Pastoras lésbicas criam igreja inclusiva e desafiam a exclusão no meio evangélico: 'Deus nos ama como somos'


Durante um culto na Cidade de Refúgio, em São Paulo, Lanna Holder e Rosania Rocha falaram à Marie Claire sobre fé, sexualidade e a trajetória pessoal que deu origem ao espaço de acolhimento para cristãos LGBTQIAPN+

Lanna Holder e Rosania Rocha estão juntas há mais de 20 anos — Foto: Reprodução/ Instagram

Nem a chuva fina que caiu na noite de quarta-feira foi suficiente para afastar os fiéis da Cidade de Refúgio. Há cerca de 15 anos, a igreja evangélica instalada na Avenida São João, no centro de São Paulo, recebe pessoas LGBTQIAPN+ que buscam viver a fé cristã em um ambiente de acolhimento..

Marie Claire acompanhou um dos cultos da igreja, dedicado ao estudo bíblico. Logo na chegada, voluntários recebem os visitantes com sorrisos e uma pergunta que parece fazer parte do ritual de boas-vindas: “É a sua primeira vez aqui?”, perguntam antes de me conduzirem até a pastora Lanna Holder, fundadora da Cidade de Refúgio ao lado de sua mulher, a cantora gospel Rosania Rocha

Lanna conta que a igreja nasceu da própria experiência do casal com a exclusão dentro do meio evangélico. “Tanto eu quanto a Rosania viemos da igreja evangélica. Foi lá que nós nos conhecemos. Com o tempo, por causa das dificuldades que a população LGBTQIAPN+ enfrenta dentro desse contexto religioso, fomos nos afastando e nos aproximando de outras pessoas da comunidade”, afirma.

“Percebemos que quase todas carregavam a mesma história: eram cristãs, mas haviam sido excluídas, convidadas a sair ou simplesmente entenderam que não eram bem-vindas.”

Ela explica que a criação da igreja não foi uma decisão imediata. Antes disso, o casal passou anos revisitando a própria relação com a fé e desconstruindo a ideia de que suas sexualidades eram “pecado”.

“Foram oito anos estudando, refletindo sobre os textos bíblicos usados para condenar pessoas LGBT e compreendendo que o amor de Deus também nos alcançava. Foi quando entendemos que nossa orientação sexual não poderia ser um impedimento para continuarmos vivendo a nossa fé e oferecendo essa mesma oportunidade a outras pessoas.”

Casal comanda a igreja inclusiva Cidade de Refúgio — Foto: Reprodução/ Instagram

O acolhimento é percebido antes mesmo do início do culto. Placas de “sejam bem-vindes”, com o pronome neutro, dividem espaço com elementos nas cores da bandeira LGBTQIAPN+ ao longo do caminho até o templo. Por ser um dia de semana, a igreja não está lotada, mas cerca de cem pessoas ocupam parte das cadeiras.

Enquanto alguns fiéis conversam, outros oram ajoelhados. Depois da oração, um casal de homens se beija, emocionado, ao fundo do salão. No palco, Rosania abre o culto cantando duas músicas, acompanhada por uma banda, um coral de jovens e um grupo de dança.

Depois dos louvores, Lanna assume o púlpito. A estrutura do culto é semelhante à de muitas igrejas evangélicas, com leitura da Bíblia e pregação. A principal diferença está na mensagem. Em determinado momento, ela afirma que não se incomoda quando pessoas tentam ofendê-la chamando-a de “lésbica” e diz, sob aplausos dos fiéis, ter orgulho de ser uma “sapatão raiz”.

Mas nem sempre foi assim. Durante oito anos, Lanna pregou como “ex-lésbica” e defendia o que mais tarde passaria a chamar de “cura gay”.

“Quando a Rosania entrou na minha vida, eu já vivia novamente conflitos em relação à minha sexualidade. Eu tinha oito anos de convertida e fazia tudo o que a igreja dizia que eu precisava fazer: orava, jejuava, subia o monte, reprimia minha sexualidade, me casei e tive filho. Ainda assim, continuava lutando contra a minha orientação sexual”, reflete. A apóstola afirma que, na época, acreditava sinceramente no discurso que pregava.

“Eu fui ensinada a acreditar que, se continuasse vivendo minha sexualidade, iria para o inferno. Quem acredita nisso faz de tudo para mudar.”

Lanna e Rosania passaram por um processo interno até assumirem o relacionamento — Foto: Reprodução/ Instagram

Ela diz que conhecer Rosania marcou o início de uma transformação que levou anos. As duas começaram compartilhando as dificuldades que enfrentavam em seus respectivos casamentos, até que passaram a questionar as certezas que carregavam sobre sexualidade e religião.

“A Lanna de hoje é resultado de todas as tentativas da Lanna de 25 anos atrás. Ninguém pode dizer que eu não tentei o suficiente. Eu me casei, tive filho, fiz tudo o que diziam que levaria à chamada cura gay. Eu acreditava que, se repetisse aquilo por tempo suficiente, um dia se tornaria verdade.”

Para a pastora, entender a diferença entre orientação sexual e escolha foi essencial para aceitar a própria identidade. “Ninguém escolhe ser alvo de preconceito, de exclusão social ou religiosa. Quando entendi que fui criada assim, consegui abraçar quem eu sou. Primeiro reconheci que Deus me amava exatamente como sou. Depois consegui fazer o mesmo comigo. Foi aí que encontrei plenitude”, declara.


Parceria na vida

Casadas desde 2013, Lanna Holder e Rosania Rocha se conheceram anos antes, quando ambas já ocupavam posições de destaque no meio evangélico. Na época, Rosania vivia nos Estados Unidos, onde fazia carreira como cantora gospel, enquanto Lanna, missionária em ascensão no Brasil, viajava pelo país para pregar em igrejas.

O primeiro encontro aconteceu em 2002, durante um evento religioso nos Estados Unidos. “Eu fui cantar no mesmo lugar em que ela iria ministrar. Sempre lembro da primeira vez que a vi”, conta Rosania.

Antes do disso, porém, houve um desencontro que acabou se transformando em uma lembrança divertida do casal. “Em uma das semanas, o pneu do meu carro furou e eu não consegui chegar à igreja. Ela pregou dizendo que eu era ‘furona’. Eu pensei: ‘Que mulher chata! Como assim furona? Meu pneu furou.’ Hoje a gente ri muito dessa história.”

Na semana seguinte, Rosania finalmente participou do culto. Sentada nas primeiras fileiras, viu Lanna entrar carregando o filho pequeno, Samuel.

““uando a vi entrando com ele no colo, senti algo diferente. Não consegui entender o que era. Desde criança eu sabia que era diferente das minhas amigas, mas tinha guardado isso dentro de mim. Vivi muito essa heteronormatividade compulsória, sem querer machucar ninguém, nem a mim mesma.”

Ela diz que aquele encontro despertou questionamentos que, até então, nunca havia permitido a si mesma fazer. “Eu tinha cerca de 29 anos e era muito inocente em relação às questões LGBT. Minha vida era servir a Deus, cantar, compor e produzir música. Quando a vi, foi como se algo dentro de mim se abrisse. Passei a entender por que tantas coisas na minha vida pareciam não funcionar.”

A partir dali, as duas construíram uma amizade. Na época, ambas eram casadas com homens e já tinham filhos.

Lanna lembra que viveu aquele início de forma diferente. “Eu estava há sete anos viajando pelo Brasil e por outros países dizendo que era uma ex-lésbica. Não houve, da minha parte, qualquer intenção de me aproximar por interesse. Nós realmente nos tornamos grandes amigas.”

Ela conta que a amizade nasceu da troca de confidências sobre as dificuldades que enfrentavam em seus relacionamentos heterossexuais. “Eu já vivia um casamento de fachada por causa da igreja e do ministério e já havia pedido o divórcio. A gente conversava muito. Eu dizia que não entendia o que havia de errado comigo, e ela tentava me ajudar.”

Rosania lembra que as conversas eram despretensiosas e até rendiam momentos de humor. “Ela dizia: ‘Me ajuda a ser mais feminina’. A primeira coisa que sugeri foi colocar unha postiça. A gente ria muito. Quando compartilhávamos problemas do casamento, era para apoiar uma à outra.”

Lanna e Rosania se casaram em 2013 — Foto: Reproudução/ Instagram

Com o passar do tempo, a amizade deu lugar a sentimentos que ambas tentaram reprimir por causa da fé que professavam. “Foi um conflito de proporções gigantescas”, relembra Lanna.

“Nós chorávamos, pedíamos a Deus que tirasse uma do coração da outra, nos afastávamos e fazíamos de tudo para que aquilo não acontecesse. Primeiro ficamos quase um ano sem contato, depois mais dois.”

Somente após esse longo processo, conseguiram aceitar que o vínculo entre as duas não era passageiro. “Foi um período muito desesperador, até entendermos que aquilo não era uma paixão de juventude, mas parte de quem éramos. Hoje estamos juntas há quase 25 anos”, observa a pastora.

Depois de seu relacionamento com Lanna vir à tona, Rosania conta que a exposição pública lhe custou a carreira que havia construído ao longo de uma década no mercado gospel.

“Eu vivia 100% para o ministério. A repercussão foi enorme entre as igrejas. Eu já tinha um novo álbum praticamente pronto, mas o projeto foi entregue a outra cantora. Todos os compromissos que eu tinha foram cancelados, inclusive na minha própria igreja”, diz.

Sem espaço no meio religioso, Rosania voltou a trabalhar com produção musical no mercado secular. Ao mesmo tempo, encontrou na composição uma forma de atravessar o período mais difícil da vida. “Foi quando mais chorei e mais escrevi. Acho que os melhores hinos nascem da dor.”

Aos poucos, também se afastou do ambiente evangélico tradicional. O acolhimento veio justamente de pessoas que, como ela, haviam sido excluídas das igrejas por serem LGBTQIAPN+.

“Quem me recebeu foi a comunidade. Eram pessoas que já me conheciam por cantar nas igrejas, mas que também tinham sido afastadas. Elas me chamavam para encontros, churrascos, e sempre acabávamos falando de Deus.”

Foi nesses encontros informais que nasceu a semente da Cidade de Refúgio, observa Rosania. “Antes de existir uma igreja, existiam rodas de conversa. Alguém pegava um violão, começávamos a cantar, e as pessoas paravam o que estavam fazendo para ouvir. Muitos choravam. Nós também. Foi ali que tudo começou.”


‘Muitas pessoas chegam para nos confrontar’

Para a pastora, o maior desafio da Cidade de Refúgio ainda é desconstruir a imagem criada por quem nunca entrou na igreja.

“Muita gente chega aqui dizendo que esperava encontrar outra coisa. Existe uma ideia de que isso seria uma ‘Sodoma e Gomorra’, como se houvesse algum escândalo acontecendo durante o culto. A realidade é exatamente o oposto."

Ela afirma que a proposta da igreja não é mudar a Bíblia, mas reinterpretar textos historicamente usados para justificar a exclusão de pessoas LGBT.

“Quando fazemos uma leitura histórico-crítica, não estamos falando apenas dos textos usados para condenar homossexuais. É o mesmo exercício que fazemos ao discutir o papel da mulher ou passagens que, durante séculos, foram usadas para defender a escravidão. Interpretar a Bíblia à luz do contexto histórico é o que permite que ela continue produzindo vida.”

Segundo Lanna, esse entendimento também tem despertado o interesse de lideranças religiosas de outras instituições. “Já recebemos pastores perguntando como acolher pessoas LGBT em suas igrejas. Muitos dizem acreditar que elas foram criadas por Deus, mas não sabem como lidar com essa realidade dentro de uma igreja tradicional.”

A própria existência da igreja inclusiva foi alvo de preconceito. “Muitas pessoas chegam aqui prontas para nos confrontar. Algumas já disseram que vieram decididas a interromper o culto. Mas acabam indo embora desarmadas.”

Ao fim de uma hora e meia de culto, um QR Code para o dízimo aparece no telão, seguido pelos avisos para a comunidade. Entre eles, está a divulgação do show que Rosania fará no Teatro Itália, depois de ter lotado o Theatro Municipal de São Paulo. Quem comprar um ingresso concorre ao sorteio de uma viagem para um parque aquático no interior paulista. A chamada é embalada, curiosamente, por uma música de Miley Cyrus.

Antes da despedida, os visitantes são convidados a se apresentar. Lanna dá as boas-vindas aos novatos e menciona a presença da equipe da Marie Claire: “Espero que vocês voltem mais vezes.”

Com informações da revista Marieclaire



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