CASO MASTER: Tentativa de compra do banco envolveu sheik árabe, Temer, advogado preso e CPF de Renzo Gracie


Veja os bastidores do processo que passaria o banco de Daniel Vorcaro para as mãos da Fictor, cujas conversas continuaram mesmo após a prisão do banqueiro; procurados, os personagens envolvidos não se manifestaram

Às 3h43 da manhã do dia 24 de dezembro de 2025, véspera de Natal, foi registrada a assinatura de Khamis Buharoon, diretor-geral da gestora de investimentos Royal Capital, dos Emirados Árabes, em um contrato com a Fictor pela aquisição conjunta do Banco Master. Os investidores estrangeiros e a empresa brasileira teriam firmado um acordo segundo o qual diziam manter interesse na compra da instituição financeira recém-liquidada pelo Banco Central, e cujo dono, Daniel Vorcaro, havia sido preso no mês anterior pela Polícia Federal.

O contrato foi assinado digitalmente. Nomes dos signatários foram registrados acima de seus números de CPF. Buharoon não tem identidade no Brasil. Abaixo de seu nome, consta o CPF do português Ludgero de Sousa, que tem empresas no País, afirma ser representante da Royal Capital e é um conhecido intermediador de negócios no mundo árabe. Ele ostenta uma vida de viagens de jatinho, festas com sheiks e fotografias ao lado de jogadores de futebol, artistas internacionais e outras celebridades. Um sócio francês de Ludgero, Eric Leandri, tem sua assinatura atrelada ao CPF de um brasileiro: o mestre de jiu-jítsu Renzo Gracie, que é amigo de Ludgero e de integrantes da família real dos Emirados Árabes fãs de MMA.

Nas redes sociais, Ludgero de Sousa (E) diz ter jantado com o sheik Hamdan Al Nahyan (C), citado por Ludgero como representante do governo dos Emirados Árabes Unidos, Renzo Gracie (D) e dois outros atletas de artes marciais. • Reprodução @ludgerosousa via Instagram

O contrato faz parte de uma série de documentos obtidos pelo Estadão, que vão de minutas de aquisição do Master a cartas supostamente assinadas por endinheirados árabes e russos com a intenção de comprar o Master junto com a Fictor. A reportagem reconstituiu a operação desesperada de Vorcaro para se desfazer do Master quando já era investigado pela Polícia Federal e cobrado pelo Banco Central por soluções para a saúde do caixa da instituição financeira. Em seu périplo, Vorcaro foi apresentado até mesmo a um membro da realeza dos Emirados Árabes pelo ex-presidente Michel Temer. Também recorreu a fileiras de intermediários brasileiros e estrangeiros que dizem ter acesso ao alto escalão do país e bilionários.

Todos os personagens do contrato assinado após a liquidação do banco e primeira prisão de Vorcaro silenciaram diante de pedidos de entrevista do Estadão. Em suas redes sociais, o lutador já achincalhou o Master ao compartilhar um vídeo que associa o escândalo ao PT. “A explicação simples e clara do Banco Master, e quem são os beneficiados por essa fraude bilionária. Faz o ‘L’, otário”, disse o lutador, que é amigo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Buharoon e o Royal Capital não responderam se eram realmente signatários do contrato ou se deram poderes para serem representados por terceiros no ato de suas assinaturas.

O documento nunca produziu efeitos e o negócio não foi fechado. Dias depois dessas assinaturas, a Fictor pediu recuperação judicial. Na época, a empresa justificou a crise com a alegação de que sofreu uma corrida bancária, com investidores sacando recursos de seus fundos, ao ser envolvida na crise do Master. De acordo com a empresa, as dívidas são de R$ 4 bilhões - R$ 1 bilhão a mais do que a Fictor havia oferecido por sua fatia na compra do Master em conjunto com os estrangeiros.


De R$ 8 bilhões a R$ 1

A Fictor, até então mais conhecida mesmo por patrocinar o Palmeiras, ganhou os holofotes quando, no dia 17 de novembro, anunciou que compraria o Banco Master. A empresa começou pequena, no interior de São Paulo, prestando serviços de tecnologia. Seu sócio, Rafael Gois, a transformou então em uma companhia de investimentos. Vendia a investidores aportes em supostos negócios de compra e venda de grãos de milho e soja. Depois, abriu diversas outras frentes.

Comprou frigoríficos em apuros financeiros e até campos de energia solar. Passou a ter sede em um prédio em Cidade Monções, bairro nobre na Zona Sul de São Paulo. Nos últimos anos, a empresa tem sido constantemente cobrada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por não seguir as regras do mercado financeiro e não submeter esses investimentos que vendia ao crivo do órgão.

A holding prometia R$ 3 bilhões pela metade do Master. As gestoras de fundos árabes Royal Capital e Patronus Wealth e a suíça Monte Rosa entrariam com outros R$ 3 bilhões. Vorcaro e sócios da Fictor garganteavam a advogados e parceiros de negócios que a consumação da venda transformaria o Master em “Banco Fictor”. O acordo seria selado com festa em Dubai. Todas as 1,2 milhão de lâmpadas da fachada do maior edifício do mundo, o Burj Khalifa, de 160 andares e 860 metros de altura, ficariam verdes - cor da Fictor.

Segundo o contrato e a proposta enviada ao BC, caberia a Vorcaro captar investidores estrangeiros. O banqueiro também precisava garantir que o banco tinha R$ 8 bilhões em ativos que parassem em pé. Do lado da Fictor, os sócios sabiam que o banco poderia ter problemas. “Que o Daniel poderia ser preso em algum momento, eu não tinha dúvida, tá? Eu tinha essa sensação há mais de um ano. Mas que o banco ia ser liquidado para mim foi uma surpresa. Não precisava liquidar”, disse Rafael Gois ao Estadão.

Cláusulas nos contratos protegiam Gois e seus sócios no caso de as garantias serem duvidosas. Se os precatórios, carteiras de crédito e imóveis do banco não existissem ou tivessem valores inflados ou origem fraudulenta, o valor deles seria abatido dos R$ 3 bilhões que a Fictor deveria pagar por sua fatia no banco. A ideia é que, reduzidas as garantias a pó, ao fim, viraria uma compra de um banco por R$ 1.


Temer e o Sheik

Vorcaro bateu em muitas portas nos Emirados Árabes. E tentou usar toda a influência de seu time para atrair investidores. Um desses personagens foi o ex-presidente Michel Temer (MDB), a quem pediu ajuda para apresentar possíveis interessados. O emedebista já havia sido contratado pelo banqueiro, antes da busca por árabes e russos, para outros fins. A principal missão era acalmar os donos de bancões brasileiros sobre a situação do Master. A preocupação deles era com o rombo que o banco daria ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas, Vorcaro, que se via como um outsider do sistema bancário, acreditava que existia má vontade e alguma pressão de banqueiros no BC para que o Master fosse asfixiado.

Temer também tentou trazer Vorcaro para investir na Editora Três, dona da revista Isto É, que teve sua falência decretada tempos depois. O emedebista tem uma boa relação, de longa data, com a família do falecido Domingo Alzugaray, que fundou a editora. Em 2016, anos antes de se relacionar com Vorcaro, foi homenageado pela revista como personalidade do ano. A editora acabou comprada em leilão pela Entre Pay, empresa de um parceiro de Vorcaro investigado pela PF, que também foi liquidada pelo BC. Segundo a quebra de sigilo fiscal do Master, o ex-presidente recebeu R$ 10 milhões do banco. Um membro da família Alzugaray que, falou sob condição de anonimato, negou ter recorrido ao ex-presidente para salvar a editora Três e intermediar a relação com Vorcaro.

Temer desembarcou em Abu Dhabi, no início de novembro, após participar de um evento do LIDE, grupo empresarial do ex-governador de São Paulo João Doria, em Londres. Ele estava acompanhado do empresário Mário Arruda, do ramo imobiliário. Eles jantaram no palácio do sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, membro da família real e vice-governante de um dos sete Emirados que compõem o país no Oriente Médio. O jantar serviu comida que daria para alimentar cem pessoas, mas havia apenas 20. Curioso sobre o destino da comida que sobraria, o presidente ouviu do sheik que o resto viraria marmitas para trabalhadores da construção civil. Não era a primeira vez que Al Mualla recebia brasileiros. Mário Arruda também levou Doria e uma comitiva do Lide ao seu palácio.

Em meio à conversa, o emedebista perguntou ao sheik se haveria interesse no Master e recebeu a resposta de que Al Mualla estaria inclinado a considerar a entrada no sistema financeiro brasileiro. Advogados próximos de Vorcaro afirmam que o sheik chegou a participar de mais de uma dezena de reuniões, mas recuou e desistiu do negócio. Vorcaro, Temer, Mário Arruda e o sheik chegaram a posar para uma foto juntos. A fotografia foi antecipada pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. O banqueiro também circulava em Dubai, hospedado no Four Seasons, em uma suíte presidencial, onde tinha reserva para uma semana. O custo da hospedagem era de R$ 500 mil. Era a mesma suíte reservada para a viagem que estava marcada para o dia 17 de novembro, quando Vorcaro foi preso no Aeroporto de Guarulhos. Procurados, Temer, Arruda e a defesa de Vorcaro não quiseram se manifestar.

Daniel Vorcaro, ex-presidente Michel Temer, sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, Mario Arruda e Bruno Burilli posam para foto em uma reunião em Abu Dhabi. • Foto cedida ao Estadão


Russos e árabes

O advogado Bruno Burilli, que também está na foto com o sheik Al Mualla, é amigo de longa data do banqueiro e atuou pela Fictor. Ele conduziu mais de uma dezena de road shows em que o Master era apresentado a investidores estrangeiros como um bom ativo. Sua principal carta na manga era a licença que o banco tinha em um sistema de transações financeiras internacionais chinês, o que permitia que países com relação ruim com os Estados Unidos fizessem movimentações financeiras sem passar pelo sistema bancário norte-americano. Os principais interessados eram árabes e russos, que vêm migrando seus investimentos para os Emirados Árabes. Procurado, Burilli não se manifestou.


O ex-Master e o jornalista

Um dos representantes de investidores árabes e russos em contato com Burilli era Christopher Langner, que começou a vida como jornalista na área de economia. Escreveu para a Folha de S. Paulo, Forbes e, no exterior, chegou a ser repórter do Wall Street Journal. Mudou de área, se especializou em economia e chegou a ser head de investimentos do First Abu Dhabi Bank.

Criou contatos nos Emirados Árabes, passou a representar o Lide no país e intermediar a relação de investidores em Abu Dhabi. Ele atua em parceria com Antonio Marques de Oliveira Neto, que foi dirigente do Master até 2020, deixou o banco e, na negociação, estava do outro lado do balcão, atuando pela Fictor. Mais tarde, foi anunciado como escolhido para ser CEO do Banco Fictor, que seria resultado da aquisição do Master. Marques não estava na viagem a Dubai, mas iria, mais tarde, a Abu Dhabi, para falar com investidores após a prisão de Vorcaro.

Marques já atuou para um desafeto e aliados do governo de Vladimir Putin. No passado, tentou aproximar o banqueiro russo Oleg Tinkov, famoso por ter rompido com o Kremlin após a invasão da Ucrânia, para comprar o Will Bank. À época, em 2021, o banco recebeu um grande aporte de um fundo da XP e da Atmos Capital. Em 2024, foi parar nas mãos de Vorcaro. Hoje, o banco está em liquidação pelo BC.

Na corrida de Vorcaro para se desfazer de ativos, Langner e Marques tentaram trazer para a mesa a SMI Holding, uma empresa sediada em Abu Dhabi, presidida por um sheik chamado Mohammed Bin Tahnoon AL Nahayan, diretor-geral da Polícia de Abu Dhabi e filho de um falecido ex-governante dos Emirados Árabes. Seu diretor é um russo, Stanislav Kudriashov. Procurado, Antonio Neto não quis se manifestar. Stanislav e o sheik Al Nahayan não se manifestaram. Langner afirmou que não poderia se manifestar em razão do sigilo contratual na relação com seus clientes.

A SMI Holding teria avançado nas tratativas para adquirir o Banco Master de Investimentos, um braço do Master, com outro CNPJ, destinado a operações de investimentos mais complexos. Envolvidos na negociação mostraram ao Estadão uma carta supostamente assinada por Stanislav e o sheik Tahnoon em que declaram a intenção de compra, com interesse em investir no setor financeiro e “de mineração”, além de “promover negócios entre os dois países”. A carta é de 14 de novembro de 2025. Em um contrato mais detalhado, datado de 7 dias antes, os árabes e russos, representados pela sociedade anônima Joia Holding, se comprometeriam a injetar R$ 3 bilhões por 50% do banco de investimentos de Vorcaro. A outra metade seria dos sócios da Fictor.


Operador de propina e os contratos

Desde outubro, Vorcaro já demonstrava nervosismo com a possibilidade de ser preso. Tinha em sua folha de pagamentos Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão, o “sicário”, que recebia R$ 1 milhão e, no mês anterior, havia dito a Vorcaro que ele estava “limpo” na Interpol, além de prometer que teria acesso a documentos do FBI. Mais tarde, ele seria preso e cometeria suicídio na carceragem da PF em Minas Gerais.

No dia 16 de novembro, com nova passagem comprada para Abu Dhabi, onde teria outras reuniões com possíveis investidores e ficaria hospedado novamente na suíte presidencial do Four Seasons, Vorcaro se desesperou. Em arquivos de seu celular, consta que ele registrou uma pergunta: “Vocês são próximos?”. Abaixo dela, estava o nome do juiz Ricardo Soares Leite, da 10.ª Vara Criminal. Não se sabe a quem a dúvida foi endereçada. Pessoas próximas relatam ao Estadão que, enquanto pressionava sua defesa para descobrir se havia um mandado de prisão, o banqueiro montou uma operação de guerra para pôr de pé a venda de seu banco à Fictor.

Na área criminal, empenhou um time de peso de advogados. Os criminalistas Roberto Podval e Pierpaolo Bottini, Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União, e Walfrido Warde, que atuou pelo banco perante o Fundo Garantidor de Crédito, peticionaram ao magistrado mencionando a “desnecessidade e o descabimento de medidas cautelares” contra o cliente. Eles afirmaram ter obtido a informação sobre o inquérito por meio de uma notícia do site O Bastidor. Um relatório da PF evidencia a tensão de Vorcaro e de sua defesa naquele dia. O documento mostra que Warde mencionou a Vorcaro que havia pedido audiência com o magistrado e disse que estava “infernizando” Leite. Àquela altura, o juiz já havia deferido a prisão do banqueiro. Procurados, Warde, Podval e Bianco não se manifestaram. Bottini afirmou que, com ele, Vorcaro "nunca falou em medo de prisão". "A petição foi feita depois de ter sido divulgada a Vara em que estava tramitando o inquérito policial. A petição fala em eventual liquidação, algo absolutamente comum em petições desse gênero", disse.

Vorcaro também queria mostrar o mais rápido possível que estava se desfazendo do Master. Delegou ao seu braço direito jurídico, o advogado Daniel Monteiro, a tarefa de acelerar o processo. Com vaga de garagem e um escritório dentro do Master, ele já havia participado de operações suspeitas do banqueiro. Uma delas diz respeito à venda de carteiras de crédito consignado ao BRB, investigadas pela Polícia Federal. No último dia 16, foi preso sob acusação de ter intermediado o pagamento de R$ 140 milhões em propinas do Master ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por meio da transferência de imóveis de luxo. O escritório de Monteiro recebeu R$ 71 milhões do banco, segundo relatórios do Coaf.

Advogados da banca de Monteiro passaram a noite em claro organizando documentos. A papelada produzida por eles ficou pronta na manhã do dia 17 de novembro. Foi assinada digitalmente por Daniel e o trio de sócios da Fictor, Rafael Gois, Luiz Philippi Rubini e Rafael Paixão, por volta das 13h. Segundo o documento, quem adquiriria o Master não era a Fictor, mas, sim, uma holding integrada por seus sócios, chamada RPR Capital. Até aquele dia, ela se chamava Giuseppe Holding, em referência ao nome do meio de Paixão. Depois, seu nome seria mudado.

Em uma ata de assembleia registrada às 7h da manhã, os sócios declararam capitalizar a empresa, cada um, em R$ 1 bilhão em "moeda corrente nacional". Antes, o capital era de R$ 1 mil. Rubini afirmou que deixou a Fictor em dezembro de 2024. Paixão afirmou que tinha planos para trazer o Master de volta ao mercado de crédito consignado e que apenas se associou a Gois para a compra do Master. Ele afirma que já atuava nessa área em parceria com a Fictor.

Também foi confeccionado e enviado ao Banco Central o documento em que a RPR Capital propunha a compra do Master. Vorcaro e seus advogados tinham em mãos muitas cartas de intenções de compra dos árabes. Prometia-se investir até US$ 800 milhões no banco. Essas cartas, no entanto, não significavam que o negócio estava fechado. Na proposta de 45 páginas, nenhum dos três fundos com os quais o banqueiro e a Fictor dizem até hoje contar como seus investidores estrangeiros foi mencionado. Apenas constava que o banqueiro traria esses investidores estrangeiros ao negócio.


Insistência após liquidação

Horas depois de assinar o contrato com a Fictor, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte, 18 de novembro. A defesa do banqueiro, mais tarde, mostrou à Justiça que ele tinha passagem paga para Dubai e reserva no Four Seasons para continuar a negociação com investidores estrangeiros.

A Fictor insistiu na aquisição do banco mesmo depois disso. Burilli e Antonio Neto foram novamente a Abu Dhabi. Nos dias 20 e 21, eles se encontraram novamente com emissários de investidores. Antonio Neto tinha encontro marcado novamente com a SMI Holding. Burilli buscou a Royal Capital, que, desta vez, tinha como intermediário Lucas Bittencourt, que é britânico, mas tem família brasileira. Ele é fundador da Arbra, empresa do mercado financeiro de Londres que abriga, também, Zeca de Oliveira, ex-presidente do BNY Mellon, que foi alvo de operações da Polícia Federal por fraudes no fundo de pensão Postalis, dos funcionários dos Correios. Absolvido em uma ação penal e respondendo outras até hoje, Oliveira chegou a ser consultor da Fictor antes da venda do Master. Ele afirma ao Estadão que nunca tratou do tema da aquisição do banco e descobriu o negócio pelos jornais. A Arbra afirmou que não comenta "informações não verificadas, especulações de mercado, negociações com terceiros ou quaisquer assuntos exploratórios". "Não facilitamos o contato direto com nossa equipe", disse a empresa.

No dia 25 de novembro, representantes da Fictor e dos fundos estrangeiros foram ao Banco Central para tratar da possibilidade de comprar o Master. Eles queriam emplacar o entendimento segundo o qual a aquisição do banco por outro grupo poderia implicar na saída do regime de liquidação. Do lado da Fictor, estavam o sócio Rafael Gois, o advogado Bruno Burilli e Antonio Neto, além de Christopher Langner, o jornalista que atua pelos fundos estrangeiros. Eles levaram ainda Caetano de Vasconcellos Neto, advogado que foi dirigente do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e que atuou em outras aquisições de bancos liquidados. Vasconcellos era consultor do Banco Master. Foram recebidos por Climério Leite Pereira. Representantes da Fictor, por exemplo, levaram ao BC as cartas de intenção das gestoras de fundos estrangeiras.

Até o fim de dezembro, seria confeccionado o contrato entre a Fictor e representantes da Royal Capital pela compra do Master, que nunca aconteceu. Ao Estadão, Rafael Gois, dono da Fictor, que também esteve nas reuniões em Abu Dhabi, afirma que o fundo já tinha negócios com a empresa, no setor de alimentos, relação que foi mantida mesmo após a recuperação judicial do grupo. Ele diz que não houve mais respostas do Patronus e do Monte Rosa. O fundo suíço afirmou ao Estadão que, por “razões regulatórias", não pode "divulgar informações sobre potenciais investidores, contrapartes ou outros assuntos confidenciais”. “No entanto, podemos afirmar que nunca houve investimentos diretos ou indiretos no Banco Master”.

Toda essa história é investigada pela Polícia Federal, pela suspeita de que a proposta da Fictor pelo Master tenha sido apenas um teatro de Vorcaro para tumultuar investigações e ganhar tempo com o Banco Central na iminência da liquidação do banco.


Linha do tempo

📆03/09/25
Banco Central rejeita a compra do Banco Master pelo BRB.

Em março de 2025, o conselho do Banco BRB aprovou a compra de 58% do capital total do Banco Master. - Joédson Alves/Agência Brasil

📆16/10/25
Titan Holding, de Daniel Vorcaro, faz um negócio de R$ 566 milhões com a Fictor. O valor foi pago pela aquisição de direitos creditórios de usinas de açúcar e álcool que conseguiram na Justiça a condenação do governo federal a indenizá-las em razão de prejuízos causados pelo congelamento de preços nos anos 1980. O valor equivale à quantia que elas teriam a receber decorrente da condenação judicial. O Banco Master comprou esses direitos das usinas e repassou à holding de Vorcaro, que vendeu à Fictor.

Print do contrato entre a Fictor e a Titan Holding, obtido pelo Estadão. - Reprodução


Toda a operação foi feita por meio de fundos administrados pela Sefer, empresa de Benjamim Botelho, o “arquiteto” do Banco Master ligado a Vorcaro. A Titan, sediada nas ilhas Cayman, é dona de um escritório no “prédio da baleia”, na Faria Lima, que ostenta adega, academia e sauna.

Titan Holding, de Vorcaro, possui um escritório no “prédio da baleia”, em São Paulo. - Felipe Rau/Estadão

📆1º sem. nov.
Ex-presidente Michel Temer viaja para Abu Dhabi e se reúne com o sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, vice-governante de um dos estados dos Emirados Árabes, para tratar da compra do Master. Ele foi apresentado a Vorcaro e representantes da Fictor, mas o negócio não foi fechado.

Advogado da Fictor, Bruno Burilli é um dos responsáveis por apresentações do Master aos árabes. Ele é amigo de longa data de Vorcaro, tem histórico de atuação para empresários de seu entorno. Ele também foi intermediador da compra dos direitos de e usinas de açúcar pela Fictor junto à holding de Vorcaro. Estava em Dubai representando a Fictor. Recentemente, deu parecer ao Master em seu processo de liquidação.

Daniel Vorcaro, ex-presidente Michel Temer, sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, Mario Arruda e Bruno Burilli posam para foto em uma reunião em Abu Dhabi. - Foto cedida ao Estadão

📆05/11/25
Daniel Vorcaro e aliados se reuniram em Dubai com intermediários que dizem ser representantes do sheik Mohammad Bin Tahnoon AL Nahyan, diretor-geral da Polícia de Abu Dhabi e filho de um falecido ex-governante dos Emirados Árabes. Ele é sócio da SMI Holding, que tem um russo como diretor. Al Nahyan não atendeu à reportagem.

O contato com a SMI Holding foi intermediado por Antonio Marques de Oliveira Neto, que foi dirigente do Banco Master no passado e fez parte da negociação da compra dos direitos creditórios de usinas pela Fictor junto à holding de Vorcaro.

Ele é parceiro de Christopher Langner, que foi jornalista, mudou de área, passou pelo First Abu Dhabi Bank, e virou intermediário de negócios nos Emirados Árabes.

Chris Langner, intermediário de negócios em Abu Dhabi. - Reprodução Christopher Langner via Linkedin

📆07/11/25
Uma oferta atribuída por intermediários à SMI Holding, do sheik Al Nahyan, é assinada. No documento, a SMI propõe a prestação de garantias para a aquisição de 30% do Banco Master pelo valor simbólico de R$ 1 e se compromete a assumir R$ 3 bilhões em dívidas com o FGC. A carta é endereçada à empresa Joia Holding, sociedade formada pelos investidores árabes e russos, e o fechamento da transação estava condicionado ao uso dos sistemas de transferências internacionais SWIFT e CIPS, que o Master tinha acesso.

Reprodução do contrato atribuído à SMI Holding, em que a empresa propõe comprar 30% do Master por R$ 1. - Reprodução

📆14/11/25
Carta atribuída à SMI Holding, supostamente assinada pelo sheik Al Nahyan, é usada por representantes do Master para tentar convencer o Banco Central de que negociações no mundo árabe vingaram. A carta tem o nome do sheik redigido de duas maneiras diferentes. Procurado, por meio da Polícia de Abu Dhabi, ele não se manifestou.

Reprodução da carta atribuída à SMI Holding, em que a empresa reforça o interesse pelo Master. - Reprodução

📆16/11/25
Daniel Vorcaro recebe um vazamento clandestino das investigações e descobre que vai ser preso. Por conta disso, mobiliza advogados e parceiros para pôr de pé, do dia para a noite, a papelada da aquisição do Master pela Fictor. Um desses personagens é o advogado Daniel Monteiro, cujo escritório viria a elaborar o contrato de venda do Master. Mais tarde, ele seria preso na condição de operador de propinas de Vorcaro ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Sem negócio realmente fechado com os árabes, a proposta sequer cita os três fundos estrangeiros com os quais Vorcaro alega ter fechado negócio.

Daniel Monteiro, apontado como “arquiteto jurídico” do Banco Master. - Divulgação/ ASSESSORIA

📆17/11/25
Às 7h – Às pressas, sócios da Fictor tiram da gaveta uma holding com capital de R$ 1 mil, e registram uma ata de assembleia na qual integralizam R$ 3 bilhões em “moeda corrente” na companhia. A RPR Capital, pertencente a Luiz Philippi Rubini, Rafael Paixão e Rafael Gois, seria usada para constar na proposta de aquisição do Master enviada ao Banco Central.

O CEO e fundador do Grupo Fictor, Rafael Gois, um dos alvos da Polícia Federal. - Fictor

Às 15h24 – Donos da Fictor e Banco Master assinam um contrato de compra e venda de ações. Os sócios da Fictor, representados pela sociedade RPR Capital, propõem a compra do banco por R$ 3 bilhões em consórcio com “investidores árabes”.

Às 22h – Daniel Vorcaro é preso pela polícia federal pela venda de R$ 12,2 bilhões em títulos podres ao Banco de Brasília (BRB).

Imagem de câmera de segurança do momento em que Daniel Vorcaro é preso no Aeroporto de Guarulhos (SP). - Reprodução


📆18/11/25
Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master.

📆20/11/25
Antonio Marques, ex-dirigente do Banco Master e então representante da Fictor, viaja com o advogado Bruno Burilli, também representante da Fictor, para Abu Dhabi. O primeiro foi escalado para se reunir com representantes da SMI Holding novamente. Já Burilli teve uma nova reunião com Lucas Bittencourt, que se apresentou como intermediário da Royal Capital, uma gestora de fundos árabe. A empresa da qual Bittencourt é sócio abriga em seus quadros o ex-presidente do BNY Mellon, Zeca Oliveira, que prestou consultoria à Fictor e responde por acusações de fraudes em fundos de pensão.


Fonte: Estadão 




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