Contar minutos é uma forma pouco eficaz de controlar os hábitos com o celular. Especialistas afirmam que os verdadeiros antídotos incluem uma parentalidade mais consciente, conteúdos selecionados e conexões humanas
Criança no celular — Foto: FreepikQuase duas décadas após a chegada dos smartphones, a sociedade enfrenta um problema que só piorou com o tempo: as pessoas gostam tanto de seus celulares que não conseguem largá-los.
Escolas em todo o mundo, citando a queda no desempenho acadêmico causada pela distração digital, estão proibindo os aparelhos nas salas de aula. Milhares de processos acusam empresas de tecnologia de desenvolver aplicativos viciantes, incluindo um caso recente na Califórnia, em que um júri considerou Meta e Google responsáveis por causar danos. A preocupação generalizada com a dependência do celular chegou até a impulsionar um renascimento dos “dumbphones” — aparelhos mais simples e minimalistas —, escolhidos por pessoas que querem escapar da cultura obcecada por aplicativos e do desgaste mental causado pelo uso excessivo.
E, ainda assim, por mais que adultos mais velhos reclamem que os jovens de hoje vivem grudados nas telas, poucos percebem que eles próprios também fazem parte do problema. Pais que tentam impor regras de tempo de tela aos filhos frequentemente não seguem restrições semelhantes para si mesmos. (Aliás, medir horas de uso não é exatamente uma boa solução, e existem medidas mais úteis.) E assim o hábito de rolar a tela continua.
Mas chega de falar dos problemas. Quais são as soluções? Entrevistei especialistas, incluindo professores que apresentaram técnicas respaldadas por pesquisas para reduzir o uso problemático do celular. Eles sugeriram medidas como criar um plano de consumo de mídia para toda a família e estabelecer áreas livres de telas dentro de casa.
Veja o que é importante saber.
Avalie o problema
Primeiro, é importante avaliar se você ou seu filho apenas usam muito o celular ou se já apresentam um comportamento que pode ser considerado vicioso.
Jason Nagata, professor associado de pediatria da Universidade da Califórnia em São Francisco, comparou a situação ao abuso de substâncias. Muitas pessoas apreciam uma bebida ocasionalmente, mas o comportamento se torna problemático quando começa a prejudicar a vida social, os relacionamentos ou o trabalho.
Os mesmos sinais de alerta podem ser aplicados ao uso do celular. Se uma pessoa passa a maior parte do tempo rolando redes sociais em vez de fazer amizades, isso pode indicar um problema. Ou, se as notas do seu filho estão caindo porque ele passa o tempo nas redes sociais em vez de estudar, talvez seja hora de intervir.
Crie um plano familiar para o uso de mídia
Como costuma acontecer, o comportamento dentro de casa começa pelos adultos.
Um estudo liderado por Nagata descobriu que um maior uso de mídia pelos pais estava associado a um uso mais problemático do celular entre os filhos adolescentes. E, entre os jovens que aparentavam ser viciados em seus aparelhos, os problemas de saúde se multiplicavam: eles apresentavam maior probabilidade de desenvolver sintomas de depressão, transtorno de déficit de atenção, comportamento suicida e distúrbios do sono.
Por outro lado, pesquisas também apontaram que o uso problemático do celular entre os jovens diminuía significativamente quando os pais estabeleciam limites para o uso dos aparelhos em determinadas situações, como na hora de dormir e durante as refeições, explicou Nagata. As crianças dormiam melhor quando os celulares ficavam fora do quarto e tinham menos tendência a exagerar na comida quando os aparelhos eram mantidos longe da mesa de jantar.
— É importante que os pais deem o exemplo. Se você cria regras sobre celulares à mesa, precisa segui-las também — afirmou Nagata.
Por isso, vale criar um plano familiar para o uso de mídia. Esse plano pode variar ao longo da semana. Por exemplo: as regras podem ser mais rígidas nos dias úteis, sem celulares à mesa durante a semana escolar, e mais flexíveis nos fins de semana, permitindo que adolescentes usem os aparelhos para combinar saídas com amigos.
Elaborar um plano familiar consistente é mais fácil na teoria do que na prática, já que adultos frequentemente enfrentam dificuldades para equilibrar a vida doméstica com as exigências do trabalho. Nagata admitiu que, quando precisava quebrar sua própria regra e usar o celular durante o jantar, primeiro avisava a família de que estava de plantão.
Pense menos no tempo e mais no conteúdo
Durante boa parte da era dos smartphones, as pessoas preocupadas com o uso do celular focavam no “tempo de tela” — as horas passadas no aparelho — como métrica para determinar se havia dependência. Mas especialistas hoje concordam que esse conceito está ultrapassado, porque nem todo tempo de tela é igual. Uma pessoa pode passar muitas horas por dia escrevendo mensagens de trabalho ou lendo um livro no celular — atividades que não são problemáticas.
Cal Newport, professor de ciência da computação da Universidade de Georgetown e autor de diversos livros sobre como minimizar distrações digitais, sugeriu pensar no conteúdo digital da mesma forma que pensamos na alimentação. Redes sociais como Instagram e TikTok, que envolvem rolar infinitamente vídeos curtos e aleatórios, poderiam ser consideradas “junk food digital”, projetadas para causar dependência.
Reduzir ou eliminar esses aplicativos deveria ser prioridade, mais importante do que simplesmente contar quantos minutos são gastos no celular.
— Tudo bem pensar nesses aplicativos como se fossem Doritos ou Oreo do conteúdo digital e simplesmente dizer: "Sou adulto, não preciso disso" — afirmou Newport.
Os pais também podem adotar essa abordagem ao criar regras para os filhos. Embora o consenso atual favoreça esperar até o ensino médio para dar o primeiro celular aos adolescentes, Newport sugere adiar o acesso às redes sociais até a segunda metade do ensino médio, quando os jovens já têm maior maturidade emocional para lidar com esse tipo de estímulo.
Substitua o hábito de rolar a tela por atividades mais saudáveis
Para quem tenta reduzir o uso do celular, a parte mais difícil é descobrir o que fazer no lugar disso — especialmente quando parece que todo mundo ao redor está grudado nas telas.
Jenny Odell, artista de Oakland, na Califórnia, autora do livro “How to Do Nothing”, sobre resistência à economia da atenção, sugeriu atividades que combatem as consequências negativas do uso excessivo do celular, incluindo o prejuízo às relações sociais.
Ela relembrou o trabalho voluntário em um festival realizado em fevereiro, em Berkeley, Califórnia, onde membros da comunidade ensinavam pessoas a consertar objetos. Em um dos estandes, ensinavam costura, e um grupo de estudantes do ensino médio permaneceu ali por horas, aprendendo diferentes formas de trabalhar com as mãos.
— Percebo que existe uma divisão curiosa entre jovens da geração Z que são extremamente viciados em celular e aqueles que são muito intencionais, buscando outras atividades. Não sei exatamente o motivo disso. Talvez tenha relação com a idade em que ganharam o primeiro celular — disse Odell.
Fonte: O Globo

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