Últimas

Empresas querem contratar mais mulheres para reduzir desigualdade no trabalho

Empresas investem em valorização da mão de obra feminina nos cargos de gestão

O Dia Internacional da Mulher é a data que marca a celebração de conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Essa luta por melhores condições de vida e trabalho começou a partir do final do século XIX, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, e permanece até os dias hoje, em especial no mercado de trabalho.

É fato que elas conquistaram muito espaço, se posicionaram, mas ainda há uma clara desigualdade em relação ao homem. A pandemia do coronavírus deixou às claras esse abismo social no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em todo o Brasil, 8,5 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho no último trimestre de 2020.

O mesmo levantamento aponta que mais da metade das mulheres acima de 14 anos estavam fora do mercado de trabalho no mesmo período. A pesquisa não distingue os números por Estado, mas o levantamento nacional já mostra a dimensão da desigualdade. Os números podem ser conferidos na íntegra no site do IBGE.

Algumas companhias, porém, lideram iniciativas de inclusão. Um exemplo é a Suzano, maior produtora global de celulose de eucalipto, com sede em Aracruz, no Norte do Espírito Santo. A empresa aderiu a uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) que prevê a inclusão de mais mulheres no quadro de funcionários.

"A meta é contar com 30% de colaboradores mulheres e negros em cargos de liderança até 2025. A empresa tem alterado alguns critérios e flexibilizado certas exigências para promovermos essa inclusão", afirma a consultora de gente e gestão da Suzano, Elaine Maria Dias.

Para Elaine, a diversidade de colaboradores em uma empresa aumenta a produtividade e traz ganhos para todos os lados: empregado e empregador. Ela, que está há dez anos na área de recrutamento e recursos humanos aposta em qualificação profissional após o colaborador já ter sido contratado.

"Antes para alguns cargos, nós exigíamos inglês fluente e a empresa tinha dificuldade em encontrar este candidato. Então pensamos, por que não a própria empresa possa capacitar esse colaborar após ele ter entrado na empresa? Isso é o que estamos fazendo e o resultado vem se mostrando bastante satisfatório para todos os lados", completa.

Milena Bieniek Lemos se formou há pouco tempo em engenharia química. De família baiana que mora há pouco mais de um ano no Espírito Santo, a trainee conquistou espaço em uma área em que os homens são maioria. Mas nada a intimidou.

"Quando eu entrei na faculdade e eu percebi que em algumas engenharias tem uma maior presença de homens, mas na engenharia química eu fiquei surpresa com o número de mulheres na minha sala. Eu acho que isso é devido à mudança de cultura e a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Ainda há muito o que melhorar, mas o start foi dado e é percebível um movimento de mudança", conta.
Já Bárbara Regina da Silva Machado trabalha como supervisora de manutenção há mais de 20 anos. Mesmo com toda experiência, para chegar até o cargo que exerce, teve que passar por um caminho mais tortuoso, só por ser mulher. Mas tirou de letra.

"A área em que trabalho, historicamente, sempre foi dominada por homens. De uns anos pra cá, a presença feminina tem se intensificado. Quando você chega em um ambiente masculino e as pessoas não te conhecem, elas olham com desconfiança, mas com o tempo eu fui quebrando isso, e no final deu tudo certo", diz.

Empresas que atuam em outras áreas também estão investindo na mão de obra feminina. Uma consultoria em recursos humanos, sediada em Vitória, é toda formada por mulheres. Elas são o contato da empresa com os clientes, com foco em relacionamento e comunicação.

"A nossa linguagem é a mesma. Eu acho que a gente consegue se expressar de uma forma que nos entendemos. O fato de uma entender a outra é algo que melhora muito o ambiente de trabalho", conta a profissional de marketing da Kato Consultoria, Amanda Fraga Marcarini.

Afazeres domésticos e filhos pequenos. Esses são os principais fatores que impedem que as mulheres não ocupem mais cargos de trabalho. As informações são do estudo "Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil" realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgado na última quinta-feira (4).

Na faixa etária entre 25 e 49 anos, a presença de crianças com até 3 anos de idade vivendo no domicílio se mostra como fator relevante. O nível de ocupação entre as mulheres que têm filhos dessa idade é de 54,6%, abaixo dos 67,2% daquelas que não têm. A situação é exatamente oposta entre os homens. Aqueles que vivem com crianças até três anos registraram nível de ocupação de 89,2%, superior aos 83,4% dos que não têm filhos nessa idade.

O levantamento apurou ainda o impacto dos afazeres domésticos. A pesquisa mostra que a conciliação da dupla jornada fez com que, em 2019, cerca de um terço delas trabalhasse em tempo parcial, isto é, até 30 horas semanais. Esse tipo de situação se verificou em apenas 15,6% entre os homens empregados.

"Quando falamos da mulher no mercado de trabalho, nós precisamos reconhecer que a mulher ainda continua ocupando papéis múltiplos. Além do trabalho do dia a dia, precisa cuidar da família e gerenciar a casa. Isso traz um desgaste emocional muito grande e faz com que a mulher precise fazer um esforço ainda maior", conta a especialista em gestão de pessoas, Roberta Kato.

A diferença de salários e rendimentos também foi apurada no levantamento. Em 2019, as mulheres receberam, em média, 77,7% do salário dos homens.

A desigualdade atinge proporções maiores nas funções e nos cargos que asseguram os maiores ganhos. Entre diretores e gerentes, as mulheres receberam 61,9% do rendimento dos homens.

"O Brasil, infelizmente ainda é um país machista, e isso se reflete no comportamento das mulheres. Na questão dos salários, as mulheres se sentem um pouco menos compelidas a negociar e se posicionar. Elas esperam o reconhecimento enquanto os homens veem com mais naturalidade pedir esse reconhecimento. É algo cultural", completa Roberta.


Como criar um ambiente inclusivo?

Para promover a igualdade, não basta apenas contratar mulheres e tornar o quadro de trabalho da empresa com mais colaboradoras, apenas. É preciso criar um ambiente inclusivo para que as mulheres possam desenvolver a melhor produtividade. O argumento é da especialistas em gestão de pessoas, Roberta Kato.

Veja os principais pontos para criar um ambiente de trabalho inclusivo:

1 ) Não é quantidade, é qualidade: nenhum colaborador pode ser apenas um número para a empresa. Não basta apenas contratar mulheres para se atingir uma meta, mas todo o ambiente deve ser preparado para recebê-las. Só assim elas se sentirão acolhidas e aumentarão a produtividade;

2) Não espere que ela faça o mesmo que o homem: as mulheres possuem inúmeros papéis para além da profissão. Ainda é muito grande a carga de responsabilidade delas com tarefas domésticas e com os filhos. Por isso, é natural que elas precisem durante o dia ter pausas para resolver essas questões. Não receber essas pequenas paradas com bons olhos não é acolhedor;

3) Análise do espaço de trabalho: os gestores devem ficar atentos a algumas provocações, como 'o que está sendo feito para incluir as mulheres?', 'como estamos tratando a naturalização do espaço feminino no ambiente de trabalho?'.
“Não é criar a igualdade, porque sabemos a especificidades de cada um desses perfis, masculino e feminino. Mas o que buscamos é a equidade, olhar para os dois e dar as mesmas responsabilidades e cuidados, mas entendendo que há particularidades do mundo feminino. Só assim elas se sentirão em casa no trabalho”, completa Roberta.


Com informações da Agência Brasil e Estadão Conteúdo