Casagrande: “Marcelo é meu candidato à presidência da Assembleia”

Marcelo com Casagrande em evento do governo. Foto: reprodução Facebook

“Marcelo Santos é meu candidato à presidência da Assembleia.” A declaração, feita à coluna na tarde desta terça-feira (24), é do governador Renato Casagrande (PSB) – na prática, o principal “eleitor” na disputa interna pela formação da próxima Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. A eleição ocorrerá no dia 1º de fevereiro.

A esta altura, após a desistência ou a não viabilização de outros pré-candidatos à presidência da Casa – João Coser (PT), Tyago Hoffmann (PSB) e Dary Pagung (PSB) –, só dois deputados permanecem vivos no páreo: Vandinho Leite (PSDB) e o próprio Marcelo Santos (Podemos). Ambos são aliados de Casagrande e pertencem à base do governo.

O governador manifestou sua preferência pessoal por Marcelo e confirmou que, embora ele mesmo não vote, está orientando os integrantes da base a votar no deputado do Podemos. De fato, nos últimos dias, essa orientação tem sido repassada aos deputados governistas pelo chefe da Casa Civil, Davi Diniz, principal emissário de Casagrande na articulação com os parlamentares.

O chefe do Executivo estadual explicou os critérios levados em conta por ele em sua decisão, agora verbalizada, de apoiar Marcelo. Entre eles, pesou a longevidade política do atual vice-presidente da Mesa (decano da Assembleia e prestes a iniciar o sexto mandato seguido), a longevidade da parceria política entre ele e Marcelo (aliado importante de Casagrande no Poder Legislativo, principalmente no governo passado) e os planos políticos de curto e médio prazo do deputado:

“Marcelo é o deputado com o maior número de mandatos na Assembleia. É um deputado que não será candidato a prefeito, não será candidato a deputado estadual, e é um deputado que, enquanto eu estive no governo, tem um histórico de aliança comigo. Vandinho também tem, mas Marcelo tem um tempo maior de relação estável de aliança comigo. Então tomei essa decisão com base nesses critérios, em nenhum momento desmerecendo a qualidade e o pleito do deputado Vandinho.”

Em 2024, Marcelo não será candidato a prefeito de Cariacica (nem de município algum). Em entrevista concedida à coluna em novembro, ele anunciou que, em 2026, será candidato a deputado federal. As pretensões futuras de Marcelo podem ajudar Casagrande a pacificar a Casa nos próximos anos.

Em tese, a falta de potenciais concorrentes eleitorais nos próximos pleitos diminui o risco de criação de arestas com outros parlamentares da base, na condução da Assembleia. E foi exatamente por isso que o próprio Marcelo tratou de anunciar, com incomum antecedência, que não concorrerá à reeleição em 2026 e a nada no ano que vem.

Vandinho, por sua vez, é visto como possível candidato à Prefeitura da Serra em 2024.

Contexto: jogo de “Resta Um”

Desde os primórdios do processo, no fim de 2022, Casagrande vinha trabalhando para ajudar sua base aliada a produzir uma candidatura de consenso, a fim de evitar rachaduras logo no início da nova legislatura – oficialmente iniciada no dia 1º de fevereiro, com a posse e justamente a eleição da Mesa Diretora que comandará a Assembleia pelos dois anos seguintes.

Com esse espírito de preservar a coesão da base, Tyago e Dary, ambos do PSB de Casagrande, retiraram suas pré-candidaturas, de modo a descongestionar o processo e dar espaço à ascensão de um aliado de outra sigla à presidência.

Restaram Marcelo e Vandinho, que permaneceram irredutíveis. Correndo cada um na sua raia, ambos intensificaram seus movimentos e reuniram um bom número de apoiadores, incluindo naturalmente deputados governistas (que tendem a ser maioria folgada no próximo plenário).

O impasse estava rachando a base, e Casagrande diz ter sido procurado por muitos deputados aliados, bem relacionados com Marcelo e com Vandinho, em busca de uma orientação. Como nenhum dos dois cedesse, o governador achou por bem intervir, manifestando sua posição aos deputados e, agora, fazendo-o de público:

“Num processo de avaliação, os deputados Tyago e Dary decidiram não concorrer. E então se afunilou entre Marcelo e Vandinho. Quando se afunilou entre os dois, não tivemos mais condições de fechar o entendimento. Nenhum dos dois queria se retirar. Passei o final de semana refletindo e então manifestei minha opinião e dei essa orientação [a favor de Marcelo] através do secretário Davi Diniz.”

Casagrande reforça que seu anúncio visa dar “conforto” aos deputados aliados até então indecisos entre Marcelo e Vandinho. Com uma indicação clara e enfática do governador, eles podem seguir com Marcelo sem medo de contrariar o governo. (Da mesma forma, agora, os governistas que restarem com Vandinho terão consciência de estarem contrariando o Palácio Anchieta…)

“Eu não me envolvo diretamente na eleição da Mesa, mas eu recebo os deputados. Uma boa parte dos deputados que têm relação com o governo me pediu para manifestar minha opinião para dar conforto a eles, porque eles estavam entre o Marcelo e o Vandinho. E eu dei minha opinião para poder orientar e atender a uma demanda de uma parte da base. Manifestei minha opinião para o secretário Davi Diniz, que a comunicou aos parlamentares, com base em critérios muito objetivos, porque os dois são aliados. Não tinha veto a nenhum dos dois, não tinha preferência por nenhum dos dois. O que teve foi uma decisão, tomada com base em critérios que elaborei no fim de semana.”

Em busca do consenso

Casagrande acredita que os dois candidatos à presidência ainda podem se unir em uma chapa de consenso – bem entendido: encabeçada por Marcelo. E trabalha nos bastidores por isso.

“Eu sou do consenso. Pode ser que a gente não consiga. Mas a orientação dada ao Davi Diniz e ao próprio Marcelo é que a gente busque um consenso. Não temos razão para fazer uma disputa. Não posso mudar o projeto nem o entendimento e a decisão dos parlamentares. Mas o meu pedido, o meu apelo e o meu trabalho é para que a gente possa unificar e juntar num movimento único na Assembleia.”

Ele prefere contudo, não especificar o que o governo pode oferecer a Vandinho para convencê-lo a desistir da disputa. Mas é óbvio que o preço do presidente estadual do PSDB não há de ser barato.

“Aí eu não participo diretamente. É um trabalho que o Davi Diniz faz e que o Marcelo faz. Os deputados alinhados ao Marcelo e mesmo os que estão alinhados ao Vandinho podem fazer. Estou incentivando que conversem. Mas a decisão tomada uma semana e meia antes da eleição permite que neste tempo a gente amadureça a possibilidade de união.”

Por fim, Casagrande afirma que (desta vez) não existe a menor a possibilidade de recuo tático.

“Não. A decisão está tomada.”

Assim, confirma ele, se Vandinho insistir em inscrever uma chapa alternativa e disputar os votos dos colegas na sessão especial do dia 1º, haverá mesmo disputa em plenário, mas tendo Marcelo à frente da “chapa do Palácio Anchieta”:

“Sim”, confirma Casagrande, “a não ser que Marcelo desista da disputa, mas Marcelo é candidato. O ambiente poderá levar Vandinho a uma decisão diferente dessa de disputar. Mas minha decisão está tomada como orientação à base do governo, a quem queira seguir a orientação”, insiste o governador, sublinhando ainda mais um recado já claro o bastante e que pode ser assim traduzido:

“Aos deputados novatos e reeleitos que quiserem vir comigo ao longo do atual governo, comecem a provar sua lealdade desde já e sigam minha orientação de voto em Marcelo.”

O decano da Assembleia, assim, passa a ser o grande favorito à sucessão de Erick Musso.

Mudança de atitude

A atitude de Casagrande desta vez é muito diferente da adotada por ele nas duas últimas eleições à presidência da Assembleia desde que ele voltou ao Palácio Anchieta, em 2019 e 2021, ambas vencidas por Erick Musso (Republicanos) sem concorrentes e com a anuência velada – ou vista grossa – do governador.

Nas duas ocasiões, Casagrande até que tentou emplacar um deputado governista na presidência – o próprio Marcelo foi ensaiado sem sucesso em 2021 –, mas no fim preferiu não ir para uma imprevisível disputa com Erick Musso em plenário. E em momento algum tomou partido de A ou B publicamente, muito menos falou “meu candidato é esse”, como decidiu fazer desta vez.

Agora, não tem mais Erick na disputa, Casagrande saiu das urnas em outubro com o capital político renovado e está com a faca e o queijo nas mãos para, enfim, emplacar o presidente da Assembleia de sua predileção. Nunca teve condições tão grandes de fazê-lo e não tem por que deixar passar esta oportunidade, nem por que se dar ao luxo de ver a sua base rachar numa disputa desnecessária entre dois deputados aliados.

Por isso, desta vez, o técnico do time resolveu entrar em campo pessoalmente, pôr a bola debaixo dos pés e ditar o ritmo do jogo – o qual, a rigor, é jogado em outro estádio. Nem “Centroavante”, como diria Manato, nem zagueiro, como em seus tempos de futebol de várzea em Castelo.

O governador está atuando é como meio de campo, para organizar um time momentaneamente bagunçado.

Hora de provar a previsão

Já que estamos nas metáforas do futebol, em entrevista concedida a esta coluna no fim do ano passado, Davi Diniz estimou que o governo entrante teria de 22 a 26 deputados aliados no início da legislatura a contar do dia 1º de fevereiro. Em entrevista subsequente à coluna, Casagrande disse concordar com a projeção.

Vinte e dois era o número de convocados antigamente para uma Copa do Mundo. O atual é 26.

Nesta eleição da Mesa, o “novo governo” terá o primeiro teste real para comprovar a própria estimativa.

Fonte: Vitor Vogas - ES360 


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