Tecnologia que permite selecionar o sexo do animal fez aumentar proporção de fêmeas, mas nascimentos de machos continuam a existir
Propriedade do interior de São Paulo enxergou uma nova oportunidade para negociar animais — Foto: Gabriel Reis/ValorSe o leite vem das vacas, o que as fazendas fazem com os bezerros que nascem machos? Talvez em algum momento você já tenha se feito essa pergunta. Afinal, antes da popularização do sêmen sexado (tecnologia que permite ao pecuarista escolher o sexo da cria), a proporção de nascimentos era praticamente de 50% machos e 50% fêmeas. A resposta a esse questionamento, porém, se modificou ao longo das últimas décadas.
Um exemplo de como o segmento encara essa questão pode ser observado na maior produtora de leite do país, a Fazenda São José, de Tapiratiba (SP). É lá que está localizada a sede da marca Fazenda Bela Vista, com grande presença no mercado de lácteos do Estado de São Paulo. O empreendimento conta com 2.750 vacas em lactação, que produzem cerca de 120 mil litros por dia - número que garantiu à fazenda o primeiro lugar no ranking da Abraleite/MilkPoint em 2026.
Assim como a maior parte das grandes propriedades produtoras de leite, o percentual de bezerros machos diminuiu na Fazenda São José nas últimas décadas, graças ao avanço na área da genética animal. As novilhas são inseminadas 100% com sêmen sexado, porém nas multíparas (que já tiveram duas ou mais crias) é utilizado o sêmen convencional. Hoje, do total de nascimentos, 72% são de fêmeas. Antigamente, eram 50% fêmeas e 50% machos.
O que acontece com os bezerros machos?
Com o aumento da proporção de fêmeas nos nascimentos, a propriedade passou a destinar os machos para a produção de gado de corte cuja carne é direcionada à exportação. Hoje, esses animais são vendidos a frigoríficos da região como “boi China”.
Para aproveitar os machos que ainda nascem, a propriedade adaptou antigas instalações destinadas à criação de fêmeas e passou a utilizar as sobras da alimentação das vacas na engorda dos animais. A iniciativa deu origem a uma nova frente de negócios.
“São animais abatidos em torno de 18 meses de idade, superprecoces. Virou um outro business”, diz Sérgio Ferraz Ribeiro Filho, diretor-geral da empresa.
Coordenador do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo (UPF), o professor Carlos Bondan ressalta que, até um tempo atrás, esses animais eram descartados ou então direcionados para produção de vitelo, como é chamada a carne de bezerros jovens.
Isso porque os machos nascidos de vacas leiteiras eram normalmente vistos como animais de alto custo para chegarem à idade adulta, de modo que o preço obtido com a venda não compensava o negócio.
"Mas as coisas vêm mudando, e acredito que o motivo disso esteja relacionado com uma falta de carne bovina no mercado internacional", analisa Bondan.
Gado de leite ou de corte?
A comercialização de gado leiteiro direcionado à exportação de carne tem sido cada vez mais comum na pecuária. Segundo o zootecnista Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria, a raça do animal não é um fator determinante para atender ao mercado chinês.
“No final, tudo é carne. A única exigência que a China faz com relação a essa carne é que o boi abatido, independentemente de ele ser holandês, girolando, senepol ou angus, tenha um padrão com até 30 meses”, afirma.
Antigamente, quando esses animais eram destinados ao abate, não havia uma bonificação como ocorre com o “boi China”. Esse animal destinado a atender ao mercado chinês tem valor de mercado levemente acima do gado comum — cerca de R$ 2 a R$ 3 por arroba, segundo Fabbri.
“É um aspecto produtivo que traz renda para a propriedade e também acaba agregando valor ao sistema operacional dele”, avalia o especialista.
Com informações do O Globo Rural

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