A central de golpes em país asiático que se passava por delegacia brasileira para achacar vítimas


Quase nada se sabia sobre o cassino Royal Hill até que militares tailandeses assumiram o controle do local em dezembro.

Réplica de uma delegacia da Polícia Federal brasileira, com bandeiras do Brasil e o emblema da PF na paredeCrédito: AFP via Getty Images

Ao percorrer os corredores escuros de um prédio de seis andares atrás do cassino Royal Hill, no Camboja, cada porta se abre para um mundo diferente.

Em uma delas, há uma réplica perfeita de um banco vietnamita. Em outra, você está em uma delegacia da Polícia Federal brasileira, com bandeiras do Brasil e o emblema da PF na parede. Havia outra sala com uma réplica de uma delegacia da polícia federal australiana. Em um canto dali, há uma camisa de um policial chinês pendurada.

Mensagens motivacionais foram pintadas nas paredes. "Dinheiro vindo de todos os lados", dizem os caracteres chineses em uma placa. Há diversas notas falsas de 100 dólares espalhadas pelo chão. Há também um mural com tabelas e orientações em português, entre elas "Qualidade é melhor do que quantidade".

O cassino Royal Hill era um enorme complexo de golpes localizado em uma cidade chamada O Smach, perto da fronteira com a Tailândia.

Milhares de pessoas de diferentes países trabalhavam ali, sob um regime severo que controlava rigorosamente suas vidas, fraudando milhares de pessoas ao redor do mundo pela internet e roubando suas economias.

Em dezembro passado, o Royal Hill foi bombardeado pela força aérea da Tailândia durante um breve conflito de fronteira entre os dois países. Tailandeses alegam que drones cambojanos estavam sendo lançados do cassino.

Os trabalhadores do local fugiram, deixando para trás tigelas de macarrão intocadas, latas de refrigerante pela metade e um cheiro forte.

Hoje, o cassino Royal Hill está vazio, com exceção dos soldados tailandeses que o ocupam. As janelas foram estilhaçadas pelo bombardeio e, em alguns lugares, buracos enormes foram abertos nas paredes e no teto, cobrindo tudo com poeira.

Bonés da polícia vietnamita em uma das muitas salas do cassino Royal HillCrédito: Lulu Luo/BBC

Militares da Tailândia levaram a BBC até o local porque, segundo eles, queriam que o mundo tivesse uma ideia da dimensão da indústria de golpes no Camboja — e, assim, justificar os ataques aéreos contra alvos no Camboja em dezembro passado. Eles diziam precisar de ajuda internacional para encerrar a prática.

O governo cambojano protestou contra a ocupação tailandesa de seu território. Mas os tailandeses argumentam que, durante o cessar-fogo, ambos os lados concordaram em manter suas forças militares onde estavam quando o cessar-fogo foi firmado entre os dois países.

Algo impressionante em Royal Hill não é apenas o tamanho, mas também o fato de praticamente nada se sabia sobre o local até os tailandeses assumirem o controle.

O cassino O Smach, um complexo do outro lado da rua, havia aparecido em reportagens jornalísticas sobre trabalhadores que fugiram dali denunciando abusos.

Ly Yong Phat, dono do cassino, é um dos magnatas mais famosos do Camboja e é conhecido por suas relações próximas ao clã Hun, liderado pelo ex-primeiro-ministro Hun Sen. Ly Yong Phat já sofreu sanções dos Estados Unidos e de outros países sob acusação de tráfico humano e fraude online.

Lim Heng, dono do Royal Hill, tem um perfil bem mais discreto. Ele nunca figurou em listas de sanções internacionais, ainda que ele, assim como Ly Yong Phat, tenha sido agraciado com o prestigioso título de Neak Oknha por Hun Sen. Para obter esse título, Lim Heng fez uma doação obrigatória do equivalente a quase R$ 2 milhões, se tornando parte da elite cambojana com outras poucas centenas de pessoas.

Uma das únicas coisas que se sabe sobre Lim Heng é o seu hábito de prestar respeito ao local de cremação do líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, que fica próximo a outros de seus cassinos na fronteira com a Tailândia ao norte. O Khmer Vermelho instituiu um regime comunista brutal no país entre 1975 e 1979, e estima-se que 2 milhões de pessoas foram mortas no período.

Uma vista dos complexos de golpes em O SmachCrédito: Lulu Luo/BBC

Grande parte dos magnatas do Camboja enriqueceu adquirindo terras logo depois do fim da guerra civil cambojana em 1991 por meio de laços com a família que comandava o país.
Inicialmente, eles fizeram dinheiro com desmatamento e plantações ilegais. Depois, se beneficiaram da especulação imobiliária nas cidades amplificada por investidores chineses.
Em regiões fronteiriças como O Smach, cassinos eram os negócios mais lucrativos, tomando vantagem das proibições a apostas em países vizinhos como a China e a Tailândia. O governo do Camboja emitiu cerca de 200 licenças para cassinos nas últimas três décadas.

Essa expansão do jogo atraiu organizações criminosas da China, que também atuavam no lucrativo segmento de apostas online a partir dos cassinos. Mas em 2019, após pressão da China, Hun Sen baniu a aposta online. Em seguida, houve o impacto da pandemia de covid-19, que levou à suspensões das viagens internacionais naquela região.

As organizações criminosas então migraram das apostas online para os golpes, ludibriando jovens trabalhadores de outros países com atraentes ofertas de trabalho.

Alguns sabiam que atuariam em fraudes e golpes. Outros acreditavam que fariam trabalhos ligados a dados ou a programação de computadores. Poucos tinham ideia do quão duras seriam as condições de trabalho.

No Royal Hill, a BBC viu documentos em chinês sob os escombros detalhando as punições aos trabalhadores que não atingissem as metas. Falhar em obter um "lead" (no caso, começar a construir uma relação online com uma vítima) até o fim do dia resultava em cinco chibatadas.

Um trabalhador que falhava em obter qualquer "lead" ao longo de três dias recebia pelo menos 10 açoitadas. Jogar conversa fora com colegas de trabalho, ou falhar em compartilhar informações íntimas como fotos para estabelecer confiança com a vítima, resultava em punição semelhante.

O Royal Hill foi fortemente bombardeado pelo Exército tailandês em dezembroCrédito: Jonathan Head/ BBC

"Algumas pessoas foram eletrocutadas. Outras foram colocadas na chamada Sala Escura, onde ocorriam torturas terríveis", afirmou Wilson, um jovem de Uganda que foi recrutado para trabalhar no Royal Hill em agosto passado.

Ele afirmou ter sido informado de que faria um trabalho de marketing digital na Malásia.
A BBC conversou com Wilson em Phnom Penh, capital do Camboja, onde ele foi abrigado por uma organização não governamental enquanto tenta achar uma maneira de voltar para Uganda.

Wilson descreveu à BBC ter sido forçado a trabalhar 15, 16 horas por dia, seguindo roteiros elaborados por seus chefes chineses, usando inteligência artificial (IA) para transformar suas vozes e aparências.

"Você deve interpretar o papel de uma mulher rica de 37 anos que busca um marido. Você deve conversar com esses americanos mais velhos com a intenção de fazê-los pensar que você se apaixonou por eles. Então, no roteiro, há um ponto em que você os destrói emocionalmente. Você constrói confiança e depois você os convence a comprar os produtos."

Wilson relatou à BBC que foi obrigado a continuar trabalhando mesmo durante os bombardeios feitos pela Tailândia. "Toda vez que ouvíamos uma bomba corríamos para fora. O prédio às vezes tremia. Mas depois tínhamos que voltar e trabalhar novamente."

A BBC viu documentos descrevendo cenários de golpes semelhantes, em vários idiomas, para ganhar a confiança das vítimas e tranquilizá-las sobre possíveis "investimentos". Havia também regras para todos os funcionários e diversas multas por atraso.

Os trabalhadores precisavam de permissão para ir ao banheiro. Além disso, a BBC viu uma folha de papel com o título "Formulário de Registro de Saída do Funcionário", que registrava cada ida ao banheiro feita por cada trabalhador, inclusive registrando quanto tempo eles passavam no banheiro.

Um "Formulário de Registro de Saída de Funcionários" no Royal HillCrédito: Lulu Luo/BBC

Além disso, existem os golpes propriamente ditos. Ao lado de uma réplica de uma delegacia brasileira, foram construídas fileiras de cabines revestidas com espuma à prova de som. Havia, sobre as mesas, diversas anotações manuscritas em português com dicas que deveriam ser usadas pelos golpistas para enganar as vítimas.

Havia uma intimação falsa, porém relativamente convincente, da polícia federal do Brasil que aparentemente acusava uma pessoa de lavagem de dinheiro. Esse tipo de prática fraudulenta costuma ser usada para intimidar possíveis vítimas de golpe para que repassassem dinheiro ou informações bancárias.

O governo do Camboja ignorou ao longo dos anos a preocupação e a pressão crescentes de outros países em relação à indústria de golpes e os crimes associados a ela no país.

Um relatório divulgado em 2025 pelo Departamento de Estado americano sobre tráfico humano, por exemplo, acusou o governo do Camboja de não ter feito esforços significativos para eliminar essa indústria de golpes, nunca prendendo ou processando criminalmente suspeitos de operar um local usado para esses crimes.

Quando os Estados Unidos aplicaram sanções contra o magnata Ly Yong Phat em setembro de 2024 por causa de suas ligações com fraudes e trabalhos forçados, o Partido Popular do Camboja, no qual o magnata é uma figura importante, exigiu a retirada das sanções americanas sob o argumento de que os EUA estavam violando a soberania cambojana.

As cabines de onde os golpistas ligavam para suas vítimasCrédito: Jonathan Head/BBC

Mas neste ano o governo mudou, de forma repentina, a sua estratégia, depois de sofrer pressão intensa dos EUA, da China e de outros países para agir contra as fraudes.

Equipes da polícia fizeram operações contra dezenas de instalações suspeitas de serem usadas para fraudes. Além disso, o primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, anunciou que a indústria de fraudes seria completamente fechada até o fim de abril, argumentando que ela estava destruindo a reputação e a economia do Camboja.

A ação mais dramática nessa direção foi a prisão e extradição para a China em janeiro deste ano de Chen Zhi, um jovem empreendedor de origem chinesa que havia sido sancionado em 2025 pelos EUA e pelo Reino Unido e era acusado de operar uma ampla rede de empresas bancadas por fraudes.

Chen Zhi havia comprado a cidadania cambojana e se tornado uma das mais influentes figuras do país, sendo conselheiro pessoal de Hun Sen, ex-primeiro-ministro. Seu Prince Group incluía um banco, uma companhia aérea e diversos empreendimentos no mercado imobiliário.

Por anos, ele parecia intocável. Mas acabou sendo preso. Um vídeo foi divulgado no qual ele aparece encapuzado e algemado, sendo arrastado para fora do avião que o levou para a China, onde ele agora aguarda julgamento sob acusação de operar um esquema de jogos de azar e fraude internacional.

O tratamento humilhante registrado no vídeo divulgado foi visto como um sinal de que figuras do alto escalão da indústria de fraudes poderiam ser sacrificadas a fim de tentar salvar a reputação do Camboja.

O grande passo seguinte foi a recente extradição de Li Xiong, presidente da Huione Pay, um sistema de pagamento online acusado de lavar dinheiro proveniente de esquemas fraudulentos.

Chen Zhi foi preso e extraditado para a China em janeiroCrédito: Prince Holding Group

Muitas das instalações usadas para fraudes agora estão vazias. A polícia afirma que mais de 10 mil trabalhadores estrangeiros foram repatriados. Outros, como Wilson, ainda estão tentando achar uma maneira de voltar para o país de origem.

Há, entretanto, muitas razões para desconfiar da declaração do governo de que isso marca o fim das fraudes no Camboja.

Operações em instalações usadas para fraudes costumam ser vistas como enxugar gelo. É bem fácil para os trabalhadores mudarem para instalações menores e mais discretas. Além disso, acredita-se que milhares desses trabalhadores tenham decidido ficar no país.

E, tirando Chen Zhi, nenhum dos magnatas acusados de ligação com essas instalações por trás de cassinos foi atingido pelas investigações. Ly Yong Phat, Try Pheap e Kok An são figuras ricas e poderosas que sofreram sanções internacionais, mas continuam vivendo confortavelmente no Camboja.

Ironicamente, Ly Young Phat e Kok An participam como senadores da votação da nova legislação, que, segundo o governo do Camboja, punirá duramente aqueles ligados às fraudes.

Já o nome de Lim Heng, chefão que construiu o Royal Hill, nunca havia figurado em nenhuma das reportagens e investigações sobre o esquema fraudulento, até o Exército tailandês cruzar a fronteira e apreender seu cassino.

Com informações da BBC News



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