas nativas e dos biomas, e também para a agricultura, promovendo frutos e sementes mais robustos e com maior qualidade.”

Entre as espécies criadas estão mandaçaia, manduri, tubuna, jataí, uruçu-capixaba e borá – cada uma com usos específicos. Além do mel, o própolis e a cera também têm valor comercial e gastronômico.

Birchler detalha: “A cera é usada na gastronomia para cocção lenta de proteínas, e o própolis é um dos antibióticos naturais mais potentes. A uruçu-capixaba, por exemplo, é uma espécie endêmica da nossa região e só vive acima de 800 metros. Agora estamos expandindo com colaboradores em outros biomas para mostrar esse colorido que o país tem.”

Outro ponto importante é a regularização da atividade. Thaiz conclui: “Temos autorização de manejo de fauna concedida pelo IEMA. Os meliponicultores precisam procurar os órgãos ambientais, como IEMA e IDAF, e cadastrar seus meliponários. Só assim a gente desenvolve uma meliponicultura mais consciente, concisa e robusta no estado.”

Fonte: Folha Vitória 


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