Roncar na infância não é normal: entenda as consequências


Ronco infantil pode indicar apneia do sono e afetar crescimento, aprendizado e comportamento

Imagem: Freepik

Muitos pais encaram o ronco infantil como algo inofensivo, quase engraçado. “Ele puxa a quem?”, “dorme pesado”, “é só o nariz entupido”. Esse olhar, embora comum, é perigoso.

Roncar não é normal em nenhuma fase da vida — e, nas crianças, é um sinal de alerta ainda mais importante. O ronco pode indicar que a criança não está respirando bem durante o sono, e isso pode comprometer crescimento, aprendizado, comportamento e saúde a longo prazo.

Dormir bem não significa apenas dormir muitas horas. O sono precisa ser profundo, contínuo e reparador. Durante a infância, o sono é fundamental para a liberação do hormônio do crescimento, consolidação da memória, desenvolvimento neurológico e equilíbrio emocional. Quando o sono é fragmentado por esforço respiratório ou microdespertares, o corpo da criança não consegue cumprir essas funções adequadamente.
3% a 12% das crianças roncam com frequência

Estudos científicos mostram que entre 3% e 12% das crianças roncam com frequência, e uma parcela delas apresenta distúrbios respiratórios do sono, como a apneia obstrutiva do sono infantil.

Diferentemente dos adultos, a criança nem sempre “para de respirar” de forma evidente. Muitas vezes, ela apenas faz força para respirar, dorme agitada, transpira excessivamente ou muda constantemente de posição na cama. O problema passa despercebido, mas o impacto é real.

As consequências vão além da noite mal dormida. Crianças que roncam e têm sono não reparador podem apresentar irritabilidade, hiperatividade, déficit de atenção, baixo rendimento escolar, dificuldades de aprendizagem, alterações de humor e até atraso no crescimento. Há evidências científicas mostrando associação entre distúrbios respiratórios do sono e comportamentos semelhantes ao TDAH, que melhoram após o tratamento adequado do sono.

É importante entender que o ronco infantil raramente tem uma única causa. Ele costuma ser o resultado de uma soma de fatores: aumento de amígdalas e adenoides, respiração bucal, rinite, alterações no formato do palato, crescimento inadequado da maxila, posicionamento da língua e da mandíbula, além de hábitos orais e posturais. Por isso, o tratamento precisa ser multidisciplinar.


Como o dentista pode ajudar?

Nesse cenário, o papel do dentista é fundamental — e muitas vezes subestimado. O cirurgião-dentista, especialmente aquele com formação em ortodontia, ortopedia facial ou odontologia do sono, está em posição privilegiada para identificar sinais precoces de risco. Durante a avaliação odontológica, é possível observar palato estreito, mordida cruzada, maxila atrésica, retrognatismo mandibular, respiração bucal, postura inadequada da língua e alterações no crescimento facial. Todas essas características estão associadas à redução do espaço das vias aéreas superiores.

A ciência mostra que o crescimento craniofacial e a função respiratória estão intimamente ligados. Estudos publicados em revistas científicas bem avaliadas demonstram que crianças com maxila estreita e respiração bucal têm maior risco de distúrbios respiratórios do sono. Intervenções precoces, como a expansão maxilar, podem aumentar o espaço das vias aéreas, melhorar a respiração nasal e reduzir sintomas como ronco e sono agitado. Quanto mais cedo essa intervenção ocorre, maior o potencial de correção e menor a chance de problemas persistirem na vida adulta.

O dentista não atua sozinho. O tratamento eficaz do ronco infantil envolve uma equipe. O otorrinolaringologista avalia amígdalas, adenoides, nariz e vias aéreas superiores, identificando quando há indicação cirúrgica ou tratamento clínico. O pediatra acompanha o crescimento e o desenvolvimento geral da criança. O fonoaudiólogo ou fisioterapeuta atua na reeducação miofuncional, ajudando a corrigir padrões inadequados de respiração, postura da língua e musculatura orofacial. Em alguns casos, o médico do sono solicita exames como a polissonografia para avaliar a gravidade do distúrbio.

Esse trabalho conjunto é essencial porque tratar apenas um fator isolado pode não resolver o problema. Retirar amígdalas sem corrigir a respiração bucal, por exemplo, pode trazer melhora parcial. Da mesma forma, expandir a maxila sem cuidar do bom funcionamento respiratório pode limitar os resultados. O sucesso está na integração das abordagens.


Ignorar é adiar o problema

Ignorar o ronco infantil é adiar um problema que tende a se agravar com o tempo. Crianças não “crescem e resolvem sozinhas” quando o assunto é sono. Pelo contrário: alterações funcionais e estruturais não tratadas podem acompanhar o indivíduo por toda a vida, aumentando o risco de apneia do sono, problemas ortodônticos complexos, dificuldades respiratórias e impactos na saúde geral na fase adulta.

Quando o ronco infantil não é tratado, os efeitos não ficam restritos à infância. A ciência mostra que o sono da criança influencia diretamente a saúde do adulto que ela vai se tornar. Crianças que crescem dormindo mal tendem a carregar alterações funcionais e estruturais para a vida adulta, como respiração oral crônica, desequilíbrios musculares, crescimento inadequado da face e maior risco de desenvolver apneia obstrutiva do sono no futuro. Ou seja, o problema não desaparece com o tempo — ele amadurece junto com o corpo.

Estudos longitudinais indicam que adultos com apneia do sono frequentemente relatam histórico de ronco desde a infância. Isso reforça a ideia de que o tratamento precoce é uma forma de prevenção, e não apenas de alívio de sintomas atuais. Intervir cedo significa reduzir a probabilidade de doenças cardiovasculares, metabólicas e cognitivas associadas ao sono ruim décadas depois. Tratar o ronco infantil é, portanto, uma estratégia de saúde a longo prazo.

A qualidade de vida futura também passa pela capacidade de aprender, se concentrar e regular emoções. O cérebro infantil está em pleno desenvolvimento, e o sono é essencial para a maturação das conexões neurais. Crianças que dormem mal podem apresentar dificuldades escolares persistentes, menor rendimento acadêmico e problemas de autoestima.

Muitas vezes, essas crianças são rotuladas como desatentas, agitadas ou “difíceis”, quando, na verdade, estão privadas de um sono de qualidade. Quando o distúrbio do sono é tratado, há melhora significativa do comportamento, da atenção e da disposição diurna.

Por isso, o recado é claro: ronco em crianças não é normal e não deve ser normalizado. Ele é um pedido de ajuda do corpo. Pais atentos, profissionais bem preparados e uma abordagem multidisciplinar podem transformar o sono da criança — e, junto com ele, sua qualidade de vida, seu desenvolvimento e seu futuro. O dentista, longe de olhar apenas os dentes, tem um papel decisivo nesse cuidado. Dormir bem na infância é investir em saúde para a vida inteira.


Fonte: Folha Vitoria 



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