Últimas

ECMO: entenda a terapia que está sendo feita em Paulo Gustavo e como é aplicada no ES


Internado desde o dia 13 de março por complicações da Covid-19, o ator e comediante Paulo Gustavo, precisou ser submetido a uma terapia que vem gerando dúvidas e curiosidades em todos os brasileiros. A Oxigenação por Membrana Extracorpórea, conhecida como ECMO, pode ser usada em pessoas de todas as idades e, por meio dela, é possível substituir a atividade do pulmão.

O médico intensivista Assad Sassine explica que a ECMO se trata de uma terapia de suporte, ou seja, não é um tratamento, mas uma forma de garantir sobrevida ao paciente.

“Ela não trata nada, apenas dá suporte, substituindo um órgão para que o organismo se recupere com o tratamento, que é realizado com antibióticos, corticoides ou outros medicamentos”, explicou.

O grande objetivo da técnica usada em tratamentos da covid-19, segundo os especialistas, é preservar ao máximo o pulmão. O sangue do paciente é retirado dele por meio de tubos, passando por um sistema que se assemelha a um filtro. Esse sistema elimina o gás carbônico e, em seguida, o sangue é oxigenado, fazendo o que seria a função do pulmão. Se o sangue chega ao pulmão com menos gás carbônico e mais oxigênio, automaticamente, o órgão precisa “trabalhar menos”. Em seguida, o sangue volta para o paciente.

“Desse modo excluímos a necessidade de uma ventilação mecânica grande, que pode agredir ainda mais o pulmão. Mas essa não é uma técnica que pode ser usada para todos”, explicou o intensivista Gabriel Rangel.

Na ventilação mecânica, a máquina se conecta ao pulmão do paciente e o ajuda a respirar. Na ECMO, ela substitui o pulmão e deixa o pulmão e o coração descansarem. É um coadjuvante, que auxilia o movimento do pulmão, fazendo a força física. Mas, muitas vezes, não adianta porque o pulmão já não tem força e nem ajuda muscular.

Antes de decidir utilizar a ECMO, é preciso avaliar se os benefícios da terapia são superiores aos riscos do procedimento. “É um método extremamente importante, tem ajudado a salvar pessoas, mas precisa ser muito bem indicado”, explicou Gabriel.

Riscos e benefícios do tratamento

Considerada uma última alternativa no tratamento da Covid-19, ele não é eficaz em todos os casos. “Quem já estiver com o pulmão endurecido, por exemplo, com 90% de comprometimento ou com enfisemas graves, não adianta tentar o tratamento com o aparelho”, disse a pneumologista Cileia Martins.

Apesar de garantir um “descanso” para o pulmão se recuperar, o procedimento não traz apenas benefícios ao paciente. A lista de possíveis complicações é extensa e, por isso, é preciso colocar na balança os prós e contras.

Profissional da saúde trabalha em UTI - Foto: Diego Simão/TV Vitória

Para conectar o paciente à máquina, é necessário usar um medicamento chamado heparina, um anticoagulante, que age deixando o sangue “mais fino”. “Usar heparina, traz riscos como o de sangramentos, hemorragias e anemias graves”, disse Cileia.

Além disso, o processo realizado também pode ser problemático.

“As fístulas que ligam o paciente à maquina ficam perto da carótida, artéria que leva sangue para o cérebro. Ela pode soltar bolhas de ar e formar embolias, que podem causar um AVC. Pode também ser um causador de infecções, já que tem contato direto com o organismo do paciente e as bactérias estão em todos os lugares”, explicou a pneumologista.

Complexidade do tratamento

Além de um médico intensivista especializado e de uma máquina capaz de realizar o processo, o paciente precisa contar com uma equipe multidisciplinar. Um desses profissionais é o fisioterapeuta respiratório. Enquanto o pulmão “descansa”, é importante garantir que o órgão não atrofie.

“Em casos de covid-19, o pulmão está muito lesionado, então a máquina oferece um descanso para que o órgão consiga se recuperar. Mas, é preciso proteger o pulmão. Assim que o paciente começa o tratamento na máquina, começamos um trabalho de ventilação protetora”, disse a fisioterapeuta Karina Veiga.

É necessário manter o pulmão funcionando, mesmo que de forma mais suave. “Realizamos uma ventilação mecânica para evitar danos aos alvéolos, precisamos ficar atentos também à questão muscular”, afirmou. Mas, diferente da ventilação tradicional, esse é um procedimento menos agressivo, como explicou a fisioterapeuta.

“Fora da ECMO a ventilação tem uma pressão maior no pulmão do paciente, é conduzida de uma forma mais agressiva, essa é uma das diferenças”.


Custo de R$ 30 mil por dia

A técnica vem sendo cada vez mais utilizada em pacientes com complicações causadas pela covid-19, já que dessa forma é possível poupar órgãos como o pulmão dos pacientes até que ele recupere.

Apesar de ser considerada uma importante ferramenta no tratamento da doença, a terapia não é acessível a todos. Apenas um dos hospitais particulares do Estado, o Hospital Santa Rita, oferece essa terapia e possui um corpo clínico capacitado para dar avaliação e assistência necessária ao paciente que precisa desse tratamento.

No caso de hospitais públicos, o cenário é ainda mais desolador. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), o procedimento não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Um dos principais motivos, de acordo com especialistas, seria o alto custo do tratamento. No Brasil, o SUS oferece o tratamento, principalmente, em cirurgias cardíacas, como ponte de safena ou troca de válvula, e sempre em unidades especializadas.

Apesar de ser usada também para cirurgias cardíacas, a máquina também é utilizada para o tratamento de pneumonias graves. Mas esse tipo de uso foi barrado em 2015 pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

De acordo com o Conitec, o tratamento é eficaz, porém, para ser utilizado, são necessários centros especializados que demandam um valor alto.

“O tratamento é muito caro. Em primeiro lugar, é difícil encontrar a máquina. Além disso, o funcionamento depende de profissionais especializados, que tenham um treinamento para operar o equipamento, uma equipe grande e cara. Pode chegar a custar 30 mil reais por dia”, explicou a pneumologista Cileia Martins.


Folha Vitória