Fentanil, cocaína negra, flor gringa e haxixe paquistanês: polícia apreende novas drogas em circulação no ES

31 frascos de fentanil foram apreendidos em Cariacica, Grande Vitória, ES. — Foto: Reprodução/TV Gazeta


Desde fevereiro de 2023, as forças de segurança do Espírito Santo apreenderam entorpecentes considerados raros e com alto índice de fatalidade circulando no estado, como, por exemplo, o fentanil e a cocaína negra . De acordo com especialistas ouvidos pelo reportagem, estas apreensões são preocupantes devido aos riscos que essas "novas drogas" podem causar à saúde, que ainda são poucos conhecidos pela medicina.

Especialista em dependência química, o professor de Farmacologia Clínica do curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Roney de Oliveira, explicou que essas drogas tidas como novas ou exóticas são apelidos para entorpecentes que foram misturados a outras substâncias.

"As combinações dessas variantes novas fazem com que elas tenham um potencial totalmente novo. Isso gera um grau de letalidade muito grande e ainda desconhecido até da ciência, em alguns casos", disse o professor.

Ainda de acordo com o docente, a falta de procedência também é um risco à saúde.

"Se há dez fornecedores diferentes, são dez substâncias diferentes. E, dependendo do que o profissional coloca na mistura, pode causar incapacitações sérias, sequelas neurológicas graves e até levar à morte", disse Roney.

No caso da cocaína negra, apreendida no Espírito Santo no dia 28 de março, trata-se de um apelido para um entorpecente que recebeu outras substâncias na mistura final.

"No caso da cocaína negra, a base é a pasta de cocaína, que vem de fora do Brasil. Mas esta droga leva outras substâncias para alterar o odor e a aparência. Essa descaracterização pode fazer com que determinados indivíduos utilizem em uma quantidade maior do que se fosse apenas a cocaína pura, agravando a situação", disse.

Inovação do tráfico

De acordo com o psiquiatra e membro da Associação de Psiquiatria do Espírito Santo, José Luis Leal de Oliveira, as apreensões mostram o quanto o tráfico está se inovando enquanto as políticas públicas de prevenção e tratamento continuam sem eficácia.

"Basta passar pelo Centro de Vitória e perceber o quanto aumenta o número de usuários nas ruas. O tráfico tem andado de maneira muito mais veloz do que as políticas públicas", disse.

É como se as drogas tivessem sempre se inovando, enquanto o sistema que deveria prevenir e coibir sua circulação não dessem conta de acompanhar o processo. O psiquiatra ponderou ainda que a apreensão do fentanil, apesar da quantidade pequena, preocupa.

"A diferença da dose letal ou a usada como anestésico é muito pequena. Em uma cirurgia, o anestesista vai medir o peso do paciente, medir a grama por peso. Além disso, o profissional sabe o que fazer caso o paciente tenha uma parada cardíaca. Quando a substância é usada como droga não tem isso. São feitas em laboratórios que, muitas vezes, você não sabe as condições de higiene", disse.

Dependência e surtos

Ainda segundo o psiquiatra Jose Luis, essas drogas produzidas a partir da mistura de diversas substâncias com o objetivo de aumentar os efeitos alucinógenos trazem diversos riscos à saúde.

"O primeiro deles é a maior chance de dependência porque tem os efeitos prejudiciais também são potencializados. A outra é que estas drogas, a exemplo da flor gringa, causam perturbação mental, ou seja, podem causar surtos como acontecem em pacientes com alterações psicóticas", disse.

O professor da Ufes também explicou que não há cultura de prevenção às drogas no Brasil, o que faz com que a população fique refém dos seus efeitos até a popularização dos entorpecentes.

"As forças de segurança estão atentas. O serviço de inteligência da polícia trabalha consideravelmente bem para poder antecipar esses eventos. O complicado é que um produto como este só vinga se tiver mercado. E ele tem mercado. Fazer a perseguição de fornecedores é correr atrás das consequências e não da causa. Estamos muito longe disso", disse o professor.

De acordo com o professor, outro fator determinante para a popularização destas novas drogas são os custos que elas têm.

"Se o custo dela for vantajoso, vai ter comercialização e muito mais fácil a sua popularização. O fentanil, por exemplo, não é encontrado no Brasil com frequência. Não é uma droga barata porque não pode ser feita em qualquer instalação, logo tem um poder aquisitivo maior. Por isso, é mais comum em países com o poder aquisitivo da população é maior", disse.

De acordo com o professor, a melhor forma de evitar a popularização destas novas drogas é por meio de uma cultura voltada para a prevenção.

"A questão de quão preparado que as pessoas devem estar é a preparação de sempre, a atenção aos nossos filhos, à educação. Segundo dados que temos, muitas pessoas entram nas drogas porque têm alguma alteração psiquiátrica que não foi tratada, como depressão, transtorno de ansiedade, entre outras. É uma falha do sistema de saúde e educação", disse.

Drogas

No dia 11 de fevereiro de 2023, a Polícia Civil desarticulou uma laboratório do tráfico de drogas em Cariacica, Grande Vitória. A operação apreendeu 130 quilos de maconha, 2.500 pinos de cocaína, e 31 frascos de fentanil, entorpecente 100 vezes mais forte do que a morfina e que pode ser fatal.

Na época, o delegado titular do Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), Tarcísio Otoni, disse que o fentanil é um droga com alto índice de letalidade.

"É uma droga de grande efeito viciante, é uma droga fatal. Nos Estados Unidos, no ano de 2021, mais de 100 mil americanos morreram por conta do uso desse entorpecentes, então nos preocupa principalmente chegando nesse período de carnaval", disse o delegado

Cocaína negra

Receita Federal encontra cocaína negra em mala no Aeroporto de Vitória. — Foto: Divulgação/Receita Federal

Pouco mais de um mês depois da apreensão do fentanil, no dia 28 de março, a Receita Federal apreendeu 2,7 quilos da chamada cocaína negra, que estavam escondidos em uma mala no Aeroporto de Vitória. O entorpecente foi descoberto pelo cão farejador da Receita Federal.

De acordo com a Receita, a mala pertencia a uma estrangeira, que não teve o nome e a nacionalidade divulgados. O órgão disse que apenas que tratava-se de uma jovem, que iria embarcar em um voo para São Paulo. O destino dela, segundo as investigações, seria a Índia, na Ásia.

De acordo com o delegado da Alfândega da Receita Federal do Porto de Vitória Douglas Koehler, a apreensão da cocaína negra foi raríssima.

"É uma droga raríssima. Aparentemente ela é bem mais cara, mas não sabemos os detalhes químicos dela. O que podemos dizer é que é muito rara e muito cara. Não tenho conhecimento dessa cocaína negra ter sido apreendida antes pela Receita Federal aqui no Estado", ressaltou o delegado.

Já o delegado da Polícia Civil Tarcísio Ottoni disse que, quando a cocaína é transportada fora da sua característica normal (em pó), é uma tentativa de ludibriar o trabalho de cães farejadores e a fiscalização da Polícia Federal e da Receita Federal.

"Não é comum a apreensão de 'cocaína negra' visto que esta droga é feita para ser exportada para fora do Brasil e, o Denarc tem a principal atuação no Estado e combate às organizações criminosas com disputa do tráfico territorial", disse.

Flor gringa e haxixe paquistanês

Drogas apreendidas com "pais de santo" dentro de carro em Mimoso do Sul, no ES. — Foto: Divulgação/PRF

Na noite do dia 29 de março, a Polícia Rodoviária Federal prendeu quatro homens na BR-101, em Mimoso do Sul, após serem abordados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) com frascos contendo maconha conhecida como flor gringa e haxixe paquistanês, entre outras drogas. Os suspeitos contaram que trouxeram as drogas exóticas do Rio de Janeiro.

Fonte: G1



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