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| Depois de consumir todos os tecidos internos da tarântula, o fungo emergiu de seu corpo, preparando-se para se reproduzir — Foto: LinkedIn (João Paulo Machado de Araújo) |
Um vídeo feito no coração da Floresta Amazônica tem viralizado nas redes sociais ao mostrar uma tarântula-golias (Theraphosa blondi) dominada por um exemplar do fungo Cordyceps caloceroides. O organismo ganhou notoriedade nos últimos anos graças ao jogo e à série The Last of Us, que se inspiraram na sua capacidade real de afetar o sistema nervoso central de artrópodes para criar um universo distópico em que ele conseguiu acabar com a humanidade ao transformar as pessoas em zumbis.
O parasita e seu hospedeiro foram identificados por Lara Fritzsche, uma estudante de Ciências Ambientais da Universidade de Copenhague (UCPH), durante atividades de coleta do curso intensivo de micologia Tropical Mycology Field Course. Organizado pelo biólogo João Paulo Machado de Araújo, professor da UCPH, o evento reuniu especialistas da Dinamarca e do Brasil na Reserva Ducke, próxima de Manaus.
As imagens foram compartilhadas nesta semana por Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, pesquisador da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). No registro, que soma mais de 2,1 milhões de visualizações só no Instagram, o especialista mostra que a aranha, de coloração natural marrom-dourado, está coberta por uma estrutura fúngica vermelha rígida, com pontas alaranjadas. Veja:
Segundo o especialista, esse estágio representa a fase final do ciclo de vida do fungo, quando ele já havia consumido todos os tecidos internos da tarântula e emergido do seu corpo, preparando-se para se reproduzir assexuadamente por meio da esporulação. “
Os esporos vão ser liberados e vão infectar outras aranhas gigantes da Amazônia”, explica o pesquisador, no vídeo. Apesar do impacto visual, o fenômeno é natural e esperado em ambientes biodiversos – ainda que dificilmente seja documentado.
“Documentar essa riqueza nos nossos ecossistemas naturais representa um avanço científico, social e econômico, além de ser uma questão de soberania nacional”, explica Drechsler-Santos, em um segundo vídeo. “Por isso, a minha emoção em encontrar uma espécie tão rara. Registrar a diversidade de fungos do Brasil é entender também o estado de conservação da nossa funga.”
O fungo de The Last of Us não infecta humanos
A repercussão do vídeo está diretamente ligada à semelhança do fungo com o parasita fictício retratado em The Last of Us. Nesse universo, uma espécie mutante do gênero Cordyceps sp. evolui ao ponto de conseguir infectar os seres humanos e dominar as suas mentes, transformando-os em verdadeiros zumbis. O mecanismo é inspirado no modus operandi real do fungo, que consegue controlar invertebrados, em especial, artrópodes, como formigas, lagartas, besouros, grilos e aranhas.
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| Existem no mundo cerca de 600 variações de fungos parasitários que podem atingir o sistema nervoso de animais — Foto: LinkedIn (João Paulo Machado de Araújo) |
O Cordyceps sp. chega ao organismo dos parasitas por meio do contato com seus esporos microscópicos que aderem ao exoesqueleto do hospedeiro. Após a sua germinação, o fungo penetra o corpo por ação mecânica e enzimática e passa a se desenvolver internamente, espalhando suas hifas pela hemolinfa e pelos tecidos.
Diferentemente do que se imaginava no passado, estudos mostram que o fungo não “invade” diretamente o sistema nervoso central na maioria dos casos. Em vez disso, ele envolve o cérebro e os gânglios nervosos e libera um coquetel de metabólitos secundários (como alcaloides, peptídeos e compostos neuroativos) capazes de interferir na comunicação entre neurônios e músculos.
Esse controle químico permite ao fungo modular respostas motoras e sensoriais do hospedeiro sem destruir imediatamente suas funções vitais. Como resultado, o invertebrado passa a apresentar comportamentos anormais altamente específicos, que favorecem a reprodução do fungo. Nas formigas infectadas pelo Ophiocordyceps unilateralis, por exemplo, o animal abandona sua rotina normal, sobe em folhas ou galhos e se fixa ao substrato, um local com temperatura e umidade ideais para a liberação dos esporos do fungo.
Há cerca de 600 variações conhecidas desses fungos em todo o mundo. Até agora, nenhuma delas demonstrou a capacidade de afetar os seres humanos. “De modo geral, nós podemos manusear os fungos sem grandes riscos. O que a gente não pode é ingerir aquilo que a gente não conhece”, lembra Drechsler-Santos.
Fonte: Galileu

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