Mais do que prescrever medicamentos, o profissional está garantindo algo essencial: o entendimento das receitas para todos.
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| Lucas Cardim, médico no sertão de Petrolina (PE), criou projeto que usa desenhos para as receitas médicas para ajudar pacientes com dificuldade na leitura - Adriano Alves/Folhapress |
No coração do Sertão do São Francisco, no Perímetro Irrigado do Bebedouro, em Petrolina (PE), uma iniciativa simples está transformando a forma de cuidar das pessoas. Mais do que prescrever medicamentos, Lucas Cardim, médico de Família e Comunidade da UBS João Passos de Lima, está garantindo algo essencial: o entendimento das receitas para pessoas que não sabem ler, ou tenham deficiência auditiva e visual.
Foi na rotina da UBS que o médico Lucas Cardim decidiu ir além do convencional. Movido pela escuta atenta e pelo compromisso com uma medicina mais humana, ele desenvolveu, ao lado de um amigo, a plataforma Cuidado Para Todos. A ferramenta gratuita permite que receitas médicas sejam traduzidas em desenhos, símbolos e recursos audiovisuais. Com QR Codes que direcionam para vídeos explicativos, o que antes era um papel difícil de compreender, se transforma em um guia claro, acessível e inclusivo, especialmente para pacientes não letrados ou com deficiências visuais e auditivas.
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| Receita feita pelo médico Lucas Cardim mostra como aplicar e armazenar a insulina - Adriano Alves/Folhapress |
E é nesse encontro entre tecnologia e sensibilidade que a medicina mostra sua face mais bonita. José Manoel de Barros, agricultor de 64 anos, é um dos muitos pacientes contemplados pela iniciativa. Sem saber ler, ele buscou atendimento após dias enfrentando uma infecção gástrica. Saiu do consultório não apenas com a receita em mãos, mas com a segurança de quem entendeu exatamente como cuidar da própria saúde. “Eu não sei ler, mas entendi tudo. O galo é de manhã, o prato de comida é no almoço e a lua é de noite. Assim ficou fácil”, contou, com a simplicidade de quem agora tem segurança sobre o próprio tratamento.
A proposta do projeto nasce de um olhar profundo sobre o ser humano. Porque não saber ler não significa não saber viver, trabalhar, construir ou aprender. “São homens e mulheres que cultivam a terra, sustentam famílias e movimentam comunidades inteiras, e que, por muito tempo, enfrentaram barreiras silenciosas dentro dos próprios serviços de saúde. A gente não está inventando nada. Estamos apenas transformando o que deveria ser regra: o direito de entender o próprio tratamento”, destacou Lucas.
Receituário mostra, além do medicamento e da dose, um desenho apontando que o paciente não deve tomar água direto da torneira - Adriano Alves/FolhapressPrefeitura de Petrolina



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