Uma dor de cabeça em um domingo de maio mudou para sempre a vida de Luana, do marido, Jovecir, e da filha Laura, que, na época, tinha apenas 3 anos. Quatro anos depois, a família segue em uma luta diária, com cuidados intensos devido às sequelas de um AVC isquêmico
Era 5 de maio de 2022, um domingo, aparentemente, comum, qualquer outro. Luana, então com 31 anos, acordou cedo e saiu com o marido, Jovecir, e a filha Laura, de apenas 3 anos. A família, que é de Ituporanga (SC) foi visitar a mãe de Luana, que mora em uma cidade vizinha, Chapadão do Lageado (SC). Almoçou com a família, conversou, sorriu. Até ali, a família não fazia ideia que a vida ia começar a virar de cabeça para baixo, dentro de poucas horas.
Jovecir, Luana e a pequena Laura: em um dia que parecia um domingo qualquer, a vida deles mudou completamente — Foto: Reprodução/ Instagram“Tínhamos uma vida normal”, conta Jovecir, 36, em entrevista a CRESCER. “Trabalhávamos juntos, passeávamos, íamos para a igreja, visitávamos parentes, saíamos com a nossa filha. Era uma rotina de família como qualquer outra", descreve, lembrando de momentos que hoje parecem distantes e muito preciosos.
Depois daquele almoço, Luana, que estava na sala assistindo a um filme, voltou à cozinha reclamando de uma dor de cabeça muito forte. "Minha sogra deu um remédio para ela. Não deu quinze minutos e ela voltou dizendo: 'Estou cada vez pior. Estou fraca. Minha boca está formigando'", recorda-se o marido. Sem imaginar a gravidade da situação, ele a levou ao pronto-atendimento.
"Disseram que era ansiedade"
No hospital, Luana aguardou atendimento por cerca de uma hora. Depois de receber soro e medicação para dor, foi mandada de volta para casa. "O diagnóstico era de uma crise nervosa, de ansiedade. Não fizeram nenhum exame. Deram o soro, remédio para dor e a liberaram”, conta. Naquela noite, mesmo indisposta, Luana ainda preparou uma sopa para a família. "Não dava para imaginar que pouco tempo depois ela estaria numa UTI”, continua Jovecir.
No dia seguinte, segunda-feira, como fazia diariamente, Luana levou a filha, Laura, até a escola de bicicleta. Na terça, a dor persistia. "Eu dizia para ela: 'Luana, vamos ao médico. Isso não está normal'. Mas ela dizia que era uma gripe, que estava com dor na nuca", conta o pai.
Na madrugada de quarta para quinta-feira, a situação mudou completamente. Luana começou a vomitar e ficou com a fala arrastada. Ela já não conseguia mais ficar de pé. "Ela estava toda mole. Não conseguia se levantar da cama. Foi quando eu pensei: 'Meu Deus, isso não pode ser ansiedade ou gripe'", lembra Jovecir.
Desesperado, ele pediu ajuda a um vizinho que trabalhava no SAMU, que o orientou a chamar uma ambulância. Mas, de acordo com Jovecir, não foi tão simples. Ele ligou imediatamente para o serviço de atendimento, mas, segundo ele, não disponibilizaram o transporte. "Disseram que eu podia colocá-la no carro e levar ao hospital porque eu morava dentro da cidade”, relata.
Hoje, Luana precisa de cuidados intensos. A família se mudou para a casa da sogra, para facilitar — Foto: Reprodução/ InstagramMas Luana estava muito mal e ele tem um problema de coluna, que o impedia de colocar a esposa no próprio carro. Inconformado, ligou novamente, mas teria recebido a mesma resposta. Então, tentou falar com o Corpo de Bombeiros, que também não tinha equipe disponível.
"Eu explicava que tinha problema na coluna e não conseguia carregar minha esposa. Mesmo assim, ninguém veio", lembra. Sem alternativa, telefonou para o cunhado. "Foi ele quem pegou a Luana no colo e colocou dentro do meu carro. Se ele não tivesse chegado, eu nem sei o que teria acontecido”, conta.
"Eu implorava para que a atendessem"
Ao chegar novamente ao hospital, por volta das 8h da manhã, Luana já havia piorado muito. Ela mal conseguia permanecer sentada na cadeira de rodas. "Eu falava: 'Pelo amor de Deus, domingo eu estive aqui com ela. Hoje ela está muito pior'", conta Jovecir, lembrando do desespero.
Mas foram horas aguardando atendimento e exames. "Ela entrou às oito da manhã. Ao meio-dia, já não conseguia mais falar. Depois começaram os espasmos. E eu perguntando quando iam fazer alguma coisa", recorda-se.
A tomografia não podia ser realizada porque o aparelho da cidade estava quebrado. Luana teria de ser transferida para outro município. "Eles diziam que precisavam da tomografia. Eu perguntava: 'Então por que não fazem?'. A resposta era que não tinha motorista, não tinha carro”, conta.
Somente quando um médico da UTI avaliou Luana a situação mudou. "Ele olhou e falou: 'Meu Deus, ela já está convulsionando. Isso aqui tinha que ter sido encaminhado antes'", relata Jovecir. A ambulância saiu em alta velocidade para Rio do Sul, cidade vizinha, a cerca de 25 km de distância. "Mas até realizarem de fato o exame já tinham se passado praticamente doze horas", acrescenta o marido.
O diagnóstico
Na outra cidade, Luana finalmente passou pela tomografia. Mas o exame não foi suficiente para que a família recebesse uma resposta imediata. Nos primeiros dias, os médicos trataram Luana como um possível caso de meningite e encefalite. De volta à sua cidade, já de noite, ela foi internada e a equipe orientou Jovecir a ir para casa, descansar, porque ela teria de ficar ali.
Na manhã seguinte, o hospital telefonou pedindo que a família fosse até lá. Jovecir imaginou que encontraria a esposa internada em um quarto, mas recebeu outra notícia. "Disseram: 'Não se assuste. Ela está entubada na UTI'. Aquilo acabou comigo", lembra.
Somente depois de novos exames veio a confirmação: a esposa dele tinha sofrido um AVC isquêmico, que atingiu uma região central do cérebro, responsável por funções motoras e de comunicação. "Quando descobriram, ela já estava internada fazia dias", diz Jovecir.
A partir daí, tudo mudou. Foram 47 dias de terapia intensiva, mais de dois meses de internação - e poucas perspectivas. "Os médicos nunca deram esperança. Diziam para eu me preparar para o pior. Falavam que, se ela sobrevivesse, ia ficar daquele jeito para sempre", conta o marido, angustiado. Mesmo assim, ele continuou conversando com a esposa. "Eu falava com ela todos os dias. Parecia que ela entendia tudo”, afirma.
Febre de saudade
Enquanto Jovecir passava os dias indo e voltando de hospitais, para acompanhar o tratamento da esposa, a pequena Laura sentia a ausência da mãe. Segundo o pai, a pequena começou a ter até febre, sem que infecções fossem detectadas por exames. "Nós a levamos ao médico, mas descobriram que era emocional. Era saudade da mãe", lembra ele.
Depois de conversar com psicólogos e a equipe do hospital, a família conseguiu autorização para uma visita de Laura à UTI. "Ela entrou de jaleco, máscara, luva... tudo para poder ver a mãe. Aquilo ajudou muito”, lembra o pai, que, com o tempo, foi tentando explicar como podia o que estava acontecendo com Luana.
Um dia, Laura tinha uma mãe ativa, que a abraçava, pedalava até a escola, preparava as refeições com todo o carinho. De repente, isso foi tirado dela, de forma repentina. Hoje, Laura está prestes a completar 8 anos, mas ainda sofre. "Quando tem homenagem para as mães na escola, ela sente muito. Ela pergunta por que isso aconteceu com a mãe dela”, conta o pai.
Recentemente, um vídeo publicado no perfil que a família usa para compartilhar a rotina de cuidados com Luana, viralizou e comoveu as redes sociais. Nele, a menina brincava de lanchonete, tentando interagir com a mãe, que não conseguia responder. “No início, era menorzinha, não entendia. Agora, ela já entende. Mas é bem difícil”, lamenta o pai.
A casa virou hospital
Depois da fase mais aguda do tratamento, Luana sobreviveu, mas ficou com muitas sequelas. Ela recebeu alta e a família precisou reconstruir completamente a rotina. Luana voltou para casa com traqueostomia, alimentação por sonda e necessidade de cuidados permanentes. "Tivemos que adaptar tudo. Colocar cama hospitalar, cadeira de rodas, cadeira de banho, aumentar porta, pegar gerador de energia. A casa virou praticamente um hospital", explica Jovecir.
Laura sente muito e nem sempre entende por que tudo isso aconteceu com a mãe dela, mas está sempre por perto, ajudando como pode e, principalmente, oferecendo todo o amor e carinho — Foto: Reprodução/ InstagramHoje, com 35 anos, Luana faz fisioterapia diariamente, além de acompanhamento com neurologista e fonoaudióloga. Grande parte dos atendimentos acontece dentro de casa. "Ficou muito cansativo fazer viagens. Então, os profissionais vêm até aqui", diz o marido.
Quase cinco anos depois do AVC, a rotina continua sendo organizada em função dos cuidados com Luana. "Não existe sábado, domingo ou feriado. A nossa vida hoje é cuidar dela", afirma.
Para facilitar os cuidados, a família passou a morar com a mãe de Luana. "A nossa rotina virou de ponta-cabeça. Mudou tudo. Eu perdi a privacidade, minha sogra perdeu a privacidade, mas era o que precisava ser feito”, diz ele.
Mesmo muito pequena, Laura também participa dos cuidados. "Ela ajuda a cuidar da mamãe. Conversa, faz carinho, acompanha tudo. Ela cresceu vendo essa rotina", conta o pai.
"A gente continua esperando"
Apesar das sequelas, Jovecir diz que nunca deixou de acreditar. "A medicina nunca nos deu esperança. Mas a gente continua acreditando”, afirma. Quando fala sobre o futuro, ele não menciona grandes milagres, mas sinais simples. Um olhar, uma resposta, uma conversa. "A gente ainda espera o dia em que ela vai olhar para nós e responder", diz, cheio de esperança, que é justamente o que mantém a família seguindo em frente, um dia de cada vez.
Com informações da Revista Crescer

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