GENTE DO CAMPO: mulher vive há quase 50 anos transformando cipó em arte


Tania Pereira aprendeu a ser cipozeira com a mãe e avó aos oito anos; atividade se tornou a principal renda da família.

Artesanato com cipó feito por Tania Pereira — Foto: Arquivo Pessoal

Há quase 50 anos a planta trepadeira cipó-imbé faz parte da vida de Tania Mara Pereira Nunes, moradora de Paranaguá, no Paraná. Aos 8 anos, ela aprendeu com a mãe e a avó que era possível transformar o cipó em diferentes objetos, entre eles cestas, bonés, tapetes e chapéus.

“Eu cresci com minhas duas irmãs vendo minha mãe fazendo cada coisa bonita e ela sustentou a gente com esse trabalho, assim como minha avó. Elas [mãe e avó] estão falecidas, mas a arte me aproxima delas, diz.

A atividade ser tradição familiar é algo que se destaca no grupo dos cipozeiros, que são pessoas que vivem da extração do cipó no país e o utiliza para artesanato, fazendo parte das mais de 20 comunidades tradicionais do Brasil.

De acordo com a Comissão Nacional para o Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, estudos apontam que os cipozeiros são descendentes de colonizadores de origem europeia (alemães, poloneses, italianos e portugueses).

Eles passaram a viver em pequenas propriedades na área rural e a dependerem do trabalho com cipó, planta nativa do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Em 2010, foi estimado pelo Mapeamento Situacional dos Cipozeiros que cerca de 10 mil pessoas se autodefiniam cipozeiras e estavam espalhadas por cidades do norte e sul de Santa Catarina, no estado do Paraná e ao norte do estado de São Paulo.

Apesar do trabalho ser exaustivo e, em certos casos, pouco rentável, eles reconhecem a atividade como um fator importante de pertencimento social e de determinação da cultura.

“Minha maior lembrança é de quando era pequena e eu ficava com todos na cozinha para nos esquentarmos no fogão de lenha. A gente ficava tecendo cipó durante a madrugada toda para vender no dia seguinte. E vendíamos tudo”, relembra.

Esforço e criatividade

Tania Pereira, cipozeira do estado do Paraná, aprendeu atividade aos 8 anos de idade — Foto: Arquivo Pessoal

Pegar cipó na mata não é algo simples, enfatiza Tania. De onde ela mora, que fica na Ilha do Amparo, é preciso pegar um barco e ir até a ilha de Piaçaguera, onde os cipós ficam em frente ao porto. O horário e o jeito de extrair fazem diferença.

“Tem que ser de dia e antes das 9h, porque o mato fica molhado com o sereno. Mas quando o sereno sai, dá para tirar o dia todo. Além disso, se a árvore for grande, tem cipó grande. E é importante saber tirar para não estragar. Costumo dizer que o maior desafio é tirar o cipó e limpar ele para poder fazer as peças”.

“Quando você pega, precisa reparar que ele tem umas ‘vesguinhas’ no meio. Aí você tem que partir ele, nessas vesguinhas, sempre na parte mais mole. Se ele sair, ele já quebra. Os cipós costumam ser pesados porque tem que tirar a casca e o limo depois”, explica.

Tania Pereira ainda bebê com sua mãe — Foto: Arquivo Pessoal

Tania conta que quando era mais nova chegava a ir duas vezes na semana para pegar cipó e levá-lo até a casa, onde é feita a limpeza e confecção.

“Depois de tirar o cipó, aprendi que tinha que descascar, raspar, cortar pelo meio e passar na raspadeira. Só depois disso dava para tecer e produzir as peças, deixando a criatividade tomar conta”, diz.

Atualmente, quem é responsável pelo “serviço pesado” de extrair cipó é o marido de Tania, que também trabalha como pescador.

“Ele que vai buscar porque é bem trabalhoso pegar cipó. Eu não aguento mais tirar e carregar até aqui. Fiz muito na vida. A última vez que ele foi, ele tirou 30 fios, que deu para fazer seis peças. Se no caso sobrar cipó, a gente guarda porque ele limpo não estraga e fica de um ano para outro”.

Na família, uma das irmãs também continua vendendo artesanato de cipó. Já a outra deixou a atividade.

Artesanato feito por Tania Pereira, cipozeira do Paraná — Foto: Arquivo Pessoal

Chapéu nas lembranças

Tania Pereira no barco com família — Foto: Arquivo Pessoal

A cipozeira diz que seu primeiro artesanato aos 8 anos foi um boné, que foi vendido no mesmo dia. Mas o mais marcante foi o primeiro chapéu masculino, que sua mãe a ensinou como fazer.

“Tem gente que aprende rápido e outros que não conseguem mesmo. Para mim, o chapéu é o mais difícil para fazer porque ele tem curvas em cima e deixa mais difícil a arte. E aprender como tecia certo com minha mãe é algo marcante. Sempre me faz lembrar dela e minha avó, que não estão mais aqui”.

Tania Pereira e seus produtos — Foto: Arquivo Pessoal

Segundo Tania, outro artesanato que também a marcou foi um presépio feito em tamanho real, em 2016.

“Olha, ficou muito bonito, viu? Ele ficou exposto 15 dias pela prefeitura e depois uma pessoa comprou para levar em São José dos Pinhais. Deixou todo mundo orgulhoso”.

Atividade desvalorizada?

Artesanatos feito com cipó por Tania Pereira — Foto: Arquivo Pessoal

Para Tania, a atividade tem ficado mais desvalorizada ao longo dos anos. Segundo ela, os jovens da atual geração não se interessam mais pelo artesanato como antes e as vendas diminuíram desde a pandemia.

“Meu filho quando pequeno fazia, mas não quis seguir e se tornou mecânico. E eu vejo que muitos jovens de hoje em dia não querem mais saber. Atividade não está sendo valorizada, porque fazemos as peças e não valorizam mais como antes. Não querem comprar mais. Está feia a coisa”, diz.

“Anos atrás a gente fazia, já vendia e até participava de festa. Agora não tem mais isso. Eu acredito que desvalorizou por não ter um lugar para vender só esse tipo de produto e pelas pessoas não saberem tanto a história. O cipó, por exemplo, é mais rígido do que a palha, que é bem mais mole”, ressalta.

Artesanato com cipó — Foto: Arquivo Pessoal

Tania conta que não teve oportunidade de terminar os estudos por ter que ajudar a família desde cedo a conseguir renda. Mas mesmo com todas as dificuldades, o cipó faz parte de sua vida. Seu sonho, agora, é conseguir fazer a carteira nacional de artesão para que possa se aposentar pela arte.

“Não estudei por necessidade mesmo. Precisava ajudar em casa. Cheguei a trabalhar como cozinheira em um restaurante e só. Mas o cipó faz parte de mim".

"Mesmo que as encomendas estejam fracas, tecer cipó me traz tranquilidade e posso usar a criatividade. E se eu ver um na frente, como aconteceu em uma viagem, eu já corro pegar”, diz.

Fonte: G1 Agro


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