Mudanças climáticas do El Niño agravam quadros alérgicos; saiba como amenizar problema


Asma, rinite alérgica e infecções respiratórias são as condições mais frequentes

Aumento das temperaturas, mudanças na umidade do ar e períodos de chuvas intensas ou estiagem, a depender da região do Brasil, são as características do El Niño, responsável pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico.

Com ele, as mudanças climáticas ficam mais intensas. O fenômeno reflete de forma indireta na saúde, intensificando quadros de alergias respiratórias.

A presidente da Asbai (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), Fátima Rodrigues Fernandes, esclarece que o bem-estar respiratório está diretamente condicionado aos fatores climáticos.

Segundo a especialista, a exposição à poluição atmosférica combinada a variações térmicas extremas agride e fragiliza as vias aéreas.

Tempo seco com ar de má qualidade e poluição na região da praça Pôr do Sol, em Alto de Pinheiros, zona oeste da cidade - Zanone Fraissat - 15.set.25/Folhapress

"O El Niño não é o culpado pelas doenças ou pelo agravamento delas. São as alterações climáticas que levam a uma exacerbação do fenômeno, o que causa as complicações."

A médica diz que a asma, a rinite alérgica e as infecções respiratórias são as condições mais frequentes. A especialista argumenta que a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), apesar de não ser alérgica, pode aparecer junto da asma.

As chuvas e as enchentes, como as que ocorrem no Sul, aumentam a quantidade de fungos dentro e fora das casas. Outro problema tem como exemplo recente o que ocorreu no Rio Grande do Sul, em 2024: os pacientes foram forçados a interromper os cuidados com a saúde. "As pessoas descontinuaram seus tratamentos, ficaram sem acesso à saúde, ao controle de doenças, à compra de medicamentos e consultas. E agora parece que já temos algum grau disso também. São fatores de agravo, além das condições da casa e do ambiente externo", explica Fátima Rodrigues.

E não são só as alergias, alerta a especialista. As ondas de calor e a secura do ar descompensam doenças cardíacas, causam desidratação, insolação e exaustão física.


Quais são as principais medidas práticas para reduzir alérgenos dentro de casa?

A mais importante é a limpeza mecânica do ambiente, com remoção de ácaros, mofo e poeira. Recomenda-se aspirar colchões, travesseiros, almofadas e sofás com aspiradores de filtro HEPA; trocar a roupa de cama pelo menos uma vez por semana; evitar brinquedos de pelúcia; e limpar superfícies com pano úmido. Evite também fumaça de cigarro, gasolina e produtos de limpeza com cheiro forte. Para alérgicos a ácaros, mofo e pelos de animais, o ideal é deixar a casa arejada e bem ventilada.


Por que o pólen representa um desafio diferente dos outros alérgenos domésticos?

O pólen é um alérgeno externo, o que impossibilita limpar o ambiente para eliminá-lo. Além disso, as mudanças climáticas causadas pelo El Niño alteram o ciclo das plantas e a polinização, podendo prolongar as estações polínicas. Pessoas sensíveis ao pólen devem manter a casa fechada e vedar janelas para impedir a entrada dos grãos de pólen vindos de fora.


Como usar ar-condicionado, umidificadores e desumidificadores de forma segura para alérgicos?

O ar-condicionado deve ser limpo e higienizado com frequência, conforme orientação do fabricante. Desumidificadores e umidificadores devem ter controle de umidade e mantê-la entre 40% e 60%. O ar tanto seco quanto úmido, nos extremos, é prejudicial: o excesso de secura irrita as mucosas; o excesso de umidade favorece o crescimento de fungos.


Por que os descongestionantes nasais são considerados problemáticos pelos alergistas?

Eles promovem alívio imediato ao causar vasoconstrição nasal, mas têm efeito rebote: após o uso, a congestão retorna de forma mais intensa do que antes, o que leva o paciente à dependência. Esse quadro é chamado de rinite medicamentosa e exige acompanhamento médico para o desmame e início do tratamento adequado. Os descongestionantes nasais só devem ser usados por, no máximo, um a dois dias, em crises intensas.


Quais são os riscos da automedicação com descongestionantes, especialmente em crianças e idosos?

Em crianças pequenas, esses medicamentos podem penetrar no sistema nervoso central e causar convulsões, alterações neurológicas e arritmias cardíacas. Em idosos, também há risco de complicações cardiovasculares.


Por que a automedicação com antialérgicos é desaconselhada?

Devido à possibilidade de erros no diagnóstico, uso de medicamentos inadequados e efeitos colaterais graves.


Qual é o tratamento ideal para a rinite alérgica?

Sprays nasais anti-inflamatórios, geralmente com corticoide inalatório. Eles atuam diretamente na inflamação da mucosa nasal.


Como diferenciar uma crise alérgica de uma gripe, e é possível ter febre em um quadro alérgico?

A febre é um marcador de infecção, enquanto as alergias costumam se manifestar com coceira, espirros e chiado. No entanto, quadros alérgicos podem apresentar febre quando associados a uma infecção.

O principal fator para identificar uma alergia é a repetição frequente dos sintomas, como espirros, coriza e coceira no nariz e nos olhos (no caso da rinite), ou chiado no peito e falta de ar (no caso da asma). Vale lembrar que indivíduos alérgicos são mais suscetíveis a infecções, pois já possuem uma mucosa inflamada.


Como populações vulneráveis devem se preparar para eventos climáticos extremos?

Crianças, idosos e doentes crônicos devem acompanhar as previsões meteorológicas para se anteciparem a ondas de calor, frentes frias e dias de alta poluição. Em dias muito poluídos, recomenda-se evitar a exposição ao ambiente externo.


Como eventos climáticos extremos afetam os olhos e qual é a relação com a rinite alérgica?

Os olhos são bastante vulneráveis a eventos climáticos extremos, como ondas de calor e secura do ar, pois não possuem a barreira mucociliar presente nas vias respiratórias. Isso pode causar conjuntivite, caracterizada por coceira, vermelhidão e dificuldade para enxergar —inclusive em pessoas não alérgicas.

Cerca de 80% dos pacientes com rinite alérgica também apresentam conjuntivite. A recomendação é hidratar a mucosa ocular para eliminar detritos e manter o funcionamento normal dos olhos.


Como tratar a ardência nos olhos causada pelo tempo seco e poluição?

Não use colírio de forma aleatória. Existem diferentes tipos, desde lágrimas artificiais até imunossupressores. A escolha depende do diagnóstico de cada paciente. Para a população geral, colírios hidratantes e lubrificantes podem e devem ser usados, especialmente em climas secos.


Quais são os principais tipos de alergia de pele e seus sintomas?

Os principais tipos são dermatite atópica (eczema), urticária e dermatite de contato. Os sintomas incluem coceira intensa, descamação, vermelhidão e, em alguns casos, secreção. Cerca de 20% a 30% dos pacientes podem ter quadros mais graves, com comprometimento de toda a pele e formação de feridas.


Quais complicações oculares podem surgir em pacientes com dermatite atópica?

A coceira intensa nos olhos leva ao ato contínuo de esfregar a região, o que pode causar o ceratocone —a córnea deforma, afina e fica pontiaguda. Casos mais graves podem exigir transplante para evitar a perda da visão.


Fonte: Folha de São Paulo



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