Estudo feito por pesquisadores de Yale, publicado no PNAS Nexus, analisou a atividade cerebral de 67 participantes enquanto jogavam um quebra-cabeça
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Não sabe onde colocou os óculos? Estudo revela o que acontece com o cérebro quando não estamos conscientes de nossas ações — Foto: Freepik
Onde estão os seus óculos? Onde deixou sua chave? E o celular, está em cima da mesa como você jura que está?
Hal Blumenfeld, professor de neurologia da Cátedra Mark Loughridge, saiu da piscina numa tarde e não encontrou seu relógio. Ele tinha certeza de que o havia deixado na borda por onde entrara. Encontrou-o na extremidade oposta. Ele mesmo o havia movido enquanto nadava, sem se lembrar de tê-lo feito. E isso ocorre com frequência em muitas pessoas.
Um estudo feito por pesquisadores de Yale, publicado no PNAS Nexus, liderado por Blumenfeld e David S. Jin, Ph.D., ex-aluno de doutorado do Programa Interdepartamental de Neurociência de Yale, é o primeiro a examinar os sinais cerebrais que determinam se estamos conscientes de nossas próprias ações enquanto as realizamos.
Para o estudo, os pesquisadores adaptaram o jogo de quebra-cabeça de blocos deslizantes Rush Hour (Hora do Rush, em tradução livre), no qual os jogadores movem carrinhos e caminhões de brinquedo para criar um caminho que faça o seu carrinho passar pelo tabuleiro.
Jin pediu aos participantes que jogassem enquanto assistiam simultaneamente a vídeos de fundo que deveriam memorizar. Periodicamente, o jogo pausava e os participantes eram solicitados a identificar seu último movimento e avaliar sua confiança.
Respostas corretas com alta confiança foram consideradas "conscientes". Respostas incorretas com baixa confiança foram classificadas como "desconhecidas".
"Se você relatasse corretamente o que estava fazendo, mas não sentisse nenhuma responsabilidade por isso, seria uma verdadeira consciência?", pergunta Jin, atualmente pesquisador de pós-doutorado na Universidade do Alabama em Birmingham. "Quando você dirige do ponto A ao ponto B, sai do carro e pensa: 'Espere, como cheguei aqui?' — eu queria reproduzir essa sensação em uma tarefa comportamental."
Os pesquisadores mediram a atividade cerebral por meio de eletroencefalografia (EEG) em 67 participantes enquanto realizavam a tarefa. Eles descobriram que os sinais cerebrais diferiam entre movimentos conscientes e inconscientes, tanto antes quanto depois da ação.
Um sinal de planejamento motor chamado positividade pré-movimento foi mais forte nos ensaios conscientes. Um sinal de processamento sensorial chamado N140, relacionado à consciência da sensação corporal, também foi amplificado. Nenhum dos dois, isoladamente, foi suficiente.
"Tanto os sinais relacionados à vontade quanto os relacionados à percepção são maiores quando estamos conscientes do que fazemos", diz Blumenfeld.
O estudo também descobriu um terceiro fator: à medida que os participantes avançavam na sessão, o diâmetro da pupila diminuía — um indicador de redução do estado de alerta — e a consciência declinava na mesma proporção.
"Conforme a tarefa prosseguia, os participantes ficavam um pouco mais entediados, um pouco mais cansados, um pouco mais distraídos. Suas pupilas ficavam cada vez menores e eles se tornavam cada vez menos conscientes do que estavam fazendo", explica Blumenfeld.
O interesse de Jin pelo assunto é em parte pessoal. Como portador de epilepsia, ele vivenciou em primeira mão o que é conversar e tocar piano durante uma crise, sem se lembrar de nada depois. "A capacidade de realizar todas essas ações complexas e, ainda assim, não conseguir descrevê-las posteriormente é simplesmente fascinante", afirma.
O próximo passo do laboratório é a ressonância magnética funcional (RMf), que oferecerá melhor resolução espacial para desvendar alguns dos enigmas restantes do estudo, incluindo como os sinais em regiões profundas do cérebro, inacessíveis pelo EEG de superfície, podem contribuir para a consciência.
"Estar ciente de suas ações o tempo todo seria realmente péssimo. Talvez seja a inconsciência da ação que permita que a vida diária transcorra sem problemas. Imagine ser um músico e ter que pensar em cada nota a cada instante", diz Jin.
Fonte: O Globo

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