Itapemirim, antigo gigante capixaba, ainda enfrenta disputas judiciais quatro anos após falência


Quatro anos após falência, fantasma da Itapemirim ainda assombra, antes dominante no transporte rodoviário, empresa foi palco de Recuperação Judicial e falência com troca de acusações.


Para um ex-executivo da Itapemirim, seria impossível para o grupo manter a posição que teve entre os anos 1970 e 1980, de domínio no mercado de transporte interestadual rodoviário. Mas não precisava terminar "desse jeito".

O "desse jeito" envolve disputas familiares, dívidas, venda simbólica, sucateamento da frota e recuperação judicial tão tumultuada que causou espanto a magistrados. A falência foi decretada em 2022, após a administradora judicial dizer que o cenário era de "terra arrasada".

Mesmo o pedido de falência foi controverso. Credores argumentaram à Justiça que o cenário poderia ser revertido. A briga continua, agora por linhas de transporte de passageiros.

Guichês do braço aéreo da Itapemirim fechados no aeroporto de Guarulhos, na crise de 2021; para Justiça, derrocada da empresa foi chave para a falência do grupo - Bruno Santos-21.dez.21/Folhapress

Criada em 1953, a Itapemirim foi a maior empresa de transporte rodoviário da América Latina e teve frota superior a 2.000 ônibus. Chegou a ter faturamento, corrigido, de R$ 3 bilhões por ano. Em outubro de 2016, o empresário Sidnei Piva, que depois seria afastado pela Justiça, a comprou por R$ 1.

A dívida do grupo, incluídos os débitos fiscais, ultrapassava os R$ 2 bilhões. A avaliação de pessoas do mercado é que a Itapemirim foi vítima de brigas de sucessão após a saída do fundador, o político capixaba Camilo Cola (1923-2021), do aumento da concorrência e da popularização das viagens aéreas para a classe média.

A EXM Partners, nomeada administradora judicial, solicitou a falência do grupo sob o argumento de que o "cenário encontrado é tão precário que não demonstra a viabilidade do negócio." Mas também a atuação da empresa é questionada por credores e por Piva.

Empresário que já havia comprado outras empresas em dificuldades financeiras, ele é acusado, nos documentos juntados à recuperação judicial, de contribuir de forma decisiva para o fim da Itapemirim. A EXM afirma que todo o processo foi marcado por "altíssimo número de incidentes, o que aumentou o passivo.

A recuperanda utilizou todas as ferramentas para contestar créditos já constituídos e postergar pagamentos, rediscutir operações bancárias antes e depois da recuperação judicial, buscando suspender a exigibilidade das dívidas."

A leitura dos documentos mostra que, tanto para a EXM quanto para a Justiça, o golpe fatal foi a criação da ITA, braço de transportes aéreos, em 2021. Houve a injeção de cerca de R$ 35 milhões na nova companhia, dinheiro que seria dos credores.

Sob a alegação de que a empresa precisava de mais caixa por causa da pandemia, Piva pediu a flexibilização da recuperação judicial. Tudo terminou seis meses depois, com a empresa fechando as portas e deixando 5.672 clientes sem voos dias antes do Natal.

Em sentença, o juiz João de Oliveira Rodrigues Neto, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, considerou ter existido "interpretação equivocada das recuperandas sobre os limites da tal flexibilização." O magistrado também escreveu que a "desorganização da gestão, somada à utilização de recursos para objetivos outros que não o cumprimento do plano, fez com que as operações empresariais entrassem em colapso".

Piva é alvo de ação criminal por estelionato e crime na relação de consumo, afirma o promotor Cássio Roberto Consenrino. O processo tem mais de 14 mil páginas.

O advogado do empresário contesta essa visão e diz que a criação da ITA fazia parte do plano de recuperação judicial do Grupo Itapemirim. Teria sido uma tentativa válida de tentar gerar caixa.

"Até o dia do fechamento, não havia uma dívida trabalhista", afirma Alberto Germano. "Houve o cenário da Covid, a concorrência dos preços e o marketing agressivo [dos concorrentes]", afirma.

Ele argumenta que o cancelamento dos voos aconteceu porque a empresa que operava toda a estrutura de operação parou por falta de pagamento. O dinheiro viria da 123Milhas, que depois também entraria em recuperação judicial. O dinheiro dos consumidores estaria com a Sorocred (hoje Afinz). Segundo Germano, ele, a operadora de cartões disse que apenas faria o reembolso a clientes que realizassem o pedido. Na época, seriam cerca de R$ 40 milhões.

Os documentos do processo da RJ, seja em decisões judiciais, em relatórios da EXM ou observações da watchdog, contêm diferentes críticas à atuação de Piva à frente do Grupo Itapemirim.

Cita pagamentos de R$ 11,9 milhões para uma ex-sócia, remunerações mensais ao empresário que chegaram, em março de 2020, a R$ 300 mil; constituição da sociedade Itapemirim Group Ltda, tendo como sócias duas empresas holdings pertencentes a Piva e a abertura de sociedade chamada Itapemirim Bank.

A sentença judicial que decretou a falência cita que, após assembleia que decidiu o afastamento de Piva, em 2022, um dos diretores do grupo se apresentou como novo proprietário, mudando a sede para dois imóveis na capital paulista. De acordo com a Justiça, nesse período aconteceu a paralisação das atividades da empresa por falta de insumos, abandono e depredação da frota e transporte de ativos das recuperadas para "local incerto e não sabido."

A EXM apresentou à Justiça relatório que aponta o esvaziamento patrimonial das empresas, a destinação de recursos do pagamento de credores e os valores obtidos com leilões para "fins diversos ao previsto no plano de recuperação judicial" e o desinteresse em realizar parcelamento tributário, entre outros problemas. O juiz da Vara de Falências e Recuperações Judiciais considerou que a "saúde financeira e operacional do Grupo Itapemirim foi fatalmente debilitada."

Nos autos, a Brasil Expert, nomeada para a função de watchdog (observador judicial), disse ter existido "uma tentativa de indução a erro" ao perceber diversas dificuldades de operação e ausência de informações quanto à saída de valores.

O advogado de Piva contesta essa visão de que seu cliente é o vilão da derrocada do grupo.

"A Itapemirim já estava em recuperação judicial antes da chegada do Sidnei. Os problemas financeiros já existiam", afirma.

"A dívida é dos anos 2000. Ele denunciou ao Ministério Público os problemas da empresa, desvios de ônibus… Prepararam a empresa para quebrar. As linhas boas foram tiradas. Venderam para o Sidnei um sonho. Ele denunciou tudo isso. É tudo muito triste", completa, dizendo que a vontade do seu cliente sempre foi reerguer a companhia.

Alberto Germano questiona também a EXM, que teria o papel de acompanhar a recuperação judicial e poderia, segundo o advogado, impedir as irregularidades de gestão que afirma terem acontecido.

"Quando o Sidnei chega, o plano de recuperação já estava aprovado. A autorização para novos negócios foi aprovada judicialmente. Tudo tem de passar pelo administrador judicial. Até o token bancário [para movimentação financeira] ficava com o administrador judicial. Então, como tudo isso aconteceu?", questiona.

A Folha procurou a EXM por meio de sua assessoria de imprensa entre a manhã da última quinta-feira (6) e a tarde de sexta-feira (7) e mandou questões a respeito do assunto. Não houve resposta.

"Na Itapemirim não tem cautelar, não tem crime contra o Sidnei. Ele saiu da empresa sem nada. Dependeu até da esposa para sobreviver", diz Alberto Germano.

Patricio Lopes Fabelo, um dos credores, peticionou contra o fechamento da empresa e a classificou como "irresponsável", por violar a soberania da assembleia geral de credores. Também reclama que a EXM "se mostrou silente quanto às graves denúncias de irregularidades realizadas pelos credores nos autos e nas RMAs [relatórios mensais de atividade] anteriores."

Na sentença, a Justiça decretou que a realização de nova assembleia seria inócua e manteve a falência.

O credor questiona, assim como Germano, a concessão de linhas da Itapemirim para a Suzantur, uma disputa que envolve até a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). O processo está no STJ (Superior Tribunal de Justiça). O contrato foi feito pela EXM em setembro de 2022. A Suzantur repassaria à massa falida da Itapemirim 1,5% da receita líquida da venda de passagens, assegurando um mínimo mensal de R$ 200 mil. A concessão foi contestada por outras empresas do setor, como Viação Garcia, Expresso União, Águia Branca e Intese, que alegaram ter apresentado propostas superiores.

A agência afirma que as linhas interestaduais operam sob regime de permissão de serviço público e não poderiam ser arrendadas.

Na massa falida do Grupo Itapemirim, a família Cola venceu, após seis anos, arbitragem na CAM-CCBC (Câmara de Arbitragem e Mediação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá). Após a decisão, proferida em maio, os antigos donos pretendem buscar execução de cerca de R$ 400 milhões contra Piva.


Da Redação / Com informações Folha de São Paulo




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