Inclusão de pessoas com deficiência, inteligência artificial e apagão de professores estão entre as apostas; especialistas dão dicas de repertório sociocultural para cada tema sugerido
Redação do Enem: veja dicas de repertório a partir dos temas propostos por professores — Foto: Gabriel de PaivaTradicionalmente centrada em problemas sociais de impacto e possíveis caminhos para solucioná-los, a prova de Redação do Enem está chegando e requer atenção nestas últimas semanas. As principais orientações dos professores para os candidatos, a esta altura, são:
- Acompanhar o noticiário
- Ficar atento aos assuntos que mobilizaram o debate público nos últimos anos
- Manter no radar novas leis criadas a partir de demandas da população
- Fazer um apanhado das edições mais recentes da prova (veja os dez últimos temas de Redação do Enem ao final desta reportagem)
10 apostas de temas, elencadas por professores
1. Desafios para a inclusão de pessoas neurodivergentes e com deficiência no Brasil
É o grupo vulnerável que não figurou entre os temas recentes do exame, lembra Nathan Sena, professor e coordenador de Linguagens do Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia Plataforma de Ensino. Conecta-se diretamente a inclusão escolar, mercado de trabalho e saúde mental.
Para se preparar, o candidato deve estudar a Lei Brasileira de Inclusão, de 2015. É recomendável usar como repertório dados sobre o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, e falar sobre acessibilidade arquitetônica, formação de professores e capacitismo.
Vale lembrar que estão em debate o aumento de diagnósticos de TEA no país e a carência de mediadores nas escolas.
2. O enfrentamento do racismo ambiental no Brasil
Traz questões ligadas a meio-ambiente e desigualdade racial e territorial, interseção que o Enem historicamente faz: um grupo vulnerabilizado, um problema estrutural e soluções baseadas nos direitos humanos, explica o professor Nathan Sena.
O candidato precisa dominar o conceito de racismo ambiental, ou seja, o fato de populações de periferias, indígenas e ribeirinhas serem mais atingidos por enchentes, deslizamentos de terra e pela falta de saneamento básico. Convém lembrar os recentes desastres climáticos no Brasil, e usar dados do IBGE sobre cobertura de esgotamento sanitário e coleta de lixo em áreas periféricas.
3. A importância da valorização da produção cultural brasileira ante a hegemonia estrangeira
A questão cultural não tem estado tão presente na redação do Enem, e pode ser relacionada à da soberania nacional, pauta que tem ganhado grande apelo público.
De acordo com o professor Nathan Sena, o candidato pode falar sobre as cotas de conteúdo nacional em plataformas de streaming, a Lei do Audiovisual e outros mecanismos de incentivo, além do projeto de streaming público brasileiro, que reúne acervos do Iphan e da Funarte. Cabe mencionar o sucesso dos filmes “Ainda estou aqui” e “O agente secreto” em premiações internacionais e nas bilheterias.
4. Os limites éticos da Inteligência Artificial no mercado de trabalho brasileiro
É um tema ainda inédito no Enem e com forte repercussão, por envolver automação, desemprego e desigualdade de acesso à qualificação tecnológica.
Como se preparar, de acordo com Nathan Sena, professor do Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia Plataforma de Ensino: conferir o conteúdo do Projeto de Lei 2338/2023, que é o Marco Regulatório da IA no Brasil e pesquisar sobre a desigualdade de acesso a cursos de requalificação profissional.
Duas sugestões: evitar adotar um tom apocalíptico (o que vale para qualquer tema da redação), e focar em uma proposta de intervenção realista, incluindo capacitação, fiscalização e transição justa para o trabalhador.
5. Entraves para a cidadania territorial no Brasil: o isolamento geográfico e digital de comunidades vulneráveis
É um tema que apresenta um problema social relevante, de impacto nacional. Segundo Fernanda Andrade, professora de Redação da Escola SAP, o aluno pode falar sobre as desigualdades entre as regiões, citar a Constituição Federal e obras literárias clássicas.
Entre essas obras, estão as que retratam a pobreza extrema decorrente da seca, como “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, que ilustra como o isolamento geográfico e a falta de recursos básicos destroem as perspectivas de futuro de famílias sertanejas. Na contemporaneidade, esse “deserto de conhecimento” se traduz na falta de inclusão digital.
6. Impactos do uso indiscriminado das tecnologias digitais por crianças
A prova já tratou desse assunto, que segue em alta, explica Fernanda Andrade, professora de Redação. O candidato pode mencionar a Lei 15.100, de janeiro de 2025, que baniu celulares das escolas brasileiras em toda a educação básica. Outra sugestão é citar a Teoria do Desenvolvimento Cognitivo de Jean Piaget, que demonstra que a infância exige experiências sensoriais e motoras e interações sociais diretas com o meio físico para a construção do pensamento abstrato e da empatia.
O uso indiscriminado da tecnologia pode ser criticado por limitar essas vivências concretas, confinando o desenvolvimento às telas. Há ainda o risco de crimes virtuais que vitimam as crianças.
7. O papel da escola na promoção da empatia e na prevenção da violência no ambiente de ensino
Violência sexual, agressões entre alunos, ataques a professores, bullying e outras situações semelhantes vivenciadas no ambiente escolar vêm aparecendo no noticiário com cada vez mais frequência; muitas vezes, por conta de vídeos viralizados nas redes sociais.
O candidato pode discorrer sobre casos como estes e se valer também da Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, que defende a educação como uma prática de libertação e conscientização. A obra ajuda a compreender que a escola é um espaço de mediação de conflitos e humanização, em que a empatia deve ser cultivada.
8. Estratégias para o enfrentamento do apagão de professores no Brasil
O debate sobre a escassez de trabalhadores da educação no país está quente. O envelhecimento dos quadros e a drástica queda na busca por licenciaturas acenderam o alerta do Ministério da Educação. É um cenário que ameaça o desenvolvimento do Brasil. O tema é visto como uma forte possibilidade por Letícia Lima, professora de Redação e Linguagens da plataforma AMentoria:
O candidato deve citar as pesquisas que mostram que a categoria tem alto grau de estresse e que a maioria já sofreu algum tipo de agressão na escola. Pode mencionar também o alto índice de desistência da profissão, pelos salários defasados.
Vale reforçar a necessidade de os governos ampliarem as políticas de atração e retenção de professores e de reajustarem o piso salarial.
9. Desafios para o combate à automedicação com finalidades estéticas
O uso indiscriminado de canetas emagrecedoras, mesmo por quem não tem indicação médica para utilizá-las, é um dos assuntos do momento. O abuso de esteroides também.
Segundo a professora Letícia Lima, vale citar os casos de morte por suposto excesso de anabolizantes, como a do fisiculturista Gabriel Ganley, em maio, e ainda apontar a falta de fiscalização sanitária.
O candidato pode explicar ainda que o consumo é impulsionado por algoritmos e pela cultura do imediatismo, que acabaram levando à normalização de medicamentos injetáveis para perda de peso e de anabolizantes, como se fossem cosméticos de farmácia. E não esquecer de analisar a busca de um padrão de beleza inalcançável, impulsionada pelas redes, e do risco de dismorfia corporal, transtorno psicológico em que a pessoa enxerga sua aparência física de forma distorcida.
10. Doenças reemergentes e o papel da vacinação na saúde coletiva no Brasil
Escancarados desde a pandemia da Covid-19, as notícias falsas sobre as vacinas e o enfraquecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) podem estar na redação do Enem porque afetam diretamente a saúde da população e demandam uma resposta imediata do Estado e da sociedade civil, explica Letícia Lima.
A queda nas coberturas vacinais e a volta de doenças que já estavam erradicadas ou controladas, como o sarampo e a coqueluche, são pontos a serem incluídos no texto, assim como a visão da vacinação como pacto coletivo de saúde. Vale relembrar a Revolta da Vacina, de 1904, e a importância do PNI, criado há mais de 40 anos.
Fonte: O Globo

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