Na ONU, Lula defende soberania e diz que Brasil 'não cabe no quintal de ninguém'


Ao discursar na 81ª Assembleia Geral da ONU, petista rebateu pressões internacionais, defendeu que a democracia pertence aos brasileiros e rejeitou qualquer papel de subordinação.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas na sede da ONU em Nova York, em 22 de setembro de 2026 — Foto: TIMOTHY A. CLARY/AFP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a defender nesta terça-feira (22) a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos, no discurso de abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da ONU.

"Esta Assembleia [...] agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação", afirmou Lula.

Segundo Lula, "a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável", mas "o Brasil não cabe no quintal de ninguém" e precisa de parceiros com agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.

"Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para maior integração entre vizinhos. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", prosseguiu o presidente (leia mais abaixo).

"Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano".

A fala de Lula ocorre em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. As relações entre os dois países estão atravessadas pelo cenário eleitoral, em meio à reta final da eleição presidencial brasileira, marcada para 4 de outubro.

Lula disputa a Presidência da República com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, em maio, foi recebido pelo presidente norte-americano, Donald Trump, na Casa Branca durante uma viagem aos Estados Unidos.


Interferência externa e tarifas

Lula e integrantes do governo têm demonstrado preocupação com uma eventual interferência externa no processo eleitoral, especialmente por parte dos Estados Unidos, e defendido que a escolha do próximo presidente cabe exclusivamente aos brasileiros.

O governo de Donald Trump também impôs tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, medida contestada pelo governo Lula e também criticada pelo petista durante o seu discurso.

"A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas. Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações", declarou o presidente.

A Assembleia Geral é o principal órgão deliberativo das Nações Unidas e reúne representantes dos 193 stados-membros.

Durante o debate geral, chefes de Estado e de governo apresentam as posições e prioridades diante dos principais temas internacionais.

O Brasil, por tradição, abre os discursos do debate geral. A tradição é mantida desde 1955 e, neste ano, Lula foi seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


Veja outros temas abordados por Lula no discurso:
  • Combate ao crime organizado: "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", afirmou Lula.
  • Inteligência artificial e redes digitais: Lula criticou "tecno-oligarcas" que promovem uma corrida digital "sem freios éticos à revelia da ONU" e defendeu a regulamentação das plataformas.
  • Defesa do PIX: "Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX", declarou o presidente.
  • Tarifas e comércio internacional: afirmou que a Organização Mundial do Comércio (OMC) "respira por aparelhos" e criticou governos que capitulam diante dos que usam tarifas como "armas de coerção e chantagem".
  • Defesa do multilateralismo e paz: cobrou reformas no Conselho de Segurança da ONU e defendeu a via diplomática para os conflitos globais.

Meio ambiente

Na área ambiental, Lula afirmou que o Brasil tem condições de conciliar desenvolvimento econômico, redução de emissões e preservação.

O presidente destacou a queda do desmatamento na Amazônia — que atingiu o menor nível em 11 anos —, disse que o país é referência em energia limpa e reafirmou que “a floresta vale mais em pé do que destruída”.

Ao mesmo tempo, afirmou que o governo seguirá buscando explorar recursos naturais, como os da Margem Equatorial e as terras raras necessárias à transição energética, sem abandonar a agenda ambiental e o processo de descarbonização.

"Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais", concluiu Lula.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU, em Nova York, EUA, em 22 de setembro de 2026 — Foto: Brendan McDermid/Reuters

Com informações do G1




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