Sur, moeda comum entre Brasil e Argentina, pode levar 3 anos para sair do papel

Especialistas divergem sobre eficácia da estratégia e apontam outras medidas mais simples para ampliar o fluxo comercial entre os dois países

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante cerimônia de assinatura de atos na Casa Rosada Ricardo Stuckert/PR

A criação de uma moeda comum entre Brasil e Argentina, ainda que exclusiva para transações financeiras e comerciais — que pode ser chamada de “sur” (sul em espanhol) – demoraria entre dois e três anos para sair do papel. A ‘eficácia’ dessa empreitada também divide os especialistas ouvidos pelo GLOBO, que pontuam outras ações capazes de turbinar o comércio entre os dois países.

O ex-secretário de Comércio Exterior e consultor Welber Barral diz que a criação de uma moeda comum nesses moldes, com um efeito escritural, não é novidade, mas levaria até três anos para sair do papel.

Esse foi o tempo que levou para operacionalização do Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) – mecanismo administrado pelo Banco Central do Brasil em parceria com os bancos centrais da Argentina, Uruguai e Paraguai para o Mercosul.

― O impacto para o comércio bilateral não é tão grande. Talvez o resultado seja importante nesse momento porque a Argentina tem um problema com crédito, por não ter reservas internacionais e por isso controlam tanto o comércio ― observa.

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Adotar esse sistema poderia ser positivo para o Brasil porque não pressionaria a Argentina a fazer a compensação em dólares, que hoje é exigida pelo SML, e poderia impulsionar as exportações de alguns segmentos:

― Isso pode ajudar os médios exportadores brasileiros, que vendem produtos na linha branca, calçados, têxtil, que teriam um fôlego.

O especialista pondera que a Argentina é o principal comprador de produtos industrializados do Brasil. Já para os argentinos, a saída da crise passa por medidas estruturais que vão demorar para entregar resultados – como venda de gás e exploração de lítio. Nesse sentido, a moeda comum pode dar fôlego para os dois lados, mas não resolve todos os problemas.

Lula durante reunião com o presidente da Argentina, Alberto Fernández, na Casa Rosada, em Buenos Aires — Foto: Ricardo Stuckert/PR

Situação argentina

Para Rubens Barbosa, embaixador e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, criar um mecanismo de pagamento de importações e exportações pode ser positivo. Ele diz ver semelhanças desse sistema com o convênio de crédito recíproco (CCR), que é uma forma de pagamento operacionalizada entre os Bancos Centrais.

― É uma coisa razoável para o momento que estamos vivendo. Isso convém ao Brasil para aumentar as exportações industrializadas para a Argentina, que não tem câmbio, não tem reservas para pagar. Se há essa forma de pagamento, aumenta a possibilidade de exportação para os brasileiros e atende aos interesses dos dois países ― diz.

Já o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman acha a ideia péssima. Ele cita o fato de o Brasil registrar superávit comercial e questiona como seriam feitas as compensações aos exportadores.

― Essa moeda, pelo formato de criação, teria de ter uma paridade fixa com o dólar, e o Banco Central do Brasil teria de se comprometer a entregar dólares para quem estivesse com esse crédito e precisasse trocar. Ou seja, já coloca as reservas brasileiras na linha se tiver superávit comercial. O que o exportador brasileiro quer é uma moeda forte. Por que ele vai aceitar receber em sur se ele pode receber em dólar? ― pontua.

Ele ainda levanta dúvidas sobre como será mantida a paridade da nova moeda a uma outra de referência – a decisão será da autoridade monetária do Brasil, Argentina ou será criado um BC para os dois países.

― Estamos colocando risco num sistema que não precisa. Não tem nenhuma grande justificativa para fazer isso do ponto de vista de integração comercial. Há outras coisas para fazer que não passam por moeda comum. A integração precisa passar por política aduaneira comum, um desejo de promover integração, acabar com exceções tarifárias. Tem uma avenida de coisas para fazer em política comercial que não envolvem a criação de mais uma moeda ― diz.

Política eleitoral

O ex-secretário do Tesouro Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners, pontua que o comércio bilateral entre Brasil e Argentina tem involuído, principalmente pelo crescimento do comércio com outros países e em função da situação difícil da Argentina, que sofre com o baixo crescimento da economia, inflação elevada e as restrições impostas pela indústria local:

― Facilitar o comércio em moeda local é evidente que tem um risco muito grande. Imagine acumular um saldo em pesos argentinos, que não têm convertibilidade, em troca do real, que é moeda mais estável. Tem uma tese que parece meritória de algum tipo de esforço, mas na prática fazer esse mecanismo é muito difícil.

Para Kawall, neste momento em que volta a existir um alinhamento entre os dois governos, a leitura dessa medida é muito mais favorável para os argentinos, já que sinaliza um plano ambicioso de solução dos problemas macroeconômicos de lá num ano eleitoral:

― Com a eleição, se confirmar a vitória da oposição, esse assunto pode ser congelado. Caso haja uma continuidade do peronismo, esse assunto pode ficar mais tempo frequentando a agenda política, mas sem ter algum substrato econômico para isso.

Para Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada da UFMG, esse tópico é um tema marginal na discussão e não deve ser hiperdimensionado. Para ele, o principal ponto da viagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Argentina é a refundação das relações bilaterais entre os dois países.

― A relevância é inaugurar o terceiro mandato e diplomacia presidencial, escolhendo a Argentina, depois de quatro anos de relações paralisadas. O Brasil não teve relações com a Argentina, e a culpa era do Brasil. O problema era Bolsonaro, que fazia a Argentina de cavalo de batalha, transformando em antiexemplo do que o Brasil poderia se tornar ― diz.

Fonte: O Globo

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