Além da investigação por suposta fraude na venda de terrenos, Vinicius Allazio é citado em processos de clientes que afirmam ter pago por sistemas de energia solar não entregues

Cliente de Vinicius relatam que compraram sistema de energia solar, mas não receberam Reprodução
Preso por suspeita de fraude na venda de terrenos em Vila Velha, Vinicius Pires da Silva Allazio, de 40 anos, também é investigado por supostos golpes envolvendo a empresa do ramo de energia solar de sua propriedade, a VP Solar. Segundo vítimas, a empresa recebia pagamentos por equipamentos e serviços de instalação que não eram entregues.
O empresário foi detido inicialmente no dia 9 de julho, por estelionato, em um loteamento irregular na Barra do Jucu.
Segundo a Polícia Civil, ele realizava a comercialização ilegal de lotes utilizando documentos em nome de uma empresa para conferir falsa aparência de legalidade às negociações. Vinicius foi abordado por investigadores durante tratativas de compra e venda em um terreno comercializado de forma irregular.
Além disso, já havia contra ele um mandado de prisão preventiva por outro processo que apura também o crime de estelionato, dessa vez com relação ao ramo de energia solar, com recebimento de pagamentos por equipamentos e serviços de instalação que não eram entregues às vítimas.
A reportagem de A Gazeta conversou com advogados de algumas vítimas, que preferem não se identificar. Além de Vinicius, o sócio dele também é citado nos processos e pelos clientes. No entanto, não há informações de que ele seja alvo das investigações da Polícia Civil.
A corporação informou que dará mais detalhes sobre o caso em coletiva de imprensa na tarde desta terça-feira (21).
Idosa e igreja
O advogado Lisandri Paixão Santana Lima Junior representa uma aposentada de 85 anos e uma igreja, que afirmam terem sido vítimas do empresário e de seu sócio.
A aposentada, moradora do distrito de Timbuí, em Fundão, contratou, em outubro de 2024, a instalação de um sistema de energia solar no valor de R$ 65 mil e pagou R$ 50 mil de entrada. O prazo para entrega e instalação era de 70 a 100 dias e, segundo a defesa, expirou em janeiro de 2025 sem que o serviço fosse realizado.
"A partir do momento que venceu o prazo, a empresa começou a prometer que iria fazer a instalação. Além do prejuízo do pagamento em si, há o prejuízo daquilo que deixou de ser usado", disse o advogado.
Segundo Lisandri Paixão Santana, a empresa começou a encerrar as atividades presenciais ainda no início de 2025.
"No início de 2025, havia diversas lojinhas da empresa em vários locais, como Serra, Vitória e também no interior do Estado. A principal funcionava em Venda Nova do Imigrante", afirmou.
Ainda de acordo com ele, as unidades físicas foram fechadas sob a justificativa de uma reestruturação.
"Eles simplesmente encerraram a atividade e informaram que estariam se reestruturando, mas que haveria atendimento online. De fato, continuou o atendimento online, mas esse atendimento serviu só para ganhar tempo. A gente não conseguiu identificar ninguém que tenha recebido a entrega dos produtos. O que aconteceu foi o ajuizamento de diversas ações", disse.
Entre os processos contra a VP Solar está uma ação movida por uma igreja evangélica da Serra, que afirma ter pago R$ 64.990 pela compra e instalação de um sistema de energia solar fotovoltaica. Segundo a ação, o contrato foi assinado em outubro de 2024 e previa a entrega do equipamento em até 100 dias, prazo encerrado em maio de 2025 sem que o serviço fosse concluído.
A igreja afirma que tentou resolver o problema diretamente com a empresa e também por meio do Procon, mas não obteve sucesso.
Segundo o advogado Lisandri Paixão Santana, a ação cita a existência de mais de 200 processos semelhantes contra empresas do grupo VP Solar no Espírito Santo.
A igreja, que é uma entidade sem fins lucrativos, afirma que o investimento foi feito com recursos provenientes de doações de fiéis. Conforme o processo, a instalação do sistema proporcionaria uma economia de cerca de 4 mil kWh por mês, contribuindo para a manutenção das atividades da instituição.
Segundo o advogado, uma estimativa feita pela defesa dos consumidores aponta que os valores cobrados em ações de execução contra empresas ligadas a Vinicius já chegam a cerca de R$ 10 milhões. Ele afirma que, em levantamento realizado com base em registros de órgãos de proteção ao crédito e cartórios de protesto, esse montante pode ser ainda maior.
O advogado também afirmou que havia preocupação com uma possível fuga do empresário.
Prejuízo
O advogado Alexandre Augusto Nascimento Colli, que representa três clientes em ações contra a empresa de Vinicius, afirma que os prejuízos somados ultrapassam R$ 1 milhão.
Segundo ele, um dos clientes, Robson Malovini, pagou R$ 166 mil por um sistema de energia solar. Já o irmão dele, Giovani Malovini, firmou dois contratos, nos valores de R$ 300 mil e R$ 270 mil, totalizando R$ 570 mil. Um terceiro cliente desembolsou R$ 320 mil.
De acordo com o advogado, todos os contratos foram assinados em 2024.
Colli informou que ajuizou ações para rescindir os contratos e pedir a restituição dos valores pagos, além da aplicação da multa contratual de 30% prevista para casos de inadimplemento.
Segundo ele, atualmente existem diversos processos contra empresas do grupo VP Solar relacionados à venda de sistemas de energia solar que, conforme alegam os autores das ações, não foram entregues.
"Nós conseguimos uma liminar para penhora de alguns imóveis e carros, para a gente se resguardar. Essa penhora é quando o magistrado detecta indícios de estelionatos e para não lapidar os bens. Com isso, eles não conseguem vender sem autorização", explicou o advogado.
A defesa também afirmou que um dos representantes comerciais da VP Solar foi incluído no polo passivo de algumas ações judiciais, embora, segundo Alexandre Augusto Nascimento, ele também seja vítima da situação.
"Ele nunca teve qualquer tipo de sociedade com eles.Também foi lesado", afirmou.
Segundo o advogado, o representante afirma ter deixado de receber cerca de R$ 42 mil em comissões pela venda de equipamentos.
O advogado relatou ainda que representantes da empresa eram enviados para diferentes municípios, como Ibiraçu, para realizar vendas e que, posteriormente, criaram grupos de WhatsApp na tentativa de cobrar as comissões que, segundo eles, não foram pagas.
"As vítimas são trabalhadores. Eles trabalharam na roça o dia inteiro para juntar esse dinheiro. Resultado: teve esse prejuízo e essa essa frustração. Eles estão bem aborrecidosAlexandre Augusto Nascimento Advogado"
Prisão
Em documento obtido por A Gazeta, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) afirma que a investigação envolvendo a venda dos terrenos é complexa, envolve grande volume de documentos, múltiplas vítimas e a necessidade de analisar o conteúdo do telefone celular do empresário, apreendido no dia da prisão.
Os promotores defendem a quebra do sigilo dos dados armazenados no aparelho, incluindo histórico de chamadas, mensagens de aplicativos como WhatsApp, e-mails, agenda de contatos e registros financeiros.
Segundo o MPES, a medida tem como objetivo identificar possíveis coautores, esclarecer a estrutura do suposto esquema criminoso e rastrear a movimentação das vantagens financeiras obtidas com as negociações.
O Ministério Público também pediu autorização para compartilhar as provas produzidas neste inquérito com a Delegacia Especializada de Defraudações (Defa) e outras unidades da Polícia Civil que investigam possíveis crimes semelhantes envolvendo o empresário.
O outro lado
O advogado Jorge Martins, que representa Vinicius Pires da Silva Allazio, afirmou que o empresário tem buscado firmar acordos com clientes e credores para solucionar pendências nas esferas cível, criminal e trabalhista.
Sobre a prisão preventiva, o advogado afirmou que a medida ocorreu após uma mudança de endereço do empresário que, segundo ele, não foi comunicada ao processo.
De acordo com a defesa, Vinicius mudou de advogado e, como a ação tramita em segredo de Justiça, a atualização do endereço não teria sido informada ao Judiciário. Segundo Jorge Martins, após um oficial de Justiça certificar que o empresário estava em local incerto e não sabido, a prisão preventiva foi decretada sob o entendimento de que ele estaria se furtando à aplicação da lei penal.
Ainda segundo o advogado, a defesa firmou um acordo com a vítima do processo que originou a prisão preventiva e que aguarda a análise da Justiça sobre o pedido de revogação da prisão preventiva.
Com informações de A Gazeta

.gif)