Ataques a duas distribuidoras deixaram três mortos. Segundo a Polícia Civil, todas as vítimas eram inocentes e não tinham envolvimento com o tráfico
A Polícia Civil concluiu o inquérito que investigou dois ataques a distribuidoras de bebidas ocorridos na noite de 22 de outubro de 2025, nos bairros Maringá e Laranjeiras, na Serra, na Grande Vitória. As investigações resultaram no indiciamento de 13 pessoas, entre elas duas advogadas, por participação nos crimes. Todos já são réus na ação penal.
Segundo o chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori, o caso foi o mais complexo de sua carreira em 14 anos na Polícia Civil.
"Foi um trabalho de 10 meses de investigação e eu deixei bem claro que a gente iria resolver os dois crimes, identificando os envolvidos e realizando as prisões", afirmou.
Vítimas eram inocentes
As investigações concluíram que as três vítimas que morreram não tinham envolvimento com atividades criminosas. Luiz Gustavo Pratti Corvello, de 34 anos, foi morto em uma distribuidora no bairro Maringá após ser confundido com o verdadeiro alvo da organização criminosa. "A vítima pretendida pelo grupo chega à distribuidora, entra, fica poucos minutos e sai”, disse o delegado Rodrigo Sandi Mori.
A Polícia Civil identificou que José Ferreira Filho foi até o estabelecimento para confirmar a presença do alvo e repassar a informação aos executores.
No ataque em Laranjeiras, morreram Mislene Ferreira dos Santos, de 40 anos, que havia parado na distribuidora para comprar uma cerveja, e Vagner da Costa Jardim, de 36 anos, que foi ao local conferir o resultado de um jogo.
Segundo a investigação, havia cerca de 16 pessoas na frente da distribuidora no momento dos disparos. Apesar da presença de traficantes na região, apenas pessoas sem envolvimento com o crime foram baleadas.

As vítimas inocentes : Mislene, Vagner e Luiz GustavoAcervo Pessoal
Como os ataques ocorreram
Segundo a investigação, Tiago Laurindo, João Pedro de Souza e Brendo Magalhães Silva saíram de Chácara Parreiral em uma Hyundai Tucson e aguardaram a confirmação de que o alvo estava próximo à distribuidora no bairro Maringá.
João Pedro iniciou os disparos do lado de fora do estabelecimento enquanto Brendo perseguiu Luiz Gustavo até os fundos da distribuidora, onde continuou atirando. Em seguida, João Pedro entrou no imóvel e efetuou novos disparos contra a vítima, que morreu no local.
Horas depois, a dupla voltou a utilizar o mesmo veículo para participar do ataque à distribuidora de Laranjeiras, quando diversos tiros foram disparados contra pessoas que estavam reunidas em frente ao estabelecimento.
Disputa entre facções
De acordo com a Polícia Civil, os dois ataques tiveram como principal motivação a disputa pelo controle do tráfico de drogas na Serra.
No caso de Maringá, o crime teria relação com um conflito interno entre integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP). Já o ataque em Laranjeiras foi motivado pela disputa territorial entre o TCP, que domina a Rua 15, e o Primeiro Comando de Vitória (PCV), que atua na Rua São Paulo.
Organização criminosa
Segundo o delegado, o planejamento dos homicídios durou meses e envolveu diferentes integrantes da organização criminosa, responsáveis pelo financiamento, logística, monitoramento do alvo e execução dos ataques.
A Polícia Civil aponta Pedro Corttes Falcão, conhecido como "Pedrinho", como mandante dos crimes. Wesley Magno Uchoa Braz, o "Neném" ou "2N", teria dado apoio ao planejamento e continuado comandando o tráfico de drogas de dentro do sistema prisional.
As ordens, segundo a investigação, eram transmitidas por meio da advogada Laís Santos de Paula, presa por intermediar a comunicação entre integrantes da facção presos e aqueles que estavam em liberdade.

Carta enviada pelo Pedro Corttes através da advogada LaísReprodução | Polícia Civil
Outro investigado apontado como peça-chave é Gilson da Costa Silva, empresário que, segundo a Polícia Civil, financiava a organização criminosa. A investigação afirma que ele comprou o veículo utilizado nos ataques, forneceu munições e custeou parte da estrutura usada pelos criminosos. Paulo Sérgio F. Costa, conhecido como "Paulinho", Yuri Andrews Barcellos e José Roberto Oliveira Junior, o "Juninho", também são apontados como responsáveis pela logística, fornecimento de armas, munições e executores dos atentados.
Ainda conforme as investigações, José Ferreira Filho monitorou a presença do alvo na distribuidora, enquanto Vitor de Faria Costa avisou os executores sobre a localização da vítima.
Já a advogada Monique Lopes Guerra foi presa por, segundo a Polícia Civil, tentar impedir que José Ferreira colaborasse com as investigações e por compartilhar informações sigilosas do caso.
Ao longo dos dez meses de investigação, os suspeitos foram presos gradativamente. Um dos executores, Brendo Magalhães Silva, fugiu para o Paraná após os crimes, mas foi localizado e preso em uma operação conjunta das polícias civis do Espírito Santo e do Paraná.
O outro lado
Por nota, a defesa de Gilson da Costa Silva e de Vitor de Faria Costa afirmou que o relatório final da Polícia Civil representa apenas a conclusão da investigação e não uma condenação.
Segundo o advogado Igor Ramis Felizardo, o principal elemento utilizado para vincular Gilson ao homicídio decorre de declarações prestadas por um corréu, cuja narrativa, segundo ele, sofreu alterações e acréscimos ao longo da investigação.
"Até o momento, a defesa não identificou prova independente que demonstre que Gilson tenha financiado, planejado ou participado do homicídio, nem que integre a organização criminosa descrita na acusação", disse o advogado.
Por fim, Igor informou que esses pontos serão debatidos durante o processo judicial, com respeito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.
A reportagem tenta localizar a defesa dos outros citados nesta matéria e deixa este espaço aberto para manifestações.
Fonte: A Gazeta

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