Amy (nome fictício) contou à BBC que seus amigos e familiares encaminharam à polícia escocesa evidências que foram fundamentais para a prisão do estuprador em série Christopher Malcolm.
Christopher Malcolm, à direita, abusou física e psicologicamente da sua ex-noiva, que contou sua história à BBC de forma anônimaCrédito: BBCImportante: esta reportagem inclui detalhes e descrições de violência, que podem ser perturbadores para alguns leitores.
Amy conta que, sem as intervenções da sua família e seus amigos, ela teria se casado com o homem que havia abusado dela física e psicologicamente por grande parte do seu relacionamento.
Ela receia que, se o casamento tivesse acontecido, ela teria sido eventualmente morta pelo marido.
Christopher Malcolm é um estuprador em série que foi recentemente preso pelos seus crimes. Ele infligiu sérias lesões à sua antiga noiva.
Em uma das ocasiões, ele afirmou que deixaria o rosto dela "coberto de hematomas", pouco antes dela visitar seu pai, portador de doença terminal, no Dia dos Pais.
Amy (nome fictício) contou à BBC que permanecia no relacionamento, muitas vezes, como forma de acalmar a violência e sobreviver. Ela conta que, enquanto Malcolm estava em liberdade, ela não sentia segurança suficiente para denunciá-lo à polícia.
Mas seus entes queridos passaram a ficar cada vez mais preocupados.
Eles levaram várias vezes suas preocupações com o bem-estar de Amy para o sistema de denúncias de violência doméstica da polícia escocesa, encaminhando evidências como mensagens de texto e fotos dos seus ferimentos.
Estes relatos ajudaram os policiais a formar um corpo de evidências bastante forte e levar Malcolm em custódia, em setembro de 2024. Pouco depois, Amy denunciou por completo os estupros, abusos e agressões que havia sofrido.
Seu casamento com Malcolm estava marcado para dali a quatro semanas.

Amy tinha casamento marcado com Christopher Malcolm, mas ele foi preso quatro semanas antesCrédito: BBC
Amy conheceu Malcolm no aplicativo de encontros Tinder, perto do final de agosto de 2023.
Eles foram a uma cafeteria e, depois, saíram para caminhar (ele não bebia). Ela se lembra do seu comportamento "amável e engraçado", mas o relacionamento progrediu com muito mais rapidez do que ela esperava.
Na primeira semana, ela havia conhecido os pais dele. Eles foram morar juntos em questão de meses e ficaram noivos no Natal.
"Quando éramos felizes, era como se ele fosse meu melhor amigo", ela conta.
"Mais para o final, ele conseguia completar minhas frases. Ele sabia o que eu estava pensando. Era bom, mas, ao mesmo tempo, assustador."
Malcolm começou rapidamente a controlar a vida de Amy. Ela conta que ele insistia para que ela apagasse suas redes sociais e seu relacionamento ficasse "apenas entre os dois".
Amy afirma que não podia receber ligações telefônicas da sua família na residência do casal porque o noivo "não gostava do sotaque deles". Ele escondia seu celular ou o retirava fisicamente dela.
Ela conta que, por diversas vezes, Malcolm apareceu no trabalho dela, exigindo que ela saísse mais cedo, ameaçando fazer uma cena. E Amy sabia que, se não obedecesse, teria uma "noite terrível" quando chegasse em casa.
"Aquilo me perturbava muito", segundo Amy.
"Era um setor em que trabalhei muito para entrar e eu absolutamente adorava minha profissão. Eu sentia que estava perdendo uma parte de mim mesma ao me afastar daquela parte do trabalho."
"Comecei a sentir que meus funcionários não me respeitavam mais, pois eu estava permitindo que alguém me dissesse quando eu deveria sair do trabalho", prossegue Amy. "Eu não sabia que eles tinham consciência do que estava acontecendo."
Três dias em 'modo de ataque'
A violência também passou a fazer parte do relacionamento. A princípio, era algo ocasional, mas Amy conta que a frequência dos episódios aumentou para cada duas semanas.
Ela descreveu um incidente em que Malcolm ficou em "modo de ataque" por três dias. Ele rasgou o sofá da sala com uma faca e ameaçou cometer suicídio.
Amy também descreveu ocasiões em que Malcolm se sentava sobre o seu peito e a estrangulava. Ela conta que ele a insultava durante esses ataques e a ameaçava com mais violência.
Ele a deixou permanentemente machucada e desfigurada.
Durante um ataque, Malcolm fraturou o pulso dela e a impediu de ir ao hospital. Com isso, agora, ela não consegue mais segurar livros com apenas uma das mãos.
Amy conta que isso aconteceu durante uma discussão em que ele gritou: "As mulheres estão sempre tentando controlar a minha vida".
Ele a estuprou mais de uma vez. Em uma ocasião, havia uma criança na residência. Amy foi forçada a se sentar no chão em frente à criança e pedir desculpas por qualquer susto que ela tivesse causado.
Christopher Malcolm foi preso em julho pelos seus crimesCrédito: Polícia da EscóciaEla descreve que, algumas vezes, era como se uma "chave" tivesse mudado a personalidade de Malcolm. Em outras, ele a informava sobre o que estava por acontecer.
"Ele tocava heavy metal logo às seis horas da manhã, nos dias em que iria se comportar mal", ela conta.
"Eu dizia a ele o quanto aquilo me perturbava. Ele sabia que era um método de tortura: 'Prepare-se para o que irá acontecer hoje'."
Amy tentava raciocinar com Malcolm após os ataques, dizendo que ela não merecia ser tratada daquela forma. Ele direcionava a conversa para suas próprias dificuldades, o que a deixava com a sensação de que ela "não fazia nada certo".
"Você começa a se sentir anestesiada porque percebe que não há nada que possa fazer", ela conta.
"Você simplesmente se sente meio aprisionada, pois sabe que, se contar para alguém, eles dirão apenas para você sair, mas, estando naquela situação, você sente que não pode ir embora."
O apoio da família e dos amigos
Um dos pontos que evitaram que Amy ficasse totalmente isolada foi a forma como seus amigos e familiares conversaram com ela sobre seus receios, "de forma direta, mas não enérgica".
Eles deixaram claro que a amavam e queriam que ela ficasse em segurança. Eles também disseram claramente que, para eles, Malcolm não era um homem bom, mas que ela própria era quem deveria tomar qualquer decisão.
Sua irmã escreveu uma carta para ela, explicando por que ela não poderia comparecer ao seu casamento. Ela descreveu "pesadelos terríveis" e o receio de que nunca mais iria vê-la.
"Fique sabendo o seguinte: se você, no último minuto, decidir não se casar, entre no carro e saia dirigindo. Venha me procurar, se precisar. Minha porta estará sempre aberta para você", diz a irmã de Amy, na carta.
'Sempre tentarei fazer o que for melhor para você e protegê-la o melhor que puder', diz a carta da irmã de AmyCrédito: BBCSem o conhecimento de Amy, quatro pessoas denunciaram separadamente seus temores para a polícia.
Malcolm foi preso e libertado sob fiança após a primeira denúncia. Mas as evidências continuaram se acumulando e os policiais pediram a Amy que prestasse depoimento.
"Eles foram muito diretos comigo", ela conta. "Eles disseram: 'Se você não prestar depoimento, iremos encontrar você em uma vala ao lado da estrada'."
"Lembro que aquilo realmente me atingiu com muita força porque nunca alguém havia me dito algo com tanta franqueza. Eu sabia muito bem que aquela seria uma possibilidade em algum momento, se eu continuasse."
Agora com 30 anos, Amy procurou a BBC para contar sua história. Ela acredita que sua família, seus amigos e os policiais envolvidos no seu caso acabaram salvando sua vida.
No seu caso, o sistema funcionou, segundo ela.
A polícia escocesa afirma que, em casos em que um sobrevivente de abuso reluta em apresentar denúncias, os policiais procuram toda uma série de evidências que não dependam do sobrevivente.
Elas incluem câmeras corporais, análises de telefones, fotografias das lesões, evidências médicas e históricos de incidentes anteriores ou evidências de parceiros do passado. Estas provas podem permitir a instauração de processos, se houver chance real de condenação.
Um porta-voz da polícia escocesa afirmou que as informações fornecidas pela família e pelos amigos de Amy foram "fundamentais" para traçar um quadro dos abusos de Malcolm.
Após um julgamento envolvendo 56 testemunhas, Malcolm, de 37 anos, foi condenado por crimes em duas regiões da Escócia contra quatro mulheres, incluindo Amy. Os casos começaram em 2008, quando ele ainda era adolescente.
Recentemente, ele entrou com recurso contra sua sentença de 16 anos de prisão.

Amy acredita que o recurso de Malcolm deveria ser rejeitadoCrédito: BBC
Amy acredita que a misoginia que tomou conta de Malcolm há tanto tempo demonstra que ele nunca irá se reabilitar. Ela acha que seu recurso deveria ser rejeitado
Ao ler as notícias sobre os recentes assassinatos de mulheres pelos seus parceiros, Amy fica preocupada com a sua segurança no futuro, principalmente porque Malcolm poderá vir a ser colocado em liberdade mais cedo, em vista das recentes propostas do governo escocês.
Estas propostas foram criticadas pelos juízes mais importantes da Escócia. Eles alertaram que libertar criminosos violentos e estupradores nas comunidades colocaria a segurança pública em risco.
Proteger as mulheres da violência parece ocupar lugar importante na agenda do primeiro-ministro escocês, John Swinney. Ele promete criminalizar a misoginia e financiar serviços de apoio específicos ao longo da sua legislatura.
Mas seus críticos, como a organização Rape Crisis Scotland, afirmam que é necessário haver "compromissos e cronogramas claros".
No momento, Amy está determinada a aproveitar a vida.
Ela recebeu o apoio de diversas organizações, passou por terapia, comprou um novo carro e uma casa e está pronta para formar família.
Com dedicação, ela conta que conseguiu se livrar do ressentimento sobre como foi tratada e permanece imensamente grata às pessoas que se mantiveram do seu lado.
"Acho que é muito importante que a família e os amigos saibam que você se sentirá empoderada se sair em defesa de alguém com quem se preocupe", ela conta.
"Meus amigos e minha família ficaram totalmente petrificados, achando que eu iria odiá-los, que nunca mais manteria relações com eles. Tudo o que senti foi alívio e gratidão pela sua coragem."
"Eu não sabia que tantas pessoas se importavam. Fiquei muito agradecida."
Onde buscar ajuda
Caso você tenha passado ou conheça alguém que tenha sofrido ou esteja sofrendo violência sexual:
Ligue 180
O canal recebe denúncias de violações contra as mulheres; orienta mulheres em situação de violência, direcionando-as para os serviços especializados da rede de atendimento e informa sobre os direitos da mulher e a legislação vigente sobre o tema.
O número funciona diariamente durante 24h, incluindo sábados, domingos e feriados. A ligação é gratuita e anônima.
Outros locais onde procurar ajuda:
- Centros de Referência de Atendimento à Mulher nos Estados
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs)
- Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs)
- Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
- Promotorias Especializadas/Núcleos de Gênero do Ministério Público
- Núcleos Especializados no Acolhimento e Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência das Defensorias Públicas
- Patrulhas/Rondas Maria da Penha
- Casas-Abrigo e as Casas da Mulher Brasileira
Com informações da BBC News Brasil

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