32 anos sem Senna: uma relação de mãe, filho e um capacete amarelo


Uma história de amor familiar construída nas velozes manhãs de domingo dos anos 1980 e 1990

Apaixonada por Fórmula 1, ela liga a TV, religiosamente, todos os domingos pela manhã. A paixão pelas corridas começou ainda na década de 1970, com os feitos de Emerson Fittipaldi. Lembra sempre do francês François Cèvert, seu ídolo de adolescência. E há alguns anos, era aquele capacete amarelo que a deixava ligada nas corridas. Falamos do fim dos anos 1980. Apesar de ter tido dois filhos nos últimos anos, não deixava a paixão de lado. E, despretensiosamente, começou a acordar o mais velho deles para assistir às corridas ao seu lado, no sofá da sala. Mal sabia o que estava fazendo...

A musiquinha de abertura da transmissão de TV para o Brasil era quase como o despertador desses dois. Não dava para perder aqueles duelos memoráveis entre o piloto de capacete amarelo e seu companheiro, o francês bicampeão. Ayrton Senna e Alain Prost polarizavam aquela temporada de 1988. Trocavam vitórias. Quando um não ia ao alto do pódio, era o outro. Aquela McLaren vermelha e branca passou a povoar os sonhos do menino. Nem as madrugadas do fim do ano assustavam. Acordariam juntos para ver a corrida no Japão. Ou melhor, já ficaram no sofá. Tudo para não ter risco de perder a hora da largada.

Largada do GP do Japão de 1988, com Alain Prost na frente — Foto: Reprodução

Aquela largada... Quase como uma ducha de água fria... O motor de Senna engasgou no grid, o carro ficou para trás, mas ele conseguiu sair, já no meio do pelotão, lá para o 18º lugar. Mesmo com a decepção inicial, mãe e filho continuaram no sofá, grudados na tela da TV. Vibravam a cada ultrapassagem da McLaren número 12 narrada com euforia por Galvão Bueno. Clima de final de Copa do Mundo. Senna foi se aproximando de Prost. Fim da 27ª volta. O brasileiro grudou no francês na entrada da reta dos boxes, colocou por dentro, fez a ultrapassagem e assumiu a ponta. A comemoração daqueles dois no sofá já acordava a vizinhança. O título tão sonhado estava mais perto do que nunca...

Ayrton Senna logo após ultrapassar Alain Prost no GP do Japão de 1988 — Foto: Reprodução

Foram mais 23 voltas de angústia. Senna passou a dominar a prova, mas a bandeirava teimava em não chegar. Afinal, era uma época onde os carros quebravam bastante. Conforme a ansiedade crescia, mãe e filho se abraçavam mais. Última volta! Faltavam apenas 5.859 metros para a festa. Pouco mais de um minuto e 46 segundos para a bandeirada. Os dois ainda estavam apreensivos. A festa veio só depois da curva final. Na TV, Galvão gritava: "Ayrton Senna do Brasil! Campeão mundial de 1988!". O Tema da Vitória tocava. E o sofá? A essa altura, encharcado de lágrimas. Os dois se abraçavam e comemoravam.

Foi um ano decisivo para aquele menino, que já era apaixonado por carrinhos. A F1 entrou na vida daquele moleque definitivamente. Incentivado pela mãe, nascia ali uma paixão que o acompanhou até a idade adulta. E, claro, o primeiro ídolo. Ayrton Senna. Os dois não perdiam uma corrida sequer. Manhã, tarde ou madrugada... Lá estavam os dois sentados no sofá. Assistiram ao bi, ao tricampeonato. Choraram juntos naquele domingo, 1º de maio de 1994. A paixão pelas corridas continuou viva, contudo, nos dois. O filho continuava na frente da TV nas manhãs de domingo. A mãe ficou um pouco distanciada, a princípio, mas acabaria voltando a assistir às corridas na TV ainda naquele ano.

Baú do EE: em 1988, uma entrevista exclusiva com o campeão mundial de F-1 Ayrton Senna

E o que aconteceu com os dois? A mãe continua ligada na TV em todos os domingos. Não perde uma oportunidade de assistir a uma corrida na TV. E o filho? Acabou se formando em jornalismo na faculdade e hoje trabalha diretamente com a F1, enfim comentando a categoria para o Brasil, depois de vários anos escrevendo para o maior site de esportes do país e trabalhando nos bastidores das transmissões. E pensar que tudo começou naquelas manhãs de domingo no fim da década de 1980 por causa de um piloto de capacete amarelo...

E hoje é um daqueles dias em que os dois lembram, com carinho e saudade, daqueles bons dias... A morte de Ayrton Senna completa 32 anos neste 1º de maio de 2026. Essa foi só uma das muitas histórias de inspiração que o tricampeão tem no currículo. Mesmo tanto tempo depois daquele acidente, muita gente continua a lembrar de seus feitos e a usá-los como força para se superar. Em nome daquela mãe e daquele filho, só tenho uma forma de encerrar esse texto: Obrigado, Ayrton.

Ayrton Senna comemora o título no pódio do GP do Japão de 1988 — Foto: Divulgação

Perfil Rafael Lopes — Foto: Editoria de Arte/ge.globo


Fonte: g1





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