Em uma entrevista emocionante à CRESCER, a cuidadora Nathalia Moniza conta como lidou com a perda da filha após um acidente de engasgo. “O mais difícil é ter que sobreviver em meio a tanta dor”, ela desabafou
Era para ser um domingo normal. A cuidadora Nathalia Moniza tinha saído para trabalhar enquanto a filha, Naienny Sunamitha, ficou com a tia em casa, em Recife (PE).
Ela jamais imaginou que aquela seria a última vez que veria sua menina. A pequena faleceu, aos 10 anos, naquela tarde, após se engasgar com um pedaço de carne.
Nathalia com a filha — Foto: Arquivo PessoalO acidente aconteceu no dia 18 de maio do ano passado. Quase um ano depois, Nathalia — ainda vivendo este luto doloroso — decidiu contar como tudo aconteceu.
O dia do acidente
Por volta das 13 horas, Naienny foi até a cozinha, pegou seu prato de almoço e foi para a sala. “Ela tinha o costume de comer a comida primeiro e, depois, a carne”, a mãe explicou. O engasgo ocorreu quando a pequena mordeu o pedaço de bife.
Naquele momento, o irmão e o primo estavam próximos, mas não perceberam que a menina estava com dificuldade para respirar. “Ela não fez barulho nenhum, então, não sabemos por quanto tempo ela tentou se desengasgar sozinha.”
Quando percebeu a situação, a tia foi socorrer a sobrinha. Ela tentou fazer a manobra de emergência, porém, a menina acabou perdendo a consciência. Logo depois, a pequena foi levada para o hospital por um vizinho.
“Assim que minha irmã chegou com ela, uma equipe a pegou e tentaram reanimá-la, mas ela já chegou ao hospital sem vida. Foram 50 minutos de reanimação e, infelizmente, não adiantou.”
Fiquei por alguns minutos chorando no chão, sentada, tentando absorver o que tinha acontecido
“Desmoronei no chão de tanta tristeza”
Nathalia estava no trabalho quando recebeu a notícia de que a filha havia sofrido um acidente. “Saí desesperada. Chegando lá, quem deu a notícia foi minha irmã, chorando muito. Me abraçou e falou da fatalidade. Desmoronei no chão de tanta tristeza”, a mãe lembrou.
Para a pernambucana, parecia um pesadelo. “Fiquei por alguns minutos chorando no chão, sentada, tentando absorver o que tinha acontecido. Pensei que iria acordar a qualquer momento.”
Em seguida, a cuidadora foi levada para uma sala, onde pôde receber suporte da assistente social. A mãe ainda contou com o apoio de amigos e familiares.
É uma dor na alma inexplicável. O mais difícil é ter que sobreviver em meio a tanta dor
Naienny tinha apenas 10 anos — Foto: Arquivo PessoalRecomeçando do zero
Após a perda, Nathalia decidiu mudar de estado e, hoje, mora no Espírito Santo com o filho, que é autista. “Não consegui permanecer onde tudo aconteceu”, ela desabafou.
Agora, o que fica são as lembranças que a mãe guarda da filha. Nathalia descreve Naienny como uma menina curiosa que adorava a vida. “Ela gostava de passear, aproveitar cada momento como se fosse único. Amava nadar, brincar de boneca, andar de bicicleta e fazer novas amizades. Tinha muitos planos; falava em ser veterinária ou professora. Era uma criança muito carinhosa, carismática.”
A pequena também tinha um costume muito especial: antes de dormir, dava 10 beijos na testa da mãe e dizia que a amava. Nathalia conta que um dia antes do acidente sentiu que a filha estava se despedindo.
“Foi um dia inesquecível! Ela pediu para fazer um lanche e chamar os primos para comer com ela. Me pediu para dormir em seu quarto, ao lado dela, e pediu para assistir a um filme. Durante o filme, ela se emocionou e chorou bastante, me abraçou e falou para que eu não a deixasse e disse que sentia muita falta da vovó dela, que havia falecido em 2023. Eu a consolei, ela me deu os 10 beijos na testa, eu a beijei. Ela se acalmou, assistiu um pouco e foi dormir.”
Um domingo antes do acidente, a família comemorou o Dia das Mães na piscina. Nathalia lembra de ver a filha se divertindo muito. “Foi um dia incrível, inesquecível e único.”
Para as mães que também estão vivendo o luto, a cuidadora deixa uma mensagem especial: “Perder um filho é uma dor que ninguém deveria experimentar, e é normal sentir-se perdido e sem esperança. Quero que saiba que você não está sozinho(a). Há pessoas que te amam e te apoiam, mesmo que não estejam sempre presentes. Permita-se sentir a dor, chore, grite, mas também permita-se lembrar dos momentos felizes e da vida que vocês compartilharam. Você é forte, você é capaz de superar isso”, finalizou.
O que fazer em casos de engasgo?
Vivenciar uma situação de engasgo é um pânico para qualquer família. Afinal, é preciso agir rápido para evitar um desfecho trágico. Em outubro do ano passado, a American Heart Association (AHA) — entidade referência na área de reanimação cardiopulmonar (RCP) —
Abaixo, confira o passo a passo de como realizar a manobra de desengasgo em crianças:
Verifique se a criança está com obstrução severa das vias aéreas. As manobras de desengasgo só são realizadas se a criança:
- Não consegue tossir
- Não consegue chorar
- Muda de cor, podendo ficar pálida ou cianótica (coloração roxa)
- Fica mais mole
- Não consegue respirar
Se seu filho não apresenta nenhum desses sinais, a orientação é observar e estimular a tosse.
Caso a criança tenha algum sinal de obstrução severa grave, a primeira atitude é ligar para o SAMU e iniciar as manobras de desengasgo. Confira!
👧 Crianças (a partir de um ano)
Para ajudar a criança que está engasgada, posicione-se ajoelhado atrás dela.
Utilize o calcanhar da sua mão para aplicar cinco pancadas firmes nas costas da criança entre as escápulas (não são tapinhas leves). Anteriormente, começava-se já com as compressões abdominais, conhecidas como manobra de Heimlich.
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Se as pancadas não resolverem a obstrução, faça as compressões abdominais (5 vezes).
- Envolva os braços em volta da cintura da criança de forma que uma de suas mãos fique à frente. Faça um punho com uma das mãos e posicione o lado do polegar junto à cintura da criança.
- Faça os movimentos acima do umbigo e bem abaixo do osso do peito.
- Segure o punho com a outra mão. Em seguida, faça compressões rápidas e firmes para dentro e para cima do abdômen, certificando-se de que o movimento vá para cima e não para trás.
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Alterne entre as cinco pancadas firmes e as compressões abdominais até a expulsão do objeto ou até a criança perder a consciência.
Compressões no peito
- Se não for possível colocar os braços em volta da cintura da criança ou ela estiver na cadeira de rodas, faça compressões no peito em vez de abdominais.
- Feche uma das mãos em punho e coloque-a com o polegar contra o tronco da criança.
- Coloque seus braços sob as axilas da criança e sua mão no centro do peito dela.
- Puxe-a para trás para dar impulso.
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Ressuscitação cardiopulmonar (RCP)
- Se a criança ficar inconsciente, deite-a em uma superfície, apoiando sua cabeça e pescoço
- Comece as 30 compressões torácicas, ou com uma mão só, ou com uma mão sobre a outra. Com o braço bem esticado, comprima e solte.
- Verifique se é possível ver o objeto, se sim, o retire.
- Faça duas ventilações (“respiração boca a boca”) cobrindo a boca da criança e tampando o nariz.
- Observe a elevação do tórax.
- Faça essas manobras até o SAMU chegar ou a criança voltar a respirar.
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É importante que os pais e cuidadores façam um curso de primeiros socorros do AHA (chamado Família e Amigos) de 2 horas de duração, que ensina todas as manobras expostas acima.
Com informações da revista crescer

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