Itaúnas: conheça a vila do ES que foi engolida pela areia e hoje atrai milhares de turistas atrás de forró


Localizado em Conceição da Barra, o Parque Estadual de Itaúnas guarda vestígios de uma antiga vila que desapareceu sob as dunas após décadas de avanço da areia. Hoje, a unidade de conservação recebe cerca de 100 mil visitantes por ano e reúne natureza, arqueologia e cultura popular.

Antiga Vila de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo, foi engolida pela areia e hoje atrai milhares de turistas por ano — Foto: Reprodução/MPF-ES

Quem visita as dunas de Itaúnas, em Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo, dificilmente imagina que sob toda aquela areia existe uma antiga vila. O que hoje é um dos principais cartões-postais do estado já foi um povoado com casas, igreja, escola, padaria, cemitério e centenas de moradores.

Ao longo de décadas, a areia avançou lentamente sobre a comunidade. Primeiro, cobriu quintais e ruas. Depois, chegou às casas, ao cemitério e à Igreja de São Sebastião.

No início da década de 1970, os últimos moradores deixaram o local. Atualmente, as dunas ultrapassam 30 metros de altura e escondem quase todos os vestígios da antiga Vila de Itaúnas.

Com o avanço da areia, muitas famílias passaram a reconstruir suas vidas em uma nova área na margem sul do Rio Itaúnas. Casas foram desmontadas e tiveram tábuas, portas e outras estruturas reaproveitadas nas novas construções.

A atual Vila de Itaúnas hoje reúne cerca de 2 mil moradores, além de receber turistas atraídos pelas dunas, pelas praias e pelo tradicional forró pé de serra. Destaque para o Festival Nacional de Forró de Itaúnas (Fenfit), que este ano chega a sua 24ª edição, e acontece entre os dias 18 e 25 de julho. (veja programação no final da reportagem)

A antiga vila está localizada dentro do Parque Estadual de Itaúnas, criado em 1991 e considerado uma das principais unidades de conservação do Espírito Santo. Além das famosas dunas, abriga praias, manguezais, restingas, lagoas, sítios arqueológicos e um trecho de mais de 25 quilômetros de litoral preservado.

Antiga Vila de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo, foi engolida pela areia e hoje atrai milhares de turistas por ano — Foto: Reprodução/Iema

Segundo o técnico em meio ambiente do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Tarciley Gonçalves de São José, a história do soterramento é também um alerta sobre os impactos da ação humana na natureza.

"O principal motivo foi o desmatamento. Tecnicamente, é o que a gente defende. A restinga tem a função de estabilizar a areia. Quando essa vegetação foi retirada, o vento passou a transportar os sedimentos em direção à vila", explicou.

A educadora ambiental e pesquisadora Veratriz Souto Campos, que nasceu e foi criada em Itaúnas, conta que o avanço da areia foi gradual e durou cerca de 40 anos.

"Foi um processo lento. As pessoas retiravam um pouco da vegetação para fazer lenha, limpar um terreno ou realizar festas. Quando perceberam, já tinham retirado praticamente toda a cobertura vegetal. Em um terreno arenoso, isso tem um impacto muito maior", afirmou.

Antiga Vila de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo, foi engolida pela areia. Últimos moradores deixaram o local no início da década de 1970








Antiga Vila de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo — Fotos: Reprodução/Iema

Com a proteção natural reduzida, os fortes ventos da região passaram a transportar a areia em direção às construções.

"Imagine aquelas casas ficando cada vez mais vulneráveis aos ventos. Hoje temos mais de 30 metros de dunas sobre aquele lugar", destacou.

As explicações científicas convivem até hoje com as histórias contadas pelos antigos moradores. Segundo Veratriz, as lendas continuam presentes na memória da comunidade.

"Seu Caboquinho vai falar do mito, das pragas e da areia do buraco do bicho. Essas histórias permanecem vivas porque a gente continua recontando elas".


Debaixo da areia, milhares de anos de história

As dunas escondem não apenas a antiga vila, mas também parte importante da história dos povos que viveram na região muito antes da chegada dos colonizadores.

Veratriz desenvolve pesquisas arqueológicas no parque e explica que, dos 23 sítios arqueológicos identificados na unidade, 16 têm origem indígena.

"A arqueologia conta para nós períodos de mais de três mil anos atrás. É uma região de muita história. O parque abriga vestígios de ocupações humanas pré-históricas e do período colonial. Entre os materiais encontrados estão pedras lascadas, cerâmicas indígenas e outros artefatos que ajudam a reconstruir a história da região", ressaltou.

A relevância desse patrimônio ultrapassou as fronteiras do Espírito Santo. Em 1992, o Parque Estadual de Itaúnas foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Segundo ela, cinco dos sítios arqueológicos mais importantes estão justamente na área das dunas, onde ficava a antiga vila.

Ao longo das trilhas do parque também podem ser encontrados vestígios arqueológicos e ruínas históricas. Por isso, os visitantes são orientados a não recolher objetos ou materiais encontrados pelo caminho.


Natureza, cultura e turismo

Atualmente, o Parque Estadual de Itaúnas recebe cerca de 100 mil visitantes por ano. Os períodos de maior movimento são o verão, o Carnaval e o Festival Nacional do Forró de Itaúnas (Fenfit), realizado em julho.

Em dias de grande movimento, mais de 5 mil pessoas podem passar pelo parque.

Festival Nacional do Forró de Itaúnas (Fenfit) atrai milhares de pessoas ao Espírito Santo — Foto: TV Gazeta

Tarciley destacou que muitos turistas chegam atraídos pelas dunas e pelas praias, mas nem sempre percebem que estão dentro de uma unidade de conservação.

"A pessoa está entrando em contato com a natureza. Quanto menos impacto gerar, melhor para o meio ambiente. Esse contato também precisa trazer consciência e educação ambiental".

A área protegida reúne diferentes ecossistemas. O parque abriga a porção final do Rio Itaúnas, áreas alagadas com grande biodiversidade, manguezais, restingas e uma extensa faixa de praia que vai em direção à divisa com a Bahia.

Entre as espécies encontradas na unidade estão garças, jacarés, lontras, pacas, jaguatiricas e diversas plantas típicas da restinga, como caju e mangaba.


Cultura preservada

Além da riqueza ambiental, Itaúnas também é reconhecida pela força de suas manifestações culturais. Conhecida nacionalmente como a Capital do Forró Pé de Serra, a vila mantém tradições que misturam influências indígenas, quilombolas e da sabedoria popular capixaba.

Segundo Veratriz, o forró local nasceu das tradições do Sapê do Norte e recebeu influências de manifestações como o Ticumbi, o Congo e os bailes populares.

A unidade de conservação também participa da preservação dessas tradições, apoiando celebrações como a Festa de São Sebastião e São Benedito e ações ligadas ao Ticumbi.

Parque Estadual de Itaúnas, no Norte do Espírito Santo — Foto: Tadeu Bianconi/Setur


O avanço da areia continua?

A movimentação das dunas continua sendo monitorada pelos órgãos ambientais. Segundo Tarciley, estudos acompanham constantemente a ação dos ventos e o deslocamento da areia.

Em 2014, foi realizado um plantio de espécies nativas de restinga para ajudar a estabilizar as dunas e evitar novos problemas.

"Hoje, é uma situação mais controlada. A vegetação conseguiu conter boa parte dessa areia", afirmou.


Serviço: Parque Estadual de Itaúnas

📍 Av. Bento Daher, Vila de Itaúnas, Conceição da Barra, Norte do Espírito Santo
🕗 Centro de Visitantes aberto diariamente, das 8h às 17h
🎟️ Entrada gratuita
📚 Visitas pedagógicas e educacionais devem ser agendadas pelo e-mail parquedeitaunas@gmail.com


Orientações aos visitantes:
  • Traga seu lixo de volta;
  • Não faça pichações;
  • Não faça fogo;
  • Não recolha plantas, objetos ou materiais arqueológicos;
  • Não utilize caixas de som;
  • Não utilize drones sem autorização;
  • Não circule com veículos motorizados nas trilhas e dunas.

Programação do Festival Nacional de Forró de Itaúnas – 24ª edição

Sábado (18/07) - Mestre Ambrósio, Trio Cristalino, Moinho D'Agua, Cléber Gonzaga e Dj Felipe Floripa.

Domingo (19/07) - Maritoots, Os Cangaceiros, PH do Acordeon, Forró Biscoito, Forró Bemtivi, Moinho D’Água e Dj Chu Selecta.

Segunda-feira (20/07) - Trio Juazeiro, Cléber Gonzaga com participação de Zé Duarte, Trio Cristalino e Dj Xuxa.

Terça-feira (21/07) - Oxaxadinho, Thais Nogueira, Trio Dona Zefa e Dj Caciassa.

Quarta-feira (22/07) - Os Fulano, Benício Guimarães, Naturalmente e Dj Monike.

Quinta-feira (23/07) - Carlos Filho, Fogumano, Sarah Leandro e Felipe Costta convidam Flávio Leandro, Trio Dona Zefa e Dj Messias.

Sexta-feira (24/07) - Bárbara Aires (campeã do FENFIT 2025) com participação de Salatiel D'Camarão, Naturalmente com participação de Mariana Aydar, Trio Macaíba, Fabiano Santana e Dj Naty.


Serviço: Festival Nacional de Forró de Itaúnas – 24ª edição

🪗 O que: Festival com 192 horas de puro Forró Pé de Serra, programação inclui shows, concurso de música, concurso de dança, workshops, matinês e afters
🗓️ Quando: 18 a 25 de julho de 2026
📍 Local: Bar Forró e Café Brasil, Itaúnas
🎟️ Ingresso: ingressos avulsos custam entre R$ 80 e R$100; passaporte completo R$ 420,00

Itaúnas, em Conceição da Barra, no Espírito Santo — Foto: Reprodução/ TV Gazeta





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