
A tecnologia voltou a acelerar e, desta vez, não é o motorista. Radares equipados com IA já estão sendo utilizados em rodovias brasileiras para identificar infrações que, até pouco tempo atrás, dependiam quase exclusivamente da fiscalização humana. Entre elas, duas das mais comuns e perigosas no trânsito: dirigir sem cinto de segurança e usar o celular ao volante.
A novidade representa uma mudança significativa na forma como o país monitora e pune comportamentos de risco nas estradas, inaugurando uma nova etapa da fiscalização eletrônica.
Diferentemente dos radares tradicionais, focados basicamente em velocidade, os novos equipamentos utilizam câmeras de alta resolução combinadas com algoritmos de visão computacional. Esses sistemas analisam imagens em tempo real e são treinados para reconhecer padrões específicos, como:
- ausência do cinto de segurança no corpo do condutor;
- posição das mãos indicando o uso de celular;
- inclinação da cabeça e foco visual incompatíveis com a condução.
A IA cruza essas informações automaticamente e gera registros que podem resultar em autuação, sempre seguindo os critérios técnicos e legais definidos pelos órgãos de trânsito. Na prática, é como se a rodovia tivesse um “olho digital” atento a comportamentos que colocam vidas em risco.
Principal fator de risco no trânsito
Segundo especialistas em segurança viária, o uso do celular durante a condução se consolidou como um dos principais fatores de risco no trânsito brasileiro. Ler mensagens, responder notificações ou até fazer chamadas aparentemente rápidas reduz drasticamente o tempo de reação do motorista.
Estudos apontam que alguns segundos de distração a 80 km/h equivalem a percorrer dezenas de metros praticamente “no escuro”. É exatamente esse tipo de comportamento que a nova tecnologia busca coibir.
Não por acaso, o tema tem sido tratado como prioridade por órgãos como o Departamento Nacional de Trânsito e pelos Detrans estaduais.
O cinto de segurança continua sendo um problema
Mesmo após décadas de campanhas educativas, o não uso do cinto de segurança ainda é recorrente, especialmente em trajetos curtos ou em vias urbanas e rodoviárias consideradas “seguras” pelo motorista.
A inteligência artificial consegue identificar a ausência do cinto mesmo em diferentes condições de iluminação, ângulos e tipos de veículos, algo que antes dependia de abordagens presenciais.
A lógica é simples: tecnologia para reduzir a tolerância ao erro humano, antes que ele se transforme em tragédia.
Multa, pontos e respaldo legal
É importante destacar que o uso de IA não muda a legislação vigente. As infrações continuam previstas no Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
- Uso do celular ao volante: infração gravíssima, com multa e pontos na CNH;
- Conduzir sem cinto de segurança: infração grave, também com penalidades previstas.
Os registros feitos pelos radares passam por validação e seguem os mesmos trâmites administrativos aplicados a outros tipos de fiscalização eletrônica, sob a supervisão de órgãos como o Conselho Nacional de Trânsito.
Tecnologia como aliada e não vilã
Embora parte da população veja a novidade com desconfiança, especialistas reforçam que o objetivo não é “punir mais”, mas reduzir acidentes, feridos e mortes. Países que adotaram sistemas semelhantes registraram queda consistente em infrações relacionadas à distração e à segurança básica.
No fundo, a mensagem é clara, a tecnologia está assumindo um papel que o próprio comportamento humano insiste em negligenciar.
Vitória, capital do Espírito Santo, já utiliza sistemas de inteligência artificial integrados às câmeras de videomonitoramento da Guarda Civil Municipal, voltados à identificação de comportamentos atípicos, ao apoio à segurança pública e ao acompanhamento do fluxo urbano e do trânsito.
Além disso, a cidade e outros municípios da Região Metropolitana contam com semáforos inteligentes e câmeras com recursos de IA, usados para melhorar a mobilidade urbana, ajustar tempos semafóricos, detectar situações de risco e apoiar a tomada de decisão dos gestores públicos.
Essas soluções representam um uso estratégico da tecnologia, mas não têm como finalidade a autuação automática por infrações como uso de celular ou ausência de cinto de segurança.
Cerco Inteligente amplia o monitoramento no ES
No âmbito estadual, o Espírito Santo implantou o Programa Cerco Inteligente, uma plataforma integrada de monitoramento que utiliza inteligência artificial, câmeras e leitores de placas em rodovias e vias estratégicas. O sistema, coordenado pelo Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo, apoia ações de segurança pública, controle de acesso, análise de tráfego e localização de veículos.
Vitória em especial, já utiliza inteligência artificial no trânsito, mas com foco em monitoramento, mobilidade e segurança pública.
Os Equipamentos de Fiscalização Eletrônica Fixo e Portátil atuam de forma contínua nas rodovias do Espírito Santo, contribuindo para a segurança viária e o cumprimento das normas de trânsito. Para informações, orientações ou esclarecimentos, os usuários podem entrar em contato com a Central de Atendimento de Rodovias pelos telefones (27) 3636-4565, (27) 3636-2145 ou (28) 3383-5586.
A lista com a localização dos equipamentos no ES está disponível para consulta no link indicado:
Nos links disponibilizados, o cidadão encontra um detalhamento completo dos equipamentos. As informações incluem o código do equipamento estabelecido pelo órgão, o local exato ou referência de instalação, as faixas monitoradas, o tipo de equipamento, as funções de fiscalização exercidas, a velocidade máxima permitida no trecho e o número de série de cada radar, garantindo transparência, rastreabilidade e clareza sobre a atuação da fiscalização eletrônica no estado.
O que muda para o motorista
Com a chegada desses radares inteligentes, o motorista brasileiro precisa entender que:
- comportamentos antes “invisíveis” agora são detectáveis;
- a fiscalização deixa de depender apenas de blitz ou agentes na via;
- dirigir exige ainda mais atenção e responsabilidade.
Não se trata apenas de evitar multa, mas de rever hábitos em um trânsito cada vez mais monitorado e mais consciente.
Um sinal dos novos tempos
A adoção de inteligência artificial no trânsito reforça uma tendência maior, a de que dados, automação e algoritmos estão moldando políticas públicas, inclusive em áreas sensíveis como mobilidade e segurança. No fim das contas, a pergunta que fica não é se a tecnologia está avançando rápido demais, mas se o comportamento no volante está acompanhando essa evolução.
Porque agora, o radar não olha só para a velocidade. Ele observa atitudes.
Fonte: Folha Vitória

.gif)