Quase 5 mil alunos deixaram ensinos superior e técnico públicos no ES

Na educação básica e fundamental evasão é ainda maior. Segundo a Unicef, em 2020, quase 78 mil crianças e adolescentes estavam fora da escola no ES.


Entre trancamentos e desistências, quase 5 mil alunos deixaram de estudar na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), as duas instituições públicas de ensino superior no estado, durante a pandemia de Covid-19.

Os dados foram passados pela Ufes e pelo Ifes. Com aulas à distância e um cenário de instabilidade causado pela crise sanitária, 2.250 alunos trancaram a matrícula em cursos superiores e técnicos do Ifes e outros 536 abandonaram os estudos, ou seja, terão as matrículas canceladas por não acompanharem as aulas e provas dos cursos.

Na Ufes, foram 1.540 desistentes em 2020 e 489 até setembro deste ano. O total é 67% maior que o 1.210 alunos que desistiram da graduação em 2019.

O número poderia ser ainda maior. Com a demanda da tecnologia para acompanhamento das matérias, 4.414 estudantes de baixa renda da Ufes foram contemplados com um auxílio oferecido em quatro chamadas pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Cidadania: o auxílio de inclusão e acessibilidade digital emergencial.

O problema da evasão escolar no Brasil é histórico e uma questão social, segundo a doutora em Educação e professora da Universidade Vila Velha (UVV), Maria Riziane Prates. Relacionado ao contexto de desigualdade e falta de políticas públicas, grande parte das desistências estão ligadas a problemas financeiros.

"O que a gente precisa é de políticas públicas articuladas que consiga dar conta dessa desigualdade, dessa ausência do estado onde ele não chegou e, consequentemente, os alunos não conseguem chegar ou permanecer no ensino superior. Esse aluno por vezes precisa pagar o transporte, pagar livros, xerox, e às vezes ele não tem dinheiro mesmo. Há toda uma questão social apontada nesse momento pandêmico que não será resolvido do dia para a noite", explicou.

E em meio a pandemia de Covid-19, ressaltou a professora, o que já era histórico se agravou.

"No caso da pandemia, a gente tem um gargalo muito grande porque se antes eles tinham que ter dinheiro para pagar transporte, agora eles precisam ter um celular, um notebook, e aí a gente sabe que não são todos que têm essa condição", pontuou.

As dificuldades durante o período da pandemia também vão além das questões financeiras. O cenário de instabilidade, medo e preocupação causou mais ansiedade e agravou quadros de depressão entre alguns alunos, o que também resultou em desistências.

É o caso da Roberta Draco, de 21 anos. Estudante de geografia na Ufes, Roberta trancou o curso durante a pandemia porque "não suportava a pressão para produzir enquanto o mundo estava acabando".

"Eu trabalho o dia todo na frente do computador e ter aulas também no computador estava me deixando mais dispersa, com mais dificuldade de acompanhar. Comecei a ficar muito mais ansiosa, minha depressão piorou, tive que começar a tomar remédio. Eu resolvi trancar para focar em mim", relatou.

Apaixonada pelo curso, Roberta esperava conseguir se dedicar ainda mais aos estudos ficando em casa. Mas, o clima de tensão “do lado de fora” foi o que passou a adoecê-la por dentro, resultando em uma pausa que ela considera necessária.

“Teve um momento que não aguentei mais. Minha crise de depressão não foi por questões minhas, foi de ver as pessoas morrendo e a ‘rua da lama’ cheia, as pessoas sem máscara. Eu tive que ceder alguma coisa e a única coisa que eu consegui abrir mão era o estudo porque eu moro sozinha preciso trabalhar”, apontou.

O G1 procurou as maiores instituições privadas de ensino para levantar dados entre o ensino privado, mas não houve retorno.

Crianças e adolescentes
A evasão escolar é ainda maior entre crianças e adolescentes. Envolvidas na rotina e dinâmica familiar, o Brasil tem em sua trajetória dados alarmantes de abandono da escola por parte de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos.

É o que apontou um levantamento realizado pela Unicef com dados de 2019 e 2020, publicado em abril deste ano. O estudo mostrou que, apenas no Espírito Santo, 77, 9 mil crianças e adolescentes estavam fora da escola em novembro de 2020, 50 mil a mais do que no ano de 2019, quando eram 20,9 mil.

"Principalmente quando chegam na adolescência, no final do Ensino Fundamental II e no Ensino Médio é onde temos a maior perda porque há uma necessidade de trabalhar para ajudar a família. Há uma desigualdade social, econômica, cultural, etno-racial no brasil que é de longa data e não foi resolvida, e por isso temos uma diferença de acesso e consequentemente de permanência na escola", apontou Prates.

Em todo Brasil, por exemplo, 70% das famílias com crianças e adolescentes de 6 a 14 anos fora da escola em 2019 tinham uma renda per capita de até meio salário mínimo (R$ 522,50). A estrutura familiar, ressaltou a professora, influencia diretamente na permanência dessas crianças na escola.

Os dados foram coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), de maio a novembro de 2020. O levantamento foi realizado por telefone, e a amostra contou com 193 mil domicílios, com aproximadamente 48 mil entrevistados por semana. A pesquisa considera alunos que não estavam matriculados na escola, não frequentavam aulas ou não haviam recebido atividades pedagógicas na semana anterior.

O que dizem o estado e as prefeituras da Grande Vitória

Apesar do número alto apontado pela pesquisa da Unicef, com dados do IBGE e da Pnad, o Governo do Espírito Santo respondeu, por nota, que registrou evasão de 2.241 alunos da rede estadual no ano de 2020, o que representa 2,5% do total de estudantes.

A Secretaria de Estado da Educação (Sedu) disse, ainda, que desenvolve ações de busca ativa, por meio do Programa Todos na Escola, criado em 2019 e que visa localizar crianças e jovens entre 04 e 24 anos, potencialmente fora da escola ou em risco de abandono escolar.

Vitória
A prefeitura da capital afirma que não tem os dados da evasão escolar no ano de 2020. Segundo a Secretaria de Educação de Vitória (Seme) o evasão é medida apenas ao final de cada ano, com o fechamento dos resultados dos estudantes.

"Como em 2020, por conta da pandemia, foi instituído o contínuo curricular 2020-2021, a evasão escolar deverá ser medida ao final de 2021", disse por nota.

"Desde março, porém, a rede municipal de Vitória trabalha com estratégias de busca ativa de crianças e estudantes matriculados na educação infantil, no ensino fundamental e na educação de jovens e adulto que, por algum motivo, não retornaram presencialmente, não acessaram a plataforma AprendeVix e nem a família compareceu para buscar as atividades impressas nas unidades de ensino", completou.

Serra
A Secretaria de Educação da Serra informou que foram identificados 93 alunos que deixaram de frequentar as Atividades Pedagógicas Não Presenciais (APNPs) e que o resultado da busca ativa até o primeiro semestre de 2021 indicou um total de 1.361 estudantes, somadas a educação infantil e o ensino fundamental, que não estão frequentando as aulas.

Para prevenir a situação, a secretaria afirma que durante a pandemia "foram confeccionadas e distribuídas as APNPs e os cadernos pedagógicos. Além disso, foram adotadas estratégias para interagir com os alunos, como o uso de recursos como WhatsApp, Google Forms, Google Sala de Aula, atendimento às famílias nas unidades de ensino, entre outras ações. As unidades de ensino da Serra já estão realizando a busca ativa por meio de contato com as famílias, aplicativos de mensagem, uso de carro de som e difusão nas rádio comunitárias, com o intuito de evitar a evasão escolar e garantir o acesso e permanência das crianças/estudantes nas escolas e contam com o apoio do Projeto Territórios em Rede, iniciativa da Fundação Vale em parceria com o município, para garantir o acesso e a permanência de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos nas escolas da rede municipal."

Vila Velha
Assim como Vitória, a Secretaria Municipal de Educação de Vila Velha afirmou que não há dados sobre evasão escolar de 2020.

"Em Vila Velha, tivemos um aumento considerável de matrículas na rede municipal de ensino após o início do programa Bolsa Aluno, benefício de R$450 para todos os alunos regularmente matriculados. O valor foi para ser utilizado de forma a contribuir com a educação, seja com a aquisição de alimentos, materiais pedagógicos ou internet. Além disso, nossas unidades disponibilizavam nas secretarias escolares Materiais Pedagógicos Não-Presenciais (APNPs) para aqueles que não tinham acesso à internet", disse por nota.

A secretaria não respondeu qual seria, em números, esse "aumento considerável" de matriculas na rede municipal.

Cariacica
A Secretaria de Educação (Seme) informou que neste momento a plataforma Busca Ativa Escolar contabiliza 306 alunos que estão sendo contatados pela equipe através de telefonemas e visitas às residências.

"A Seme completa que alunos que não conseguem acompanhar as atividades pela internet contam com aulas nos canais 8.2, 8.3 e 8.4, além de atividades impressas disponibilizadas pelas escolas. A Seme diz ainda que as aulas acontecem de forma híbrida: às segundas-feiras, todos os estudantes têm aulas on-line. Nos demais dias da semana há revezamento, com metade dos alunos realizando aulas presencias às terças e quartas, e a outra metade às quintas e sextas", disse por nota.

Fonte: G1





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