ELEIÇÕES: Ascensão de Cury já preocupa rivais na busca por furar a polarização


Candidato do Avante ao Planalto ganhou quase 2,5 milhões de seguidores em uma semana

Augusto Cury (Avante) no debate da Band — Foto: Maria Isabel/Agência O Globo

Com quase 2,5 milhões de novos seguidores nas redes sociais em uma semana, o presidenciável Augusto Cury (Avante) vive um boom atestado pelos números da arena virtual — o índice de popularidade digital (IPD) medido pela Quaest mostra que Cury saltou, em uma semana, de 37,8 para 54,5 pontos em uma escala que vai de 0 a 100. O movimento, na esteira de aparições na TV e do apoio de influenciadores como Pablo Marçal, tem levado adversários a questionar quão orgânica é a ascensão do psiquiatra nas plataformas e a colocar o candidato, até então ignorado, no alvo de críticas. Na prática, Cury acirrou a disputa para ver quem se sai melhor entre os postulantes que tentam espaço diante do cenário polarizado entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

O levantamento da Quaest, que considera resultados de sete plataformas digitais, mostra que, na semana passada, Cury passou da sétima para a quarta posição no ranking de popularidade digital, que considera aspectos como presença nas redes, reações positivas e negativas e engajamento. Agora, só fica atrás de Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT) e Renan Santos (Missão).

O crescimento é perceptível no alcance das publicações do candidato. Um corte da participação dele no debate da Band, publicado há seis dias, soma 21,2 milhões de visualizações e 1,3 milhão de curtidas no Instagram. Já o jingle da campanha alcançou 12 milhões de visualizações e 584 mil curtidas em quatro dias

Além de impulsionado pelas idas a debates e sabatinas, o movimento ganhou força com vídeos favoráveis à candidatura publicados por influenciadores e personalidades. Um dos nomes que mais tem se aproximado do escritor é Pablo Marçal. A relação entre os dois antecede a campanha: Cury já participou do “Marçal Talks”, programa comandado pelo ex-coach, que passou a elogiar o presidenciável.
Evolução do índice de popularidade digital da Quaest — Foto: Editoria de Arte


Aliados da campanha

Outras figuras de alcance superlativo nas redes que manifestaram apoio ao psiquiatra incluem o comentarista político Caio Coppolla, os cantores Nego do Borel e Manoel Gomes e os influenciadores Yuri Meirelles e Raphael Soares. Geralmente, os vídeos incluem menção a algum livro de Cury, seguida de uma análise do que motiva a declaração de voto nele.

Como mostrou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, campanhas adversárias levantam a possibilidade de robôs estarem inflando os números do escritor nas redes. A Quaest, no entanto, afirma que o IPD identifica e exclui esses perfis do cálculo.

Nos últimos dias, institutos que adotam entrevistas por telefone e pela internet como metodologia mostraram crescimento acentuado do escritor em intenções de voto. Há expectativa pela divulgação das pesquisas Quaest e Datafolha desta semana — que saem na quarta e na quinta-feira, respectivamente, e são presenciais. Os próximos levantamentos vão dimensionar o tamanho de Cury após o início da propaganda eleitoral e da entrevista à TV Globo, no sábado.

Nas últimas pesquisas desses institutos, a performance dele nas sondagens foi tímida: Cury marcou 2% tanto na Quaest quanto no Datafolha, atrás dos demais candidatos que tentam ser alternativas a Lula e Flávio.

— Nossa leitura é que as pesquisas da semana vão trazer o doutor Augusto em terceiro — afirma o ex-deputado federal Júlio Delgado (Avante), candidato a vice na chapa do psiquiatra. — Estamos consolidando essa posição de tentar encontrar um buraquinho na bolha da polarização.

Nos primeiros meses do ano, o psiquiatra procurou diversos partidos, entre eles alguns dos maiores do país, para tentar viabilizar a empreitada presidencial. Esteve com representantes do Republicanos, PSD, MDB, PSB, PSDB e Podemos, como mostrou a newsletter Jogo Político, do GLOBO. O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, chegou a testar internamente a possibilidade. Consultadas, no entanto, as lideranças do partido refutaram a filiação.


‘Ganha-ganha’ com sigla

No Avante, a chegada de Cury foi vista como um “ganha-ganha”. Se o escritor que contava com milhões de seguidores conseguiria ali uma legenda para disputar o Planalto, o partido ganharia um nome forte para impulsionar também a votação de deputados, prioridade número um na cabeça de dirigentes de partidos pequenos e médios.

É com base no desempenho para a Câmara que se alcança ou não a cláusula de barreira — que determina, na prática, se uma sigla consegue sobreviver nos quatro anos seguintes.

Hoje, com a tendência de crescimento do candidato, o partido se anima, mas também faz observações internas para tentar corrigir o que ainda considera lacunas de Cury. Uma delas é o “tom professoral”, que precisaria ser trocado por um linguajar mais palatável.

Exemplo bem-sucedido disso, segundo um aliado, foi a agenda que teve no sábado na favela da Rocinha, no Rio. O candidato, inclusive, tem como jingle uma adaptação do “Rap da felicidade”, clássico carioca cuja letra do refrão estampou na camiseta que usou durante a visita à favela: “Eu só quero é ser feliz”.

Entende-se na campanha que, com a aparição na TV — seja em entrevistas ou no horário eleitoral —, as pessoas passaram a associar o escritor Augusto Cury ao candidato Augusto Cury. Ele se orgulha de ser “o psiquiatra mais lido do mundo”, com mais de 40 milhões de livros vendidos em cerca de 70 países. A obra literária inclui livros de ficção, como “O vendedor de sonhos”, e outros com pegada de autoajuda, embora ele refute o rótulo.


De influencers a drones

As propostas de Cury, defendidas nas entrevistas recentes, viralizaram. Uma que despertou comentários irônicos nas redes foi a de contratar influenciadores para divulgar trabalhos como o do Itamaraty. Seria uma forma, disse, de ajudar a “vender o Brasil” ao mundo. Outra ideia criticada é a de usar drones no combate ao feminicídio, que virou meme.

— (O drone) se aciona na delegacia, ele sai da delegacia antes do policial e faz uma sirene de alerta. E isso pode evitar que o predador, que age rapidamente, possa matá-la ou agredi-la — explicou o presidenciável na TV Globo.

Um dos principais aliados do candidato Renan Santos, o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP) foi um dos que pegaram carona na proposta para criticar Cury. “Eu nunca vi nem a Dilma (Rousseff) falar tantas bobagens quanto este senhor. O Brasil não aguenta mais tanta picaretagem”, escreveu em publicação no Instagram.

O próprio Renan, instado a avaliar o crescimento de Cury durante sabatina do jornal O Estado de S. Paulo, tentou minimizar o movimento.

— Há um momento de forte despolitização no Brasil. É a eleição mais desengajada que eu vi desde 2010. Para as pessoas que estão cansadas da hiperpolitização nos últimos anos, talvez (Cury) seja um produto que faça sentido momentaneamente — alegou o presidenciável, que também classificou como “inorgânica” a subida do candidato do Avante nas redes.

O político do Missão vinha despontando como o “outsider” desta eleição, figurino que Romeu Zema (Novo) tentou incorporar. Cury, que nunca teve envolvimento com a política, disputa esse espaço.

Quem também comentou o momento de Cury, mas em tom mais ameno, foi o presidenciável do PSD, Ronaldo Caiado.

— Isso mostra que a população brasileira não quer mais nem Lula e nem Flávio. A população brasileira começou a se movimentar agora para buscar um candidato do segundo pelotão — disse em entrevista à Jovem Pan.

Na sabatina O GLOBO, CBN e Valor, na semana passada, o psiquiatra se valeu em muitos momentos de discursos mais genéricos, como na hora de falar de economia. Em linhas gerais, apresentou mais críticas a Lula do que a Flávio Bolsonaro, tanto que disse preferir enfrentar o petista num eventual segundo turno.


Fonte: O Globo




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