Tecnologia usada há mais de 20 anos em caminhões ganha versão para automóveis e marca cerca de 100 componentes para dificultar o comércio ilegal de peças
Profissional faz aplicação da 'vacina' em um Mercedes — Foto: Reprodução/InstagramQuem teve carro nos anos 1990 e início dos anos 2000 provavelmente se lembra da gravação da placa nos vidros. Na época, a identificação era quase um requisito para contratar o seguro e se popularizou em meio ao avanço dos roubos e furtos de veículos, principalmente daqueles destinados ao desmanche. A lógica era simples: tornar as peças menos atrativas para o mercado ilegal.
Mais de duas décadas depois, o conceito ressurge com uma proposta mais abrangente. Conhecida como "vacina contra roubo", a tecnologia chega aos carros de passeio depois de fazer parte da rotina de caminhões, vans e máquinas desde 2001. Em vez de identificar apenas os vidros, o sistema grava permanentemente cerca de 100 componentes do veículo, incluindo peças mecânicas, estruturais e de acabamento.
Apesar do nome, a "vacina" não impede furtos nem roubos. Seu objetivo é dificultar a comercialização de componentes retirados de veículos desmontados, criando uma camada adicional de proteção para quem busca reduzir os riscos desse tipo de crime.
Vacina para carro marca mais de 100 peças e está disponível até para modelos eletrificados — Foto: Reprodução/InstagramDos vidros para praticamente todo o carro
Enquanto a gravação de vidros identificava apenas uma pequena parte do veículo, a nova tecnologia amplia esse conceito para praticamente todos os componentes mais visados pelo mercado ilegal.
Cada peça recebe como identificação a própria placa do automóvel. Nas partes metálicas, como motor, câmbio, escapamento, catalisador, suspensão, cárter e compressor do ar-condicionado, a gravação é feita por um equipamento pneumático semelhante ao utilizado pelas montadoras para marcar o número do chassi. Já em componentes da carroceria, plásticos, faróis e lanternas, a identificação é realizada por laser na parte interna das peças, preservando a aparência externa do veículo.
Segundo Solon Pereira, um dos fundadores da Vacina Contra Roubo, o desafio foi adaptar uma tecnologia consolidada nos veículos comerciais para um público muito mais sensível à estética:
"A tecnologia foi concebida originalmente para atender frotas de caminhões, vans e máquinas, onde a prioridade sempre foi a máxima identificação das peças, inclusive com marcações externas para aumentar o efeito dissuasório. Esse formato atendia muito bem o mercado corporativo, mas não correspondia às expectativas estéticas dos proprietários de carros de passeio."
Marcação das peças começou em caminhões, ônibus e máquinas agrícolas — Foto: Reprodução/InstagramA demanda dos próprios clientes impulsionou o desenvolvimento da nova versão:
"Nos últimos cinco anos, observamos um aumento significativo na procura de clientes que já conheciam a tecnologia através dos veículos comerciais e queriam aplicá-la em seus automóveis particulares. A partir dessa demanda, iniciamos o desenvolvimento de um novo processo e de novos equipamentos, incluindo tecnologia de gravação a laser, para criar um serviço mais discreto, sem abrir mão da identificação das peças."
Aplicação leva cerca de quatro horas
O procedimento é realizado mediante agendamento em uma unidade credenciada e leva, em média, quatro horas.
Aplicação da 'vacina' foi modernizada para atender carros de passeio, sem afetar a estética do modelo — Foto: Reprodução/InstagramPrimeiro, o veículo é colocado em um elevador para que sejam identificadas as peças localizadas na parte inferior. Em seguida, recebem gravação componentes da carroceria e do acabamento. Dependendo do modelo, a empresa afirma realizar cerca de 100 marcações em itens como capô, portas, para-lamas, para-choques, porta-malas, faróis, lanternas, módulo eletrônico, alternador, tanque de combustível e turbocompressor, entre outros.
"São realizadas aproximadamente 100 marcações, buscando identificar praticamente todas as peças de maior interesse para o mercado ilegal", explica Pereira. Ao final do processo, o veículo também recebe adesivos refletivos indicando que seus componentes foram identificados.
A tecnologia impede o roubo?
Não. Diferentemente de um rastreador ou bloqueador, a "vacina" não interfere no funcionamento do veículo nem impede a ação dos criminosos. O objetivo é aumentar a rastreabilidade das peças caso elas sejam retiradas do carro. Como cada componente recebe a própria placa do veículo, a origem pode ser consultada por meio de aplicativos oficiais de consulta veicular, permitindo verificar se aquele automóvel possui registro de roubo ou furto.
"Na prática, isso permite identificar rapidamente a origem de uma peça encontrada isoladamente durante fiscalizações, investigações ou operações policiais. A proposta da tecnologia é atuar de forma preventiva, aumentando o risco para quem pretende desmontar ou comercializar ilegalmente as peças e desestimulando a escolha daquele veículo", afirma o executivo.
Motocicletas também podem receber a "vacina" — Foto: Reprodução/FacebookTecnologia nasceu nos caminhões
Embora seja novidade entre os automóveis de passeio, a tecnologia é utilizada comercialmente desde 2001 em caminhões, vans e máquinas.
Segundo dados divulgados pela empresa, mais de 40 mil veículos comerciais já receberam o sistema de identificação permanente. Nesse universo, foram registrados 63 roubos, dos quais 45 terminaram com a recuperação do veículo. De acordo com a empresa, apenas 18 veículos identificados não foram recuperados.
Para Pereira, os resultados obtidos nesse segmento, aliados ao interesse dos consumidores, justificaram o investimento na nova versão.
"Esses indicadores demonstram que a tecnologia já estava consolidada no segmento de veículos comerciais. Somados à forte demanda dos próprios clientes por uma versão para carros de passeio, eles motivaram a empresa a investir cinco anos no desenvolvimento de um produto específico para esse mercado."
Hoje, o serviço pode ser aplicado em carros de passeio, SUVs, picapes, motocicletas, caminhões, máquinas agrícolas e de construção, além de veículos híbridos e elétricos. Nestes últimos, a empresa também identifica componentes do conjunto de baterias, considerado um dos itens de maior valor do veículo.
Quanto custa?
Os preços variam conforme a categoria do veículo. Hatches e sedãs pagam R$ 1.190. Para híbridos e elétricos, o valor é de R$ 1.360. SUVs custam R$ 1.460, enquanto modelos com tração 4x4 têm preço de R$ 1.790.
Atualmente, o atendimento é realizado mediante agendamento em unidades credenciadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e Alagoas. Segundo a empresa, a expectativa é expandir a operação para outras capitais brasileiras por meio de franquias ao longo do próximo ano.
Com informações do Auto Esporte

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