Entenda o risco: Adiar o alarme do celular pode ser arriscado para a saúde cardiovascular

Alarme — Foto: Pexels

O som invade o quarto assim que o dia desponta. Uma mão tateia em busca do telefone, aperta o botão "soneca" e desaparece de volta debaixo das cobertas. A cena se repete uma, duas, três vezes. Para muitos, é uma forma de lidar com a manhã. Para a ciência, no entanto, pode ser um sinal de alerta para o coração.

Adiar o despertar tornou-se um hábito generalizado, especialmente em ambientes urbanos e em contextos de trabalho exigentes. No entanto, especialistas alertam que esse hábito não só afeta a sensação de descanso, como também pode gerar respostas fisiológicas negativas no organismo.

O radiologista e professor universitário José Manuel Felices chamou a atenção para um efeito pouco conhecido do botão soneca. Ele explica que cada repetição do alarme causa um pico na pressão arterial. Em outras palavras, o corpo reage como se estivesse enfrentando um estímulo estressante repetido, mesmo antes do dia começar.

O impacto invisível do "soneca" no corpo

Quando o alarme toca, o cérebro interrompe o ciclo do sono. Se a pessoa volta a dormir por alguns minutos, o corpo tenta reiniciar o processo, mas é interrompido novamente. Esse padrão gera microdespertares que fragmentam o sono.

O sono não é um estado uniforme. O sono profundo e o sono REM são essenciais para a recuperação física e mental. Quando esses ciclos são interrompidos repetidamente, eles não são completados, resultando em um descanso superficial, mesmo que o tempo total gasto na cama pareça suficiente.

Em nível hormonal, essa fragmentação eleva o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Manter altos níveis de cortisol desde a manhã impacta diretamente a pressão arterial e a frequência cardíaca , submetendo o sistema cardiovascular a um esforço desnecessário.

Dormir mal não é apenas cansaço

Neurologistas e cardiologistas concordam que a interrupção constante do sono tem efeitos que vão além da sonolência diurna. A desregulação dos ritmos circadianos tem sido associada à hipertensão, resistência à insulina, alterações nos níveis de colesterol e aumento do risco de arritmias.

A longo prazo, a falta de sono reparador está associada a doenças cardiovasculares, como ataques cardíacos e derrames. Esses não são incidentes isolados, mas sim um declínio progressivo que muitas vezes passa despercebido.

Usar o celular como despertador pode intensificar esse problema. Manter o aparelho perto da cama aumenta a exposição à luz azul antes de dormir e ao acordar, o que interfere na produção de melatonina. Além disso, a possibilidade de receber notificações reforça um estado de alerta precoce que aumenta o estresse.

Diante dessa situação, os especialistas não propõem soluções drásticas, mas sim ajustes simples. Programar um único alarme, evitar a função soneca e garantir de sete a oito horas de sono contínuo são recomendações essenciais. Em alguns casos, acordar com luz natural ou usar sistemas de iluminação progressiva pode ser uma alternativa mais suave para o organismo.

Além dos detalhes técnicos, o consenso médico é claro. O coração e o cérebro agradecem a regularidade. Dormir e acordar sempre no mesmo horário, sem interrupções constantes, é uma forma silenciosa, porém eficaz, de cuidar da saúde. Às vezes, a mudança não se trata de acordar cinco minutos mais tarde, mas de entender que cada alarme adiado deixa uma marca que o corpo acabará por pagar.

Fonte: O Globo


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