Pesquisa publicada em revista científica identificou relação entre ocupação materna e TEA; especialista explica o que os dados realmente mostram e o que ainda não se sabe
De acordo com o Censo Demográfico 2022, divulgado em 2025 pelo IBGE, 2,4 milhões de brasileiros vivem com o transtorno do espectro autista (TEA). O aumento expressivo de diagnósticos nos últimos anos tem motivado cada vez mais estudos que buscam explicar esse aumento.
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A profissão da mãe pode aumentar as chances do diagnóstico de autismo no filho? Pesquisa responde — Foto: Magnific
O que se sabe com mais segurança é que o autismo tem a genética como principal causa, e a ligação com vacinas também já foi amplamente investigada e descartada pela ciência. No entanto, um outro fator entrou no radar dos pesquisadores: o tipo de trabalho da mãe durante o período gestacional.
Um estudo publicado em maio de 2026, no jornal Occupational & Environmental Medicine, conduzido por pesquisadores da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, identificou associações entre algumas ocupações maternas e maior probabilidade de ter filhos diagnosticados com TEA.
Quais profissões aparecem?
Segundo os dados, mulheres que trabalharam em funções militares ou no setor judiciário, antes ou durante a gravidez, têm 59% mais chances de ter um filho com TEA. Já profissionais do transporte terrestre, expostas a produtos da combustão, apresentaram aumento de 24% no risco, e trabalhadoras da administração pública, de 20%.
O neurologista Erasmo Casela, especialista em infância e adolescência do Hospital Israelita Albert Einstein e professor livre-docente em neurologia pela Faculdade de Medicina da USP, explica que esses estudos não apontam profissões específicas como causa, e o que está em investigação é o estresse e a exposição a substâncias tóxicas que podem afetar o neurodesenvolvimento.
O profissional acrescenta que pesquisas da área apontam que mães expostas a solventes no ambiente de trabalho desde os três primeiros meses antes da concepção até o nascimento têm risco cerca de 1,5 vez maior de ter filhos com TEA. Pesticidas, especialmente organofosforados e piretroides, também demonstraram associações significativas com aumento do risco do transtorno.
De acordo com ele, os poluentes atmosféricos também entram nessa lista. "Os poluentes atmosféricos, particularmente o material particulado PM2,5, também demonstraram associação com TEA. Em alguns estudos, cada aumento de 5 microgramas por metro cúbico foi associado a aumento de 7% no risco do transtorno", destaca.
O neurologista aponta ainda que o estresse psicológico materno é associado a 72% mais probabilidade de diagnóstico de TEA nos filhos. "Já sabemos que estresse e exposição tóxica podem afetar o neurodesenvolvimento das crianças, aumentando processos inflamatórios na mãe durante a gravidez", diz ele. Essa associação, porém, "foi consistente para estresse, depressão e ansiedade, sugerindo que o risco elevado não estaria ligado apenas ao estresse isoladamente", explica.
O que ainda não se sabe
Casela, no entanto, pede cautela na leitura dos dados e ressalta que os resultados precisam ser interpretados com cuidado, pois os próprios autores enfatizam que esse é apenas um estudo observacional e que ele não prova relação direta de causa e efeito. "Essas relações ainda estão sendo investigadas", afirma.
A quantidade de estudos disponíveis ainda é pequena e enfrenta dificuldades para controlar todos os fatores externos envolvidos, o que torna as conclusões preliminares. "Ainda são necessários mais estudos para avaliar esses possíveis desencadeantes", reforça o profissional.
Fonte: Revista Crescer

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