As discussões promovem uma espécie de "meta-comunicação" valiosa para os relacionamentos saudáveis; entenda
Casal na praia - Créditos: UnsplashA discussão de relacionamento, carinhosamente apelidada de "DR", é um processo em geral desagradável para um casal, mas especialistas em relacionamento concordam que evitá-la é mais prejudicial do que cultivar, por algum tempo, sentimentos desconfortáveis com seu parceiro.
O conflito é uma fonte valiosa de troca. Ele expõe vulnerabilidades, gera autorreflexão e aprendizado. Além disso, constrói a intimidade porque possibilita a criação de um léxico compartilhado entre as pessoas, capaz de dar complexidade à relação.
É claro que recorrência dos conflitos, especialmente se o casal não desenvolve as ferramentas necessárias para entretê-los de maneira não derrogatória, pode exaurir uma relação. Mas, na visão dos terapeutas, é preciso encontrar o equilíbrio entre esses dois estágios e conceder espaço para o que se chama de "meta-comunicação": de forma simplificada, discutir sobre a discussão; ou melhor, discutir sobre a melhor maneira de discutir a relação.
O que diz a psicologia
A importância de discutir, de acordo com o pesquisador norte-americano John Gottman, clínico psicológico que se dedicou a entender relacionamentos durante décadas no "Laboratório do Amor" (Love Lab) — o primeiro laboratório de casais do mundo, inaugurado em 1986 na Universidade de Washington —, não está exatamente no foco na resolução de conflitos, mas no propósito mesmo das discussões.
De acordo com ele, os casais se deparam, durante as DRs, com os "quatro cavaleiros do apocalipse": a crítica, o desprezo, a defensividade e a obstrução.
Como discutir melhor?
Saiba evitar:
Crítica
Em vez de fazer uma reclamação específica sobre uma ação ou situação, a crítica ataca a pessoa do parceiro.
Por exemplo, dizer "O que há de errado com você?" é uma atitude negativa que contribui com o aumento da hostilidade, e é um recurso usado, em geral, ao invés de reclamar sobre uma ação específica.
A diferença é que uma reclamação foca no comportamento ("Eu fico chateado quando você não me avisa que vai chegar tarde"), enquanto a crítica ataca o caráter da pessoa ("Você é sempre irresponsável e nunca se importa com meus sentimentos").
Desprezo
O desprezo é o mais tóxico dos quatro cavaleiros para um relacionamento, diz Gottman.
Ele se manifesta através de sarcasmo e cinismo, e pode ser observado em comportamentos como revirar os olhos, rir de forma zombeteira e num humor hostil.
O desprezo é tão prejudicial, diz ele, que pode até afetar o sistema imunológico do casal.
É alimentado por pensamentos negativos de longa data, e a beligerância é semelhante a ele. Às vezes, o desprezo vem disfarçado de "altos padrões morais".
Defensividade
Embora a defensividade envolva explicar ou se defender de um ataque, ela raramente tem o efeito desejado e tende, do contrário, a iniciar um contra-ataque. Quer dizer, ao refletir o sentimento de culpa para a outra pessoa, na intenção de fugir dele, a defensividade, que se torna muito clara em frases como a clássica "Mas você faz a mesma coisa!", se torna um simples revide.
Obstrução
A "construção de uma parede" é uma descrição mais próxima do termo usado para esse comportamento em inglês: stonewalling.
A obstrução ocorre quando um dos parceiros, geralmente após ser bombardeado por críticas, desprezo ou defensividade, eventualmente se desliga e fica sobrecarregado da discussão.
A pessoa que obstrui não dá sinais não verbais de que está ouvindo e transmite a mensagem de "Eu não me importo".
Em 85% dos casos, de acordo com Gottman, o stonewaller é o marido, já que os sistemas de estresse fisiológico dos homens são mais reativos e demoram mais para se acalmar.
Na experiência de Gottman com seu Love Lab, a presença dos quatro "cavaleiros do apocalipse" pode prever o divórcio em 90% dos casos.
Por que discutir o relacionamento importa?
Discutir o relacionamento não é um fim em si, mas uma forma de entender as aspirações mais profundas do outro, sua forma de pensar e suas necessidades, a fim de construir uma comunicação mais significativa. Gottman evidencia algumas funções das DRs "bem-sucedidas":
- Prevenir a toxicidade, evitando ceder aos "quatro cavaleiros do apocalipse";
- Reparar ou desescalar a discussão, isto é, baixar os níveis de estresse e evitar um esgotamento fisiológico (evitar discutir à exaustão);
- Expressar apreciação, apreço e admiração um pelo outro para nutrir o afeto;
- Entender os sonhos e valores do outro, discutindo-os a fim de criar um significado compartilhado;
- Manter a conexão: abrir espaço para conversas diárias e encontros semanais que não funcionem como DRs, mas como diálogos abertos sobre a relação;
- Identificar problemas precocemente: ao sentir que algo está errado, um parceiro deve perguntar ao outro o que está acontecendo, o que implica uma discussão sobre o estado do relacionamento para evitar que os problemas se agravem;
- Não usar críticas no lugar de reclamações específicas: embora Gottman afirme que "críticas construtivas" não funcionam, reclamar sobre algo específico (em vez de criticar a pessoa) pode ser eficaz. Isso requer uma discussão focada no comportamento, não na identidade.
Fonte: Revista Fórum

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