Após mais de 60 anos, mãe reencontra filho que foi entregue para adoção contra sua vontade


Por quase 30 anos depois da Segunda Guerra Mundial, mais de 185 mil mulheres solteiras foram separadas de seus bebês na Inglaterra e no País de Gales; Governo e Igreja Anglicana só pediram desculpas este ano

A inglesa Jan Doyle e o filho mais velho, Jon, se reencontram após mais de 60 anos separados por política de adoção forçada no Reino Unido — Foto: Arquivo pessoal

Entre as décadas de 1950 e 1980, dezenas de adolescentes e mulheres solteiras foram obrigadas a entregar seus filhos para adoção na Inglaterra e no País de Gales. Por terem engravidado fora de um casamento, elas eram levadas a instituições conhecidas como “casas para mães e bebês”, muitas delas administradas pela Igreja Anglicana. Lá, davam à luz em segredo para evitar a vergonha de suas famílias em uma sociedade conservadora.

Em 2022, após décadas de luta dessas mães, o Comitê Conjunto de Direitos Humanos do Parlamento Britânico concluiu que o Estado tem responsabilidade “pela dor e o sofrimento causados por instituições públicas e funcionários estatais que forçaram mães a adoções indesejadas”. Mas foi só em junho deste ano que o Estado britânico e a Igreja Anglicana se manifestaram oficialmente. O então primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e a arcebispa de Canterbury, Sarah Mullaly, pediram desculpas às famílias. Estima-se que 185 mil bebês foram tirados de suas mães durante as décadas de adoções forçadas. A inglesa Jan Doyle, cujo depoimento você lê abaixo, é uma dessas mulheres. Sua história, no entanto, teve um final feliz.


Leia o depoimento de Jan Doyle:

“Aos 16 anos, eu estava na escola e tinha um círculo de amigos, fazia parte de um clube para adolescentes na igreja e de um grupo de teatro, ajudando com o figurino. Era 1963, e eu era uma adolescente normal — até que engravidei. Minha relação com a minha família se deteriorou, e eu fui forçada a entregar meu filho para adoção.

Havia, claro, o estigma social. “O que os vizinhos e os parentes vão dizer?”, questionavam os meus pais. Era preciso esconder. Fizeram com que eu me sentisse uma aberração e uma pária. Lembro que um tio veio me visitar pouco depois de eu descobrir que estava grávida, e fizeram com que eu ficasse no quarto para o caso de ele perceber que havia alguma coisa errada comigo. Meus pais haviam decidido que eu tinha sofrido um colapso nervoso — essa era a desculpa para eu ser tirada de circulação. Na época, era como se a mulher tivesse engravidado a si mesma, carregando a culpa toda.


‘Deixá-lo foi a pior coisa’

Eu era muito ingênua e achei que estava no início de um relacionamento. Acreditei que estava sendo cuidada e amada, mas foi um abuso, e ele nunca soube [da gravidez]. Fui enviada a uma casa para mães e bebês e, ainda hoje, lembro dos quartos. Eram três ou quatro em uma casa antiga convertida em um espaço para receber meninas. Os dormitórios recebiam tantas garotas quanto fosse possível, e eu ficava em um deles com outras três ou quatro.

Eu dormia em uma cama de ferro, e havia uma cômoda que não era só minha. Eu tinha apenas uma gaveta nela. Não havia lugar para guardar nada em particular, nenhuma privacidade. Você tinha uma noite de banho por semana e, no restante do tempo, tinha que fazer o trabalho doméstico. Eu me lembro de esfregar os pisos de joelhos, inclusive na véspera do meu parto. Não havia a ideia de que eu precisava descansar por estar perto de dar à luz.

Duas mulheres atuavam como parteiras, uma delas era uma parteira aposentada. Era bastante gentil e foi quem fez o parto do meu filho. Não posso dizer que tenha sido horrível comigo. Ela foi tão gentil quanto pôde, mas não me lembro de ter recebido medicamentos para dor.

A inglesa Jan Doyle, 80, foi uma das cerca de 185 mil mulheres separadas de seus bebês no Reino Unido nos 30 anos após a Segunda Guerra Mundial — Foto: Arquivo pessoal

Depois que meu filho nasceu, em dezembro, fiquei com ele de seis a oito semanas. Em janeiro ou fevereiro, tive que levá-lo, junto da minha assistente de bem-estar materno, a uma casa para crianças a alguns condados de distância. Estava no carro dela com meu bebê e minha mãe, e eu o abracei no banco de trás durante toda a viagem. Foram quase duas horas, e lembro de que era um inverno muito frio.

Quando chegamos, o meu bebê foi tirado dos meus braços. Tive que abrir mão dele. Fomos conduzidos a uma sala, e eu me lembro de pensar “O que você fez com o meu bebê?”. A mulher perguntou se eu queria uma fotografia, e eu disse que sim, mas minha mãe disse não, então não tiramos. Depois, ela perguntou se eu gostaria de me despedir. Mais uma vez eu disse sim, e minha mãe negou.

Fui levada a uma sala com berços gigantes, mas apenas um deles estava ocupado, com meu bebezinho sozinho. Foi a última vez que o vi por mais de 60 anos. Deixá-lo foi a pior coisa.

Meus avós sabiam da situação. Eu não vi a minha avó, mas lembro que ela me mandou um cartão de Natal muito bonito. Todos me mandaram presentes de Natal, como fariam normalmente, mas as únicas pessoas que vi foram minha mãe e meu pai em visitas breves. Não foi um período feliz, e eu não ficava ansiosa pela chegada deles. Minha mãe queria que eu a abraçasse e dissesse que sentia muito, que era culpa minha. Mas eu não conseguia fazer isso.

Acredito que ela achava que estava fazendo aquilo para o meu bem. O melhor para mim, para o meu filho e para a família. O melhor para garantir que os vizinhos não soubessem. Ela sempre dizia para eu seguir em frente, esquecer. Mesmo quando minha mãe morreu, não houve nenhum reconhecimento, e eu achei isso difícil. Fiquei decepcionada.

Eu carreguei a vergonha. Só percebi de verdade que o que aconteceu comigo fazia parte de um sistema muito mais amplo há seis ou cinco anos. Meu primeiro marido sabia sobre o meu bebê, e também contei aos dois filhos que tive depois. Mas, enquanto o meu primeiro marido foi indiferente, o atual foi solidário.

Imagine, depois que eu tive o David — como eu chamava o meu primeiro filho, que foi nomeado John —, fiquei destruída. Quando tive meus outros dois filhos, acabei tendo uma depressão pós-parto grave por muitos e muitos anos. Acho que eu estava pensando na criança de que tive de abrir mão. Fiquei muito doente e passei muitos anos pensando em suicídio. Cheguei a deixar uma carta com advogados sobre a minha morte. Estava planejando tudo, mas não aconteceu, e fico feliz que não tenha acontecido.

[Em 2024], recebi uma carta do Passport Office [órgão do governo britânico responsável pelo registro civil]. Eu havia feito um cadastro indicando que gostaria de reencontrar o meu filho. É o filho, no entanto, que precisa iniciar o processo, ao menos era assim naquela época. Ele não havia tentado entrar em contato comigo até então, mas, em dado momento, recebi uma carta dizendo que havia alguém tentando entrar em contato comigo, e de início pensei que pudesse ser algo relacionado à minha filha, que, na época, estava solicitando a nacionalidade francesa. Só depois pensei: “Meu Deus, não pode ser!”.

Eu liguei para eles, e era, de fato, meu filho tentando me encontrar. Eles enviaram os meus dados para ele, que me mandou um e-mail. Dez dias depois, nós nos encontramos em um hotel bem perto da nossa casa. Eu me lembro que cheguei cedo e ficava dizendo: “Ele não vem, ele não vem”. E meu marido dizia: “Sim, ele vem, espere um minuto”. E, claro, ele veio... e foi incrível.

Quando vi aquele homem caminhando pelo hotel, pensei: “É o meu filho.” Foram mais de 60 anos separados, e todos os anos, no dia de seu aniversário, eu me pegava pensando: “Ele está vivo? Teve uma vida boa? É amado? O que aconteceu com ele? Ele se sentia rejeitado pela mãe?”. E hoje tenho muitas respostas.

Ele teve muita sorte. Conheci outros adotados que tiveram experiências difíceis, mas ele foi colocado em uma família que já havia adotado quatro crianças. Parecem ter sido uma família amorosa e cuidadosa, e os irmãos são próximos. A mãe adotiva morreu recentemente, aos 92 anos. Eu teria gostado de conhecê-la e agradecê-la pelo que ela fez pelo meu filho quando eu não pude estar lá.

Em 2022, eu estava no Parlamento e testemunhei. Eles reconheceram que deveria haver um pedido de desculpas, mas demorou todo esse tempo para que fosse feito. Sendo sincera, acho que o governo pensou: “Se nós reconhecermos e pedirmos desculpas, todas essas mães e crianças vão querer uma compensação financeira.” Para mim, dinheiro não vai curar os anos perdidos.


’Perdi a fé na Igreja Anglicana’

A Igreja Anglicana pediu desculpas, mas não fiquei impressionada. Eu frequentava a Igreja regularmente antes de isso acontecer, mas depois não consegui mais. Não diria que perdi minha fé em Deus, mas acho que perdi a fé na Igreja Anglicana.

Já quando Starmer anunciou o pedido de desculpas, eu senti que ele estava comprometido. Faremos tudo o que pudermos para garantir que as promessas dele sejam cumpridas, e eu diria para as pessoas não perderem a esperança. Sinto muito por qualquer um que tenha perdido um filho. Ainda assim, penso que é preciso acreditar que as coisas vão dar certo. Agora tenho uma fotografia dos meus três filhos juntos, e nunca pensei que a teria.

Jan Doyle comemora aniversário de 80 anos com a família no Reino Unido; após mais de 60 anos de separação forçada, inglesa registra união — Foto: Arquivo pessoal

Também estou satisfeita por vivermos em uma sociedade mais aberta, por sermos mais receptivos aos problemas das pessoas. Precisamos ser, especialmente em relação às mulheres. Elas que suportam e suportaram tanta coisa. Como deve ser viver sob o Talibã? Como deve ser para garotas jovens submetidas à mutilação genital? Para mulheres abusadas em guerras? Nós não vivemos em igualdade de forma alguma. E é por isso que devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para tornar as coisas mais igualitárias.”

Com informações do O Globo



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