Mural com 100 mil tampinhas recicladas recria “Mona Lisa” e transforma bairro em museu a céu aberto


Obra de 13 metros do artista Óscar Olivares mobilizou voluntários com projeto que mescla cultura, arte, reciclagem e transformação urbana

Obra de Óscar Olivares utiliza tampinhas plásticas, coletadas pela comunidade, para formar a imagem inspirada na Mona Lisa, em San Salvador — Foto: Reprodução/Instagram @olivarescfc

Um mural feito com 100 mil tampinhas plásticas recolhidas do lixo transformou a fachada de um prédio residencial em Zacamil, San Salvador, em El Salvador. A obra, com cerca de 13 metros de altura, é uma releitura da famosa Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. A Mona Lisa de El Salvador é do artista venezuelano Óscar Olivares, e feita a partir de materiais reciclados.

De acordo com reportagem da Smithsonian Magazine, o mural foi inaugurado em fevereiro e faz parte de um esforço da comunidade para transformar o bairro em um museu a céu aberto, com arte e reaproveitamento de resíduos. O trabalho foi fixado na lateral de um edifício e se tornou um novo atrativo visual para quem visita ou mora na região.

“Eu queria retratar uma Mona Lisa latino-americana. A Mona Lisa é uma mulher comum e um ícone do Renascimento italiano. Estamos vivendo um novo Renascimento, tanto em El Salvador quanto no mundo”, disse Olivares, cuja ideia foi reinterpretar o clássico da arte renascentista com identidade regional.

O artista Óscar Olivares e sua Monalisa de El Salvador — Foto: Reprodução/Redes sociais


Arte como resistência

Zacamil ficou conhecido por décadas como uma área marcada pela presença de gangues. Grupos criminosos utilizavam grafites e marcas visuais nas paredes para limitar territórios. A proposta do mural foi substituir esse simbolismo de violência por uma intervenção artística.

Nas suas redes sociais após a conclusão do trabalho, Olivares destacou o aprendizado coletivo durante o processo. O artista afirmou que a experiência reforçou valores como amizade, cooperação e solidariedade entre os participantes.


Reciclagem

Embora a montagem do mural tenha levado três semanas, o processo de coleta das tampinhas foi bem mais longo. Durante meses, voluntários da comunidade e organizações locais recolheram tampinhas plásticas descartadas nas ruas, lavaram o material e separaram as cores apropriadas para a composição da obra.

Olivares optou por não pintar nem alterar a cor das tampinhas, preservando o material original. Para planejar a imagem, ele criou um mapa detalhado da distribuição das cores e calculou: seriam necessárias aproximadamente 1.100 tampinhas por metro quadrado do mural.


Técnica

O método utilizado pelo artista tem inspiração no pontilhismo, técnica que utiliza pequenos pontos de cor para formar imagens visíveis à distância. O próprio Olivares contou que teve a ideia após visitar, em 2019, o Museu d’Orsay, em Paris, a partir de pinturas do artista francês Paul Signac.

“Quando você está muito perto, algumas tampinhas parecem feias ou sujas, porque vieram do lixo. Mas quando você se afasta alguns passos do mural, consegue ver toda a arte”, explicou Olivares.


Arte com resíduos

O mural em Zacamil integra uma série de obras que o artista vem produzindo ao redor do mundo utilizando resíduos plásticos. Olivares já criou murais semelhantes em 11 países, entre eles Panamá, Venezuela, Aruba, México, Itália, Suíça, Alemanha e Arábia Saudita. O uso de tampinhas recolhidas em cada local influencia diretamente o resultado final das obras, já que a variedade de cores disponíveis depende do tipo de embalagem consumida em cada região.

“Na Venezuela, por exemplo, você pode encontrar mais de 16 tons diferentes de azul. Isso não é comum em outros países. Já no México há muito mais tons de verde”, afirmou o artista.

Com informações de Um só Planeta



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