Pesquisa revela anomalias em mais de 60% dos peixes analisados no litoral Norte do ES


Estudo com cabeçudos-pretos coletados na região de Conceição da Barra identificou alterações nos otólitos, estruturas ligadas ao equilíbrio e à percepção sonora; pesquisadores ainda investigam as possíveis causas.

Região da foz do Rio São Mateus, onde foram coletados os peixes analisados no estudo.

Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) identificou anomalias em 60,5% dos exemplares de cabeçudo-preto (Stellifer naso) analisados no litoral Norte do Espírito Santo. Os peixes foram coletados em maio de 2022, na região da foz do Rio São Mateus, próximo a Conceição da Barra.

A espécie, também conhecida como tambor-estrela, vive no fundo do mar e mantém contato direto com os sedimentos. Segundo os pesquisadores, essa característica pode aumentar a exposição dos animais a substâncias presentes no ambiente.

As alterações foram encontradas nos otólitos, estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes e responsáveis por funções relacionadas ao equilíbrio, à orientação espacial e à percepção de sons.

Apesar do índice elevado de anomalias, os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite afirmar que as deformações tenham sido causadas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). A tragédia ocorreu em 2015 e liberou rejeitos de mineração que atingiram a bacia do Rio Doce.

O pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ, explicou que ainda não foi possível determinar quais contaminantes ou metais poderiam estar relacionados às alterações observadas. A equipe pretende realizar novas análises químicas para identificar os materiais acumulados nos otólitos.

Os pesquisadores também planejam investigar possíveis deformações externas nos animais e repetir o monitoramento da região nos próximos anos.


Índice acima de registros anteriores

O percentual de 60,5% encontrado no estudo é considerado elevado quando comparado a pesquisas anteriores realizadas no Brasil. Um dos maiores índices registrados anteriormente foi de 27,1%, identificado em exemplares de bagres da espécie Cathorops spixii.

A pesquisa amplia o acompanhamento das condições ambientais no litoral Norte capixaba e busca compreender melhor os possíveis efeitos da exposição prolongada dos organismos aos sedimentos da região.

A Samarco, responsável pela barragem de Fundão, afirmou que o estudo não estabelece relação entre as anomalias e o rompimento ocorrido em Mariana. A empresa informou ainda que investiu cerca de R$ 800 milhões em monitoramento ambiental no Rio Doce desde 2018, incluindo recursos destinados a pesquisas realizadas no Espírito Santo e em Minas Gerais.




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