Ataques a escolas: juiz dá detalhes do depoimento de menor que matou 4 pessoas



O dia 25 de novembro de 2022 dificilmente sairá da memória dos moradores de Coqueiral de Aracruz, no município que fica no Norte do Espírito Santo. Aquela sexta-feira foi marcada pelo terror e a morte de inocentes em duas escolas.

Dois meses após os ataques que mataram uma aluna e três professoras, o juiz que julgou o menor responsável pelas mortes fala pela primeira vez e dá detalhes do depoimento do rapaz, um garoto de 16 anos.

Juiz da Vara da Infância e Juventude que atua na cidade de Aracruz, Felipe Leitão Gomes conta que preferiu estar pessoalmente na cena do crime, porque assim puderam agilizar o processo mais importante até aquele momento: identificar e localizar o atirador.

"Nos deparamos com a cena trágica, as vítimas ainda nos locais, muitas pessoas em volta e polícia atuando. Era importante que estivéssemos presentes, exatamente para adotar as medidas urgentes que o caso exigia".

A casa do atirador

"Compareceu ao local o superintendente da região Norte da Polícia Civil, falando que eles já tinham um alvo identificado, um suspeito com uma informação muito concreta e que eles precisavam de um mandado de busca e apreensão para aquela residência. Como não havia tempo para essa diligência, eu e o juiz criminal fomos até a residência que seria alvo da ocorrência. Lá, foi informado que a polícia tinha uma suspeita forte com relação a um adolescente, que era filho de um policial, e que eles tinham outra residência que ficava na orla".

A prisão

"No primeiro momento, a Polícia Militar informou que ele estava no local e estava negando. Logo depois, o policial encarregado informou que tinha confessado, na frente dos pais, e eles estavam se preparando para deslocar até lá. Eu e o juiz criminal permanecemos no local até a chegada do adolescente. Eu avisei ao delegado que eles eram responsáveis, a partir daquele momento, pela integridade física do adolescente. Foi um caso que causou uma comoção muito grande e a população poderia querer se revoltar."

A confissão

Felipe Leitão Gomes, Juiz da Vara da Infância e da Juventude - Foto: TV Vitória

"Ele confessou a prática de todos os atos, a dinâmica. Desde o primeiro momento em que ele foi ouvido, ele confessou. A única coisa que ele não confessava era a real motivação. Ele dizia que era fruto de um bullying que ele tinha sofrido na escola e que eu até acho, que apesar de não ter sido a motivação, foi o que desencadeou a mudança comportamental"

Apontando o bullying como causa de tanto ódio, o menor tentava justificar a barbaridade cometida com experiências da infância, em que era chamado na escola de homossexual e era muito introvertido.

Antes dos ataques nas escolas, os pais dele notaram uma mudança de comportamento do rapaz e começaram um tratamento psicológico.

"Ele apresentou sinais e estava fazendo acompanhamento. Ele fazia terapia, fazia uso de medicamentos em função disso. Os pais tinham esse cuidado. O pai, inclusive, tinha buscado especialização. Obviamente, por questões éticas ele não pode acompanhar o filho, mas ele buscou especializações na área para entender a situação do filho"

Influência neonazista

Mas com investigações que apuraram o conteúdo que ele acessava na internet e as mensagens que ele mandava a grupos terroristas, a polícia descobriu a real motivação.

"Foi encontrada uma suástica nazista, que é um símbolo muito difundido dentro de pessoas com ideologias neonazistas. Ele negou, nas três vezes que foi ouvido, que a motivação fosse qualquer coisa relacionada a grupos neonazistas ou extremistas dessa natureza. Mas após a primeira audiência, a Polícia Civil conseguiu, com o apoio do Gaeco e do setor de inteligência, degravar umas informações nos equipamentos que foram apreendidos e lá ficou constatado que sim, a motivação era a ideologia neonazista, ódio contra minorias, negros, homossexuais, judeus, maçons".

Entre os ídolos do adolescente, estão o nazista Adolph Hittler; Erick Harris e Dylan Klebold, responsáveis pelo ataque em Columbine, escola dos Estados Unidos que sofreu ataque em 1999; e Guilherme Taucci e Luiz Henrique de Castro, assassinos do massacre de Suzano em 2019.

Segundo investigações, o adolescente de Aracruz pretendia, assim como os assassinos que admirava, tirar a vida logo em seguida, mas não concluiu essa parte do plano.

"Foi identificado que havia uma ideia dele de tentar contra a própria vida. Eu não sei se ele não teve coragem ou se ele queria ser morto em confronto. Mas havia, sim, o desejo de ceifar a própria vida e reforçou ainda mais a nossa preocupação quanto a integridade dele na unidade em que ele está internado".

Medidas socioeducativas

A lei brasileira que protege a criança e o adolescente é questionada em muitas áreas. Mesmo responsável pela morte de quatro pessoas, o menor não pode ser considerado criminoso e a pena máxima que pode pegar são três anos detido em medida socioeducativa.

"Menor não pratica crime, pratica ato infracional, que é uma conduta análoga a um crime. É o mesmo tipo, mas não é considerada um crime. Então o adolescente também não cumpre pena. Ele cumpre o que a gente chama de medida socioeducativa. Ela tem um objetivo pedagógico, sim, que tem um viés punitivo. Mas o objetivo é reeducar o adolescente para que ele, quando alcançar a maioridade e deixar a unidade, possa conviver bem em sociedade. O Estatuto da Criança e do Adolescente é uma lei muito boa, apesar de várias críticas que recebe, estabelece prazos. Para casos como este, o prazo de internação é de três anos. Para mudar isso não cabe ao poder Judiciário, às polícias e nem advogados. Cabe ao poder Legislativo, no Congresso Nacional, fazer as alterações.

Atualmente, o menor está internado na unidade socioeducativa de Cariacica Sede. Por uma decisão judicial, ele tem que ficar em uma cela separada de outros internos. Ele também precisa ser monitorado 24 horas.

Além disso, a cada seis meses ele vai passar por uma avaliação de toda a equipe e vai ser reavaliado por um juiz, que vai definir se ele irá cumprir os três anos ou se sairá antes.

A defesa do adolescente não recorreu à decisão da internação e não alegou problemas psiquiátricos do cliente.

No entendimento do juiz, apesar das questões psicológicas que ele apresenta, ele sabia o que estava fazendo, foi frio e calculista, mesmo ciente das consequências.

"Indiscutivelmente há, sim, um problema. Não foi identificada nenhuma disfunção que comprometesse a capacidade dele de saber o que estava fazendo"

O futuro

"Ele está sendo avaliado psiquiatricamente, por um pedido da defesa e foi colocado na minha sentença, até para saber como ele vai sair da unidade"

A cidade pós-massacre

"É o processo mais difícil, dada a gravidade e a repercussão que isso gerou e vai gerar na comunidade durante muitos anos, seja na comunidade acadêmica ou na sociedade como um todo. O pai que perdeu uma filha, professores que perderam colegas, membros da comunidade pequena que perderam aquelas pessoas que convivia. O que vai dar mais trabalho a longo prazo é esse acompanhamento da sociedade e tentar curar essa ferida para trazer para um ambiente de normalidade. Isso vai custar muito tempo e muito trabalho"

Para ele, a maior questão dessa história está no alerta para os pais. O militar, pai do adolescente, e a mãe dele, nunca imaginaram que o filho fazia parte de grupos online neonazistas, com jogos violentos e que ele alimentava o desejo de matar.

Na mesma situação estão tantos outros responsáveis que deixam a cargo da internet e das influências sociais a direção da vida dos filhos.

"O recado que eu tenho para os pais é prestem atenção no que seus filhos fazem. Conversem com eles muito. Prestem atenção em escola e rede social, pois estes fatos acontecem quando você menos espera".

Fonte: TV Vitória/Record TV


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