Inventários ficam mais complexos com reconhecimento de padrastos, madrastas, pais afetivos e múltiplos vínculos familiares
Imagem criada por Inteligência Artificial simboliza família no corredor de fórum: estruturas mais complexas e vínculos socioafetivos têm levado o Judiciário a ampliar interpretações sobre herança e sucessão patrimonial no Brasil | Foto: ChatGPT
As transformações nos modelos familiares brasileiros têm provocado impactos nas disputas por herança e levado o Judiciário a ampliar interpretações sobre quem pode ser reconhecido como herdeiro.
Situações envolvendo multiparentalidade, famílias recompostas, vínculos socioafetivos e uniões estáveis vêm tornando os processos sucessórios mais complexos e aumentando a busca por planejamento patrimonial.
Segundo o advogado Lucas Judice, especializado em Direito patrimonial, o conceito tradicional de família previsto no Código Civil já não consegue abranger integralmente a realidade atual.
“A herança deixou de ser analisada apenas sob uma lógica biológica ou exclusivamente formal. Hoje, o Judiciário considera vínculos de afeto, convivência e responsabilidade familiar, reconhecendo diferentes estruturas familiares que antes não encontravam respaldo claro na legislação”, afirma.
Um dos exemplos mais relevantes é a multiparentalidade, situação em que uma pessoa possui mais de um pai ou mais de uma mãe reconhecidos juridicamente.
Nesses casos, todos os vínculos podem produzir efeitos sucessórios equivalentes aos da filiação tradicional, ampliando o número de herdeiros e tornando a divisão patrimonial mais delicada.
Para Judice, além das questões jurídicas, há forte impacto emocional nos inventários envolvendo estruturas familiares mais complexas. “Muitas vezes, são irmãos com os mesmos direitos sucessórios, mas sem convivência ou vínculo afetivo. O inventário deixa de ser apenas uma discussão patrimonial e passa a carregar sentimentos antigos, o que pode dificultar acordos e potencializar conflitos”, explica.
Outro tema que vem gerando dúvidas é a coparentalidade sem relação conjugal. O especialista diz que a existência de filhos em comum não cria automaticamente direitos sucessórios entre os pais.
“A responsabilidade parental existe, mas isso não significa participação automática na herança do outro genitor”, afirma.
Apesar dos avanços nas decisões judiciais, o advogado ainda vê lacunas importantes na legislação brasileira, especialmente em temas como herança digital, reprodução assistida e novas formas de parentalidade. “A realidade social evoluiu mais rápido que a legislação”, diz.
Formalização ainda é decisiva para evitar disputas
Apesar dos avanços nas decisões judiciais sobre herança e novas estruturas familiares, especialistas alertam que a formalização das relações ainda é decisiva para evitar disputas patrimoniais. Embora casamento e união estável tenham hoje direitos sucessórios mais próximos, diferenças importantes permanecem, principalmente na comprovação da convivência.
Segundo o advogado patrimonial Lucas Judice, muitas pessoas acreditam que anos de convivência são suficientes para garantir proteção jurídica em caso de morte de um dos parceiros.
“Sem documentação mínima ou provas suficientes da união estável, o parceiro sobrevivente pode enfrentar disputas judiciais com outros herdeiros”, afirma.
Na avaliação do especialista, a ausência de planejamento patrimonial segue sendo um dos principais fatores de conflito em inventários, especialmente em famílias recompostas ou com estruturas mais complexas. Judice ressalta ainda que a organização prévia não deve ser vista como preocupação exclusiva de pessoas com grandes fortunas.
“Qualquer pessoa que tenha patrimônio, filhos, empresa ou uma configuração familiar mais complexa pode se beneficiar”, diz.
Fonte: Jornal A Tribuna


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