Existem Comunidades com mais de 82 mil usuários onde há comércio de laudos e medicamentos de uso controlado; plataformas dizem combater irregularidades
Você consegue imaginar uma farmácia que venda remédios controlados sem receita e que faça propaganda de produtos contrabandeados ou falsificados? E um consultório médico que promova abertamente o comércio de prescrições e atestados falsos? É provável que esses estabelecimentos não ficassem abertos por muito tempo, até que as autoridades decidissem agir. No mundo virtual, porém, a vida dos fraudadores da saúde é bem mais fácil.
Uma investigação do Estadão Verifica encontrou 30 comunidades no Telegram onde corre solto o comércio clandestino de medicamentos, receitas e atestados falsos. As vendas ilegais também ocorrem em redes como WhatsApp, Facebook e X (o antigo Twitter). Ao todo, foram mapeados 65 grupos em funcionamento, que somam mais de 82 mil usuários. Procuradas, as plataformas afirmaram não permitir a circulação desses conteúdos e retirá-los do ar assim que identificados.
A profusão de canais ilegais de venda foi constatada poucos meses depois que o Telegram, por determinação da Advocacia Geral da União (AGU), determinou a remoção de 24 grupos e canais dedicados à comercialização ilícita de medicamentos sem receitas, atestados e laudos médicos falsos. Ou seja, a fiscalização até existe, mas é claramente insuficiente.
As comunidades do Telegram que estão ativas usam nomes que evidenciam suas características e são facilmente encontradas na própria aba de pesquisa do aplicativo. Para atrair o público, os grupos costumam promover medicamentos com alta demanda, como Ozempic e Mounjaro, chamados comumente de canetas emagrecedoras, e Ritalina e Venvanse, psicoestimulantes para tratar déficit de atenção.
Em alguns canais, os administradores vendem receituários e atestados médicos falsos com assinaturas e registros de profissionais existentes. Em outras comunidades ocorre apenas a venda direta de medicamentos controlados sem exigência de receita médica. Esse mercado paralelo é impulsionado pela desinformação sobre saúde, conforme mostrou o Estadão Verifica em outra reportagem (leia aqui).

Estadão Verifica identificou 65 grupos de comércio ilegal de medicamentos e receituários, que somam mais de 82 mil usuários Foto: Reprodução/Telegram
Os dados da reportagem foram coletados entre dezembro de 2025 e março deste ano. O mapeamento foi feito por meio da ferramenta TelegramScrap, desenvolvida pelo pesquisador Ergon Cugler, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O código aberto possibilita a extração de diversos campos de informações em grupos e canais da plataforma social, incluindo o conteúdo de mensagens, reações, visualizações e comentários.
De acordo com a análise de Cugler, derrubar canais, como fez a AGU em setembro de 2025, é importante para “chocar” o mercado e desarticular os membros que participam dessas comunidades. Ele ressalta, no entanto, que é preciso haver fiscalização ativa das plataformas. “É quase como se fosse uma hidra”, afirmou. “A gente corta uma cabeça e surgem três no lugar. É óbvio que isso vai voltar mais refinado e com mais ferramentas enquanto a gente não tiver uma devida regulação das chamadas plataformas digitais.”
Ao Verifica, a AGU explicou que não faz monitoramento ativo desse tipo de comércio ilícito nas redes sociais. A instituição trabalha sob requerimento ou demanda de órgãos e entidades.
Em nota, a Meta disse que não permite anúncios que promovam a venda ou uso de drogas, substâncias, produtos ou suplementos inseguros. A empresa dona do Facebook, Instagram e WhatsApp afirmou que conteúdos desse tipo são removidos quando violações são identificadas.
Já o Telegram respondeu que “a venda ilegal de substâncias controladas é explicitamente proibida pelos Termos de Serviço e esse conteúdo é removido sempre que descoberto”. A empresa afirmou que modera ativamente a circulação desses materia
Como funciona a venda de documentos médicos falsos?
Os grupos monitorados pelo Estadão Verifica comercializam diversos documentos médicos, incluindo laudos, requisição para exames, receitas e atestados, além dos medicamentos. A reportagem identificou nos arquivos dados de 11 médicos com registro no Conselho Federal de Medicina (CFM).
Ao Verifica, um dos médicos alegou ter registrado um boletim de ocorrência sobre o uso de seus dados. Outro afirmou que nunca teve ciência desse tipo de fraude com seu nome, e destacou que se trata de “falsificação grosseira”.
Os canais que vendem os serviços no Telegram prometem que os documentos serão emitidos com números de registro em Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) “reais” e válidos “em todo o Brasil”.

Os canais que vendem os serviços no Telegram prometem que os documentos serão emitidos com números de registro em Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) Foto: Reprodução/Telegram
Uma das maiores comunidades, com mais de 8,7 mil participantes, diz que a emissão é feita diretamente no sistema do CFM em “acesso de médicos reais, com QR Code funcional”. O código de barras digital direciona para arquivos similares a documentos médicos originais, com nomes e números de profissionais de saúde.
Em relação às receitas médicas, os grupos costumam vender três tipos diferentes: brancas (medicamentos comuns, sem controle especial), azuis (psicotrópicos de uso controlado) e amarelas (entorpecentes e outros psicotrópicos de uso mais restrito).
Um dos grupos, com mais de 4 mil participantes, comercializa os receituários falsos por R$ 97. Mensagens afirmam que as receitas são “vitalícias” – basta o usuário preencher e imprimi-las para usar novamente.

Um dos grupos, com mais de 4 mil participantes, comercializa os receituários falsos no valor de R$ 97 Foto: Reprodução/Telegram
Os compradores precisam entrar em contato diretamente com os donos dos canais, em conversas privadas, para solicitar os documentos e realizar o pagamento via Pix. Após isso, são enviadas instruções detalhadas sobre o uso das receitas, como rubricar por cima do carimbo nos documentos impressos, forjando a assinatura de médicos verdadeiros. Os vendedores garantem que as receitas serão aceitas em farmácias.

Os compradores precisam entrar em contato diretamente com os donos dos canais, em conversas privadas, para solicitar os documentos e realizar o pagamento via Pix Foto: Reprodução/Telegram
Em mensagens publicadas nos canais, os vendedores ainda orientam que os clientes deem um feedback em grupos chamados de “recomendações”, enviando fotos dos remédios adquiridos com os receituários falsos. É comum que os usuários compartilhem mensagens mostrando como tiveram sucesso com os documentos ou mesmo dicas de como administrar os medicamentos. “Essas comunidades criam uma identidade de vínculo, de relação, e a pessoa passa a acreditar cada vez mais, comprar mais produtos”, explicou o pesquisador Cugler.

Especialista entende que a estratégia nos grupos impulsiona a propaganda a outros usuários Foto: Reprodução/Telegram
Os donos das páginas costumam usar nos canais fotos e nomes falsos, o que dificulta a identificação dos autores.
Além da venda no Telegram, a reportagem encontrou páginas em grupos do Facebook, WhatsApp e perfis no X que usam métodos semelhantes. Ainda foi possível localizar com facilidade modelos de receituários e laudos disponíveis em sites na internet usados para forjar os documentos médicos.
O Verifica questionou o CFM sobre ações contra o comércio clandestino, mas não recebeu retorno. Em dezembro de 2024, o conselho comunicou que entrou com recurso para impedir a suspensão na Justiça da obrigatoriedade de uso do “Atesta CFM”, uma plataforma para validação e chancela de atestados médicos no País. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) havia decidido que o sistema invade a competência da União sobre a regulamentação de documentos de saúde e fragiliza o tratamento de dados pessoais de pacientes.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou, em nota, que implementou o Sistema Nacional de Controle de Receituários com objetivo de fornecer numeração válida para as notificações de receitas médicas. A fiscalização de atestados é feita, segundo a instituição, por conselhos profissionais de medicina e instâncias policiais.
Venda de remédios sem receitas
O comércio de medicamentos em grupos e canais de WhatsApp e Telegram fornece opções de produtos como um “cardápio” de restaurante. Os vendedores enviam uma lista com toda a variedade disponível. Para comprar, os clientes entram em contato diretamente no perfil ou por telefone, e os remédios são enviados ao endereço dos compradores.
É comum que sejam exibidas fotos de estoques e prateleiras com os remédios, a fim de demonstrar a disponibilidade dos produtos. O Verifica encontrou fotografias compartilhadas nos canais que mostram ambientes de farmácias e hospitais, sendo que parte delas foi copiada de bancos de imagens na internet.

O Verifica visualizou fotografias compartilhadas nos canais que mostram ambientes de farmácias e hospitais, sendo que parte delas foi encontrada em bancos de imagens retiradas da internet Foto: Reprodução/Telegram
Os remédios mais frequentemente vendidos nos canais são os psicoestimulantes Ritalina e Venvanse – usados no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) –, ansiolíticos e antidepressivos, como Rivotril e Sertralina, analgésicos controlados, como Codeína e Morfina, canetas para obesidade e anabolizantes.
Grande parte dos grupos monitorados usa nomes relacionados ao Mounjaro e Ozempic, indicados para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2. Há ainda referências às marcas Lipoless e TG Tirzepatida, que não têm registro da Anvisa para comercialização no Brasil.
O comércio clandestino das canetas para obesidade é impulsionado pela procura desses produtos no Brasil, que aumentou 88% no ano passado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento.
Os canais anunciam os medicamentos no atacado ou varejo, em valores que variam de R$ 500 a mais de R$ 3 mil, dependendo das dosagens. Eles ainda citam que remédios são adquiridos no Paraguai com preço mais baixo. Peças de publicidade prometem perda de peso com rapidez e exibem fotos comparativas de pessoas antes e depois de usar os remédios.
O comércio ilegal também tem espaço em outras redes. O Verifica encontrou até março na Biblioteca de Anúncios da Meta, dona de Facebook, Instagram e Threads, 20 publicidades ativas de venda do TG Tizerpatida e cerca de 400 anúncios de comércio do Lipoless. A caneta Synedica, que também não é autorizada pela Anvisa, e o medicamento para obesidade retatrutida, que ainda está em fase de estudos e não foi lançado em nenhum país, tinham 15 e quatro anúncios na plataforma, respectivamente.

Anúncios de canetas emagrecedoras sem permissão da Anvisa são encontrados na Biblioteca de Anúncios da Meta Foto: Reprodução/Biblioteca de Anúncios da Meta
Foram ainda encontrados anúncios de venda de medicamentos sem receita e proibidos pela agência sanitária no Marketplace, um espaço de compra e venda de itens do Facebook.

Anúncios de venda no Marketplace também foram encontrados pela reportagem Foto: Reprodução/Marketplace
No dia 6 de abril, a Anvisa informou que implementou novas medidas para o controle sanitário de canetas de GLP-1, como as que contêm semaglutida e tirzepatida. O plano inclui ações para combater irregularidades na importação e manipulação das canetas emagrecedoras.
Já no dia 7, a Polícia Federal, com apoio da Anvisa, realizou uma operação contra a entrada irregular, a produção clandestina e o comércio ilegal de canetas antiobesidade falsificadas. A Operação Heavy Pen cumpriu 45 mandados de busca e apreensão, além de 24 ações de fiscalização, em 12 Estados.
Segundo a advogada Bruna Araujo, sócia de direito regulatório do escritório Lima Feigelson, os perfis que atuam no mercado clandestino de medicamentos simulam confiança e normalidade, “mas operam completamente fora da regulação sanitária”. Os casos podem se enquadrar em crimes contra a saúde pública. “Esses crimes estão previstos no Código Penal, especialmente nos dispositivos que tratam da falsificação, adulteração ou comercialização irregular de produtos destinados a fins terapêuticos.”
Caso haja falsificação dos remédios, a advogada explica que a pena é mais severa, podendo chegar a mais de 10 anos de reclusão. No caso de atestados e receitas médicas falsas, Bruna afirma que eles são classificados como crimes de falsidade documental.
Fonte: Estadão

.gif)