'Não quero riqueza, quero dinheiro para sobreviver', diz agricultor que encontrou possível poço de petróleo


Sidrônio Moreira enfrenta dificuldades para acessar água encanada e agora espera uma resposta oficial da Agência Nacional de Petróleo (ANP) sobre o seu achado.

Na foto estão Sidney Moreira (esquerda) e Sidrônio Moreira (direita) no sítio onde moram em Tabuleiro do Norte. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

O agricultor cearense Sidrônio Moreira, que encontrou um líquido semelhante a petróleo ao perfurar um poço em busca de água no seu sítio, em Tabuleiro do Norte, não tem dúvidas: se pudesse escolher entre petróleo e água, ele prefere água. O g1 visitou a casa onde Sidrônio mora com a família e conversou sobre como tem sido sua rotina após a descoberta.

Desde o primeiro poço cavado no quintal, quando um líquido preto jorrou, o aposentado tem recebido diversas visitas. A mais esperada, da Agência Nacional de Petróleo (ANP), só ocorreu nesta quinta-feira (12), sete meses depois da agência ser notificada oficialmente. Por enquanto, a família precisa esperar um laudo da ANP confirmando, ou não, se o material é petróleo.

Sidrônio segura nas mãos pote com líquido encontrado ao cavar poço no quintal. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Em entrevista exclusiva, Sidrônio disse que o objetivo inicial ao perfurar o solo era buscar água, um bem de difícil acesso na região onde vive. No entanto, se for confirmada a existência de petróleo, ele já sabe o que irá fazer caso ganhe algum percentual com possível exploração: furar um novo poço artesiano em busca de água.

"Agora, se tem jeito de extrair o óleo, eu aceitaria de mãos abertas (...) Se desse uma renda para mim, a primeira coisa que eu ia fazer era furar um poço, porque eu preciso é da água. Aqui diminuí até meus animais por causa da água. Eu tinha uns porcos muito bons, e quando cheguei um dia eles estavam morrendo de sede no meio do sol, eu fiquei agoniado. Aí eu vendi os porcos".

O agricultor mora com a esposa e dois filhos no Sítio Santo Estevão, uma localidade de cerca de 48 hectares herdada por ele após a morte do pai. Para chegar até a casa dele, é preciso percorrer uma estrada de terra em um carro por quase 1h, já que o sítio fica a cerca de 35 quilômetros da sede de Tabuleiro.

A família é abastecida por uma adutora da região, carro-pipa enviado pela prefeitura da cidade e gasta cerca de R$ 100 por mês para comprar água mineral.

Ainda assim, a água que chega não é suficiente para deixar a família tranquila. Sidrônio conta que precisou vender alguns de seus animais e diminuir suas plantações por causa do problema de abastecimento.

Apesar das dificuldades, ele não pensa em sair do sítio. Já recebeu propostas de compra, mas não se interessa em vender:

"Muita gente ofereceu para comprar o terreno. Quando eles falam em comprar o terreno, eu corto a ligação, porque não [quero] vender mesmo. Espero que esse andamento saia logo do papel, que se resolva, porque a gente precisa de um poço para nós aqui", comentou Sidrônio.

A descoberta virou assunto na cidade. Sidrônio recebe muitas ligações e visitas e ganhou o apelido de "novo sheik". Mesmo assim, mantém a vida simples. A renda da família vem da aposentadoria dele e da esposa, resultando em dois salários mínimos, além do trabalho do filho mais velho no sítio. Sidrônio faz questão de pontuar que não ficou rico e não espera ganhar muito dinheiro, mesmo que o líquido seja petróleo.

"Eu não quero riqueza, quero dinheiro para sobreviver, você acredita? O que vale é a saúde da pessoa. É tanta conversa por aqui, já inventaram tanta coisa. Já me disseram para trancar o portão do sítio para ninguém entrar, para não contar ninguém [da descoberta], mas eu disse: 'Quando o 'cabra' vai no médico ele precisa conversar para saber o que está sentindo e o médico passar remédio'. Como eu vou ficar calado? Como nunca vou tirar a dúvida do que é isso?", diz o cearense.

Sidrônio e esposa Maria Lucilene, também agricultora. — Foto: Gabriela Feitosa/g1


Encontro por acaso

A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024 enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento de animais da sua propriedade, na localidade de Sítio Santo Estevão.

Um vídeo gravado pela família em novembro de 2024 mostra o momento em que Sidrônio e a equipe contratada furam o primeiro poço. Em determinado momento, um líquido escuro emerge do buraco e o agricultor chega a comemorar, pensando se tratar de água. Semanas mais tarde, porém, a família descobriu que o líquido pode ser petróleo.

📍Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região fica próxima à Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Tabuleiro do Norte não está inserido em nenhum bloco de exploração de petróleo, mas a localidade onde a substância foi descoberta está a apenas 11 quilômetros do bloco de exploração mais próximo.

A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas desde então a agência não havia respondido. Somente no dia 25 de fevereiro o órgão se manifestou, respondendo a um pedido de informação do g1.

Mesmo que o petróleo seja confirmado, o agricultor não poderá comercializar o combustível, uma vez que, no Brasil, riquezas encontradas no subsolo pertencem à União. Conforme a legislação brasileira, a ANP deverá confirmar se a substância é de fato petróleo; mesmo se for confirmado, o dono do terreno não poderá extrair nem vender o combustível.

Imagem mostra momento em que agricultor encontra possível poço de petróleo por acidente ao perfurar solo em Tabuleiro do Norte (CE) — Foto: Reprodução

Com informações do G1



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