Conversas acontecem em Islamabad, capital do Paquistão; país é um dos principais mediadores do conflito
Altos líderes dos EUA e do Irã já estão em Islamabad, capital do Paquistão, para negociações com o objetivo de pôr fim à guerra que já dura seis semanas.
No entanto, Teerã lançou dúvidas sobre as conversas ao afirmar que elas não poderiam começar sem compromissos em relação ao Líbano e às sanções.
A delegação americana, liderada pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, e incluindo o enviado especial do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, e seu genro, Jared Kushner, desembarcou em dois aviões da Força Aérea dos EUA em uma base aérea em Islamabad na madrugada deste sábado (11).
Eles foram recebidos pelo chefe do Exército do Paquistão, o marechal de campo Asim Munir, e pelo ministro das Relações Exteriores, Ishaq Dar.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, chegando a Islamabad para as negociações com o Irã neste sábado (11) • PAKISTAN MINISTRY OF FOREIGN AFFAIRS
A delegação iraniana, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, chegou na sexta-feira (10).
Estas serão as conversações de mais alto nível entre os EUA e o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979 e as primeiras negociações oficiais presenciais entre os dois lados desde 2015, quando chegaram a um acordo sobre o programa nuclear iraniano.
Trump cancelou o acordo nuclear em 2018, durante seu primeiro mandato. Naquele ano, o então Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, morto no início da guerra há seis semanas, proibiu novas conversas diretas entre autoridades americanas e iranianas.
Irã "não tem cartas", diz Trump
Qalibaf disse, em publicação na rede social X, que Washington havia concordado anteriormente em desbloquear ativos iranianos e em um cessar-fogo no Líbano, onde ataques israelenses contra militantes do Hezbollah, apoiados pelo Irã, mataram quase 2 mil pessoas desde o início dos combates em março.
Ele afirmou que as negociações não começariam até que essas promessas fossem cumpridas.
A emissora estatal iraniana informou que a delegação iraniana se reuniria com o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, por volta do meio-dia, horário local, (4h, em Brasília), para definir o momento e a forma de "possíveis negociações".
Israel e os EUA afirmaram que a campanha no Líbano não faz parte do cessar-fogo entre Irã e EUA, enquanto Teerã insiste que sim.
Qalibaf declarou separadamente que o Irã estava pronto para chegar a um acordo se Washington oferecesse o que ele descreveu como um acordo genuíno e garantisse ao Irã seus direitos, informou a mídia estatal iraniana.
A Casa Branca não comentou imediatamente as exigências iranianas, mas Trump publicou nas redes sociais que a única razão pela qual os iranianos ainda estão vivos é para negociar um acordo.
"Os iranianos parecem não perceber que não têm cartas na manga, a não ser uma extorsão de curto prazo do mundo usando as vias navegáveis internacionais. A única razão pela qual eles ainda estão vivos hoje é para negociar!", disse ele.
Vance, falando a caminho do Paquistão, disse esperar um resultado positivo, mas acrescentou: "Se eles tentarem nos enganar, vão descobrir que a equipe de negociação não está muito receptiva".

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, caminhando em direção ao Air Force Two rumo ao Paquistão na sexta-feira (10) • Jacquelyn Martin-Pool/Getty Images
Discussões preliminares foram realizadas separadamente por autoridades paquistanesas com equipes de reconhecimento de ambos os lados, disseram fontes em Islamabad.
A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim informou que essas equipes incluíam 71 membros de Teerã, entre eles especialistas técnicos nas áreas econômica, de segurança e política, além de profissionais da mídia e equipe de apoio.
Cerca de 100 membros de uma equipe de reconhecimento dos EUA estavam na cidade, disse uma fonte do governo paquistanês.
"Estamos muito otimistas", disse outra fonte paquistanesa próxima às negociações.
Questionado se as negociações terminariam no sábado, a fonte respondeu que "É cedo demais para dizer. Eles têm instruções para fechar um acordo ou desistir. Portanto, não há pressa. Essas negociações não têm prazo definido".
Islamabad estava sob um bloqueio sem precedentes antes das negociações, com milhares de paramilitares e soldados do exército nas ruas.
"Implantamos um esquema de segurança com múltiplas camadas para este evento, baseado em coordenação, inteligência e monitoramento constante para garantir zero interrupções e controle total", disse à Reuters o secretário de Estado do Interior do Paquistão, Talal Chaudhry.
Trump anunciou na terça-feira (7) um cessar-fogo de duas semanas na guerra, que interrompeu os ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã.
Mas isso não pôs fim ao bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz, que causou a maior interrupção da história no fornecimento global de energia, nem acalmou a guerra paralela entre Israel e o Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano.
Ataques continuam no Líbano
Autoridades israelenses e libanesas realizarão negociações em Washington na terça-feira (7), disseram ambos os lados, em meio a relatos conflitantes sobre o que essas negociações abordarão.
A presidência do Líbano informou que autoridades dos dois países conversaram por telefone na sexta-feira e concordaram em discutir o anúncio de um cessar-fogo e definir uma data de início para negociações bilaterais sob mediação dos Estados Unidos.
No entanto, a embaixada de Israel em Washington afirmou que as conversas constituiriam o início de "negociações formais de paz" e que Israel se recusou a discutir um cessar-fogo com o Hezbollah.
A agenda de Teerã nas negociações em Islamabad também inclui exigências de novas concessões importantes, incluindo o fim das sanções que prejudicaram sua economia por anos e o reconhecimento de sua autoridade sobre o Estreito de Ormuz, onde pretende cobrar taxas de trânsito e controlar o acesso, o que representaria uma grande mudança no poder regional.
Os navios iranianos navegavam livremente pelo estreito na sexta-feira, enquanto os de outros países permaneciam retidos.
A interrupção no fornecimento de energia alimentou a inflação e desacelerou a economia global, com impactos que devem durar meses, mesmo que os negociadores consigam reabrir o estreito.
A postura intransigente adotada pelos líderes iranianos antes das negociações seguiu uma mensagem desafiadora do novo Líder Supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei, na quinta-feira.
Khamenei, que ainda não foi visto em público e que, segundo relatos, sofre de graves ferimentos no rosto e nas pernas, sofridos no ataque que matou seu pai, afirmou que o Irã exigirá indenização por todos os danos causados pela guerra. "Certamente não deixaremos impunes os agressores criminosos que atacaram nosso país", disse ele.
Embora Trump tenha declarado vitória e enfraquecido as capacidades militares do Irã, a guerra não alcançou muitos dos objetivos que ele estabeleceu inicialmente: privar o Irã da capacidade de atacar seus vizinhos, desmantelar seu programa nuclear e facilitar a derrubada do governo por sua população.
O Irã ainda possui mísseis e drones capazes de atingir seus vizinhos e um estoque de mais de 400 kg de urânio enriquecido próximo ao nível necessário para a fabricação de uma bomba. Seus governantes religiosos, que enfrentaram uma revolta popular há poucos meses, resistiram à guerra sem demonstrar qualquer sinal de oposição organizada.
Fonte: CNN Brasil

.gif)