Consumidores relatam pagamentos por produtos anunciados com imagens sintéticas e compras que só revelam o problema semanas depois, quando as sementes germinam
Flores que supostamente tinham olhos de gato, mas são imagens geradas por IA — Foto: ReproduçãoUma mulher de 35 anos afirma ter sido vítima de um novo tipo peculiar de golpe na internet. Após realizar a compra de um kit plantas por R$ 219,90 na plataforma de vendas do Facebook, ela descobriu que as espécies à venda simplesmente não existiam. Todas eram criadas por inteligência artificial para enganar os consumidores. “Na pressão, não percebi que se tratavam de imagens falsas”, conta a compradora, que prefere manter anonimato. A cliente não foi a única a ser enganada.
De acordo com profissionais de jardinagem e biólogos ouvidos pela reportagem, não é difícil topar com o anúncio de plantas, flores e folhagens à venda na internet com imagens geradas por IA - algumas sequer existem na natureza. Em outros casos, vendedores oferecem sementes de espécies comuns como se fossem de plantas raras, usando preços abaixo do mercado para atrair compradores.
A cliente do início da reportagem afirma ter fechado a compra pelo WhatsApp. Ao receber o pagamento, o golpista respondeu que estava “tudo certinho” e parou de responder. Em uma busca pelos dados da empresa na internet, ela encontrou o mesmo telefone associado a golpes similares e registrou um boletim de ocorrência.
O “golpe da planta” não nasceu na internet, mas profissionais do ramo têm notado um aumento após a difusão das inteligências artificiais, hoje capazes de criar imagens realistas de ramos, caules, flores sem levantar suspeita de clientes e até mesmo das plataformas de venda online. "Isso está espalhado por todos os sites que vendem sementes e plantas. Nenhum escapa", garante a cliente enganada.
É difícil distinguir e calcular o número desses anúncios à venda, mas a influenciadora Roseli Francisco afirma ter crescido o volume de queixas recebidas em sua página “A Loucas das Plantas”, com 430 mil seguidores no Instagram e voltado ao cuidado de plantas. Para ajudar a quem caiu no golpe, ela tem orientado ficar atento aos sinais de um possível golpe. “Vejo quase todos os dias”, diz. “Quando se trata de uma planta cara e o vendedor está oferecer por um valor muito baixo [já há motivo para desconfiar]”.
Segundo ela, além das plantas de IA, também há o envio de sementes que não correspondem ao anúncio ofertado. Foi exatamente que aconteceu com outra cliente enganada ouvida pela reportagem.
Suposta grama virou capim de mais de 50 centímetros
A autônoma Isabella de Cássia, 30, pagou aproximadamente R$ 40 por 500 gramas de um produto anunciado como “sementes de grama-esmeralda”, em imagens com cores vibrantes e atraentes. A venda foi feita pela loja Verde Tech, hospedada na plataforma Shopee. Ao abrir a encomenda, ela estranhou o tamanho das sementes e fez um teste.
Em vez de espalhar o produto no terreno, ela o plantou em um vaso e aguardou o crescimento. A suposta grama-esmeralda havia crescido cerca de 50 centímetros em algumas semanas e, pela característica, parecia mais com um capim comum.
“Para a minha sorte, como já desconfiei no início, não preparei o solo e não plantei no local definitivo”, relata. Após pesquisar sobre a espécie, Isabella descobriu que a grama-esmeralda é vendida como sementes e costuma ser vendida já em fase de crescimento, organizadas em placas para serem aplicadas no terreno.
A autônoma procurou a plataforma, mas não conseguiu o reembolso. De acordo com seu depoimento, recebeu a informação de que o anúncio seria averiguado. Como as sementes levaram algumas semanas para germinar, o período de devolução já havia terminado quando ela constatou o problema. Isabella publicou uma avaliação com fotografias para alertar outros compradores. Na época do relato, o anúncio já não estava disponível, mas a loja permanecia ativa.
Segundo consumidores ouvidos pela GQ Brasil, o intervalo entre a aquisição e a descoberta da irregularidade favorece esse tipo de comércio. Diferentemente de mercadorias cuja divergência pode ser vista logo que a embalagem é aberta, as sementes precisam germinar e, em alguns casos, se desenvolver por semanas até que o comprador consiga identificar a espécie.
Em nota, a Shopee informou que está investigando o caso apresentado pela reportagem e declarou exigir que os lojistas cumpram a legislação, as normas aplicáveis e sua política de produtos proibidos e restritos. Já a Meta declarou que atividades destinadas a enganar, fraudar ou explorar terceiros não são permitidas no Facebook e no Instagram. A empresa informou que aprimora suas tecnologias para combater atividades suspeitas e orientou os usuários a denunciar, pelos próprios aplicativos, conteúdos que violem as regras das plataformas.
Uso da IA pode configurar publicidade enganosa
A advogada Maria Inês Dolci, da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB-SP, avalia que o uso de uma imagem sintética para atribuir características falsas a um produto biológico pode configurar publicidade enganosa e gerar responsabilização de quem vendeu gato por lebre.
Na interpretação da especialista em direitos do consumidor, o uso deliberado da ferramenta reforça a intenção de enganar. “A inteligência artificial comprova, na minha opinião, a má-fé premeditada e impede qualquer alegação de erro”, cita. O golpista pode responder na esfera administrativa, cível e criminal caso as provas concluam a intenção de promover um golpe. As plataformas digitais também podem responder pelos danos provocados pelos vendedores e serem notificadas por órgãos como Procon por permitir anúncios com irregularidades, avalia.
O comércio de sementes também exige um cadastro no Renasem (Registro Nacional de Sementes e Mudas), vinculado ao Ministério da Agricultura. O motivo é que o plantio desordenado pode causar, na verdade, danos a ecossistemas e até mesmo o tráfico de espécies raras, parasitárias ou que não sejam nativas de determinadas regiões e biomas. Segundo Dolci, a verificação do registro também pode ser uma ferramenta para se safar de golpes.
O que fazer ao perceber o golpe
Ao desconfiar que recebeu sementes falsas ou diferentes das anunciadas, o consumidor deve interromper o uso do produto e preservar tudo o que possa comprovar a compra, a oferta e o resultado do cultivo. O principal canal para esse tipo de denúncia é o Consumidor.gov.br, ligado ao Ministério da Justiça, e aos Procons regionais.
A advogada Lídia Carolina Nascimento dos Santos, mestre em direito econômico e especialista em direito penal, recomenda guardar as amostras de sementes, embalagens originais, notas fiscais, comprovantes de pagamento, e fazer registro de vídeos e fotos das plantas.
Ela também afirma também ser importante registrar e-mails, capturas de tela do anúncio, negociações feitas no WhatsApp, publicações em redes sociais e quaisquer outras mensagens trocadas com os vendedores.
Também é possível recorrer ao Juizado Especial Cível ou à Justiça comum para pedir indenização. O Juizado recebe causas de até 40 salários mínimos. Em ações de até 20 salários mínimos, o consumidor pode ingressar sem advogado. Valores superiores devem ser levados à Justiça comum com assistência jurídica.
A demora para descobrir o problema não elimina o direito de reclamar. Lídia explica que, quando a divergência só se torna aparente durante a germinação ou o desenvolvimento da planta, o caso pode ser tratado como vício oculto. Nessa situação, o prazo começa a contar a partir da constatação do defeito, e não necessariamente da data da compra.
Além da devolução do valor pago, a reparação pode abranger despesas comprovadas com preparo do solo, vasos, adubo, irrigação, defensivos, fertilizantes, mão de obra e outros insumos usados no cultivo. Quando houver comprovação de perda de rendimento, o pedido também pode incluir os valores que o comprador deixou de receber por causa das sementes irregulares.
Com informações da GQ

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