Esse é o novo mercado na mira de Elon Musk depois de foguetes, IA e carros elétricos


Bilionário que revolucionou diferentes áreas está de olho em redes telefônicas

Elon Musk revolucionou um setor após o outro, desde foguetes e veículos elétricos até robôs humanoides. Seu mais recente alvo é o travado clube das redes móveis de telecomunicações.

Elon Musk está tentando transformar seu sistema de satélites Starlink em uma operadora móvel competitiva Foto: Haiyun Jiang/The New York Times)


O anúncio feito esta semana de que a SpaceX, de Musk, está comprando US$ 17 bilhões em espectro de banda nos EUA causou nervosismo em um setor dominado por Verizon, AT&T e T-Mobile. A nova faixa de frequência está destinada ao uso pelo serviço de satélite da SpaceX, Starlink.

“Todos estão se perguntando se a ideia da empresa é tornar-se uma operadora de rede móvel”, diz Kim Burke, diretora de assuntos governamentais da consultoria Quilty Space.

A entrada da Starlink no setor provavelmente exercerá uma nova pressão sobre as principais operadoras móveis dos EUA para que ofereçam melhores serviços aos clientes rurais, dizem analistas, seja por meio de uma parceria com a Starlink ou de uma tecnologia concorrente. Enquanto empresas como Apple e T-Mobile lançaram mensagens de texto via satélite em áreas remotas, principalmente para situações de emergência, a Starlink promete streaming de vídeos nos confins da Terra em alguns anos.

“O efeito é que você deve poder assistir a vídeos em qualquer lugar no seu celular”, disse Musk, na terça-feira, no “All-In”, um podcast apresentado por quatro investidores do Vale do Silício.

Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações, chamou a compra do espectro pela SpaceX de “uma potencial virada de jogo”, e Tom Stroup, presidente da Associação da Indústria de Satélites, disse que foi “um dos anúncios mais significativos” feitos até hoje para o serviço de telefonia celular via satélite. A vendedora foi a EchoStar, uma empresa de satélites e wireless com sede no Colorado que, no mês passado, fechou um acordo separado para vender espectro à AT&T por US$ 23 bilhões.

A Starlink afirma que seu futuro serviço de telefonia celular fornecerá “conectividade celular 5G completa com uma experiência comparável ao atual serviço LTE terrestre” na “maioria dos ambientes”. Muitos especialistas do setor são mais cautelosos, dizendo que é improvável que a Starlink consiga competir diretamente com a Verizon ou a AT&T em áreas urbanas densamente povoadas, devido ao espectro limitado, e provavelmente continuará sendo um complemento aos planos móveis tradicionais.

Musk não descarta a possibilidade de se tornar um rival direto no futuro. Questionado no podcast “All-In” desta terça-feira se ele poderia comprar uma empresa como a Verizon algum dia, ele disse que isso “não está fora de questão”.

Em alguns anos, disse Musk, assim que as mudanças de hardware permitirem que smartphones e satélites Starlink se comuniquem através do espectro recém-adquirido, sua empresa poderá oferecer uma “solução abrangente” para conectividade de alta largura de banda, tanto em uma antena parabólica doméstica Starlink quanto em um telefone móvel.

A Verizon, a AT&T, a T-Mobile e a SpaceX não responderam aos pedidos de comentários.

A Starlink começou a testar um serviço de mensagens de texto no ano passado por meio de uma parceria com a T-Mobile, usando o espectro de propriedade da operadora móvel. O serviço foi lançado este ano como “T-Satellite” por US$ 10 por mês.

A Starlink agora tem banda larga para atualizar além das mensagens de texto. O site da empresa diz que o serviço de dados celulares começará este ano e as chamadas de voz começarão “em breve”.

Em conjunto com a venda do espectro, a EchoStar anunciou, esta semana, que os clientes da Boost Mobile se juntariam aos da T-Mobile no acesso ao serviço direto para celular da Starlink.

“Esta transação com a SpaceX dá continuidade ao nosso legado de colocar o cliente em primeiro lugar”, afirmou o presidente da EchoStar, Hamid Akhavan, em comunicado, acrescentando que a parceria resultaria em uma implantação “mais inovadora, econômica e rápida” do serviço de satélite para a Boost Mobile.

Embora o serviço via satélite seja geralmente muito pior do que o serviço móvel terrestre nas cidades, disse o analista de wireless Peter Rysavy, ele é a melhor opção para usuários em áreas rurais fora da cobertura das redes tradicionais. A Starlink construiu uma base de clientes robusta para suas antenas parabólicas em áreas rurais, disse ele, e provavelmente encontrará clientes lá para sua oferta de telefonia.

“Em áreas geográficas muito extensas ao redor do mundo, o satélite é sua melhor opção, porque, em muitos casos, é sua única opção”, disse Rysavy.

Craig Moffett, analista de telecomunicações da MoffetNathanson, disse que não há “nenhum cenário” em que Musk concorra diretamente com a AT&T, a Verizon e a T-Mobile em áreas urbanas. Embora o acordo de US$ 17 bilhões da SpaceX lhe dê acesso a um espectro valioso e aumente sua cobertura em regiões pouco povoadas do globo, isso é insignificante em comparação com as centenas de bilhões de dólares que as três grandes empresas de telecomunicações investiram em infraestrutura, disse Moffett.

“[Musk] terá um sistema de distribuição via satélite que funcionará em áreas relativamente esparsas, mas não é nem de longe competitivo em termos de cobertura, velocidade e rendimento em comparação com o que você obteria de uma das três grandes”, disse ele.

Burke, analista da Quilty, disse que a SpaceX também enfrentaria uma “caminhada dolorosa” em obstáculos regulatórios nos Estados Unidos e no exterior se quisesse se tornar uma operadora de telefonia móvel por conta própria.

“Para mim, a questão mais urgente não é se a SpaceX pode contornar as operadoras de rede móvel — elas podem, eventualmente —, mas se elas querem fazer isso”, disse ela.

A SpaceX lançou seus satélites Starlink em 2019, com Musk vendo o serviço como uma potencial fonte de renda que poderia financiar suas ambições de longo prazo de explorar Marte e além. Embora a Starlink tenha começado como um serviço de internet doméstico transmitido para antenas parabólicas, disse um ex-executivo da SpaceX, a empresa desde o início previa a expansão para outras funções de satélite.

“Eles sempre viram isso como uma plataforma que pode oferecer vários serviços diferentes”, disse o ex-executivo, falando sob condição de anonimato para discutir um antigo empregador.

A Starlink tem mais de 8 mil satélites em órbita, de acordo com o astrônomo Jonathan McDowell, tornando-a de longe o maior sistema de satélites em órbita da Terra. Ela tem adicionado usuários de forma constante, atingindo cerca de 8,5 milhões de assinantes, em comparação com 4,7 milhões no ano passado, de acordo com o banco de investimentos Morgan Stanley.

A Starlink se tornou uma fonte crítica de receita para a SpaceX, que há muito depende fortemente de contratos com a NASA e o Pentágono. O Morgan Stanley estima que a SpaceX está a caminho de gerar cerca de US$ 15,9 bilhões em receita este ano, dos quais cerca de 70% devem vir da Starlink. (Os números exatos da receita não estão disponíveis, pois a SpaceX é uma empresa privada.)

Em julho, a Bloomberg informou que a empresa estava avaliada em até US$ 400 bilhões. Em uma demonstração da influência da empresa sobre os investidores, metade do preço de US$ 17 bilhões da EchoStar foi pago em ações da SpaceX.

A compra da EchoStar pela SpaceX põe fim a uma disputa de anos entre Musk e o bilionário fundador da EchoStar, Charlie Ergen, pelo escasso recurso do espectro. Musk acusou Ergen, já em 2022, de tentar “roubar” a banda larga que Musk queria para a Starlink.

Após insistência da SpaceX, a FCC abriu uma investigação em maio para determinar se o espectro da EchoStar deveria ser transferido para outras empresas, tendo em vista seu fracasso em se tornar uma quarta operadora robusta de 5G ao lado da Verizon, AT&T e T-Mobile. “A EchoStar não usa o espectro para atender aos consumidores americanos”, escreveu o vice-presidente de política de satélites da SpaceX, David Goldman, à FCC, argumentando que outras empresas estavam prontas para “implantar rapidamente conectividade móvel onipresente para milhões de consumidores americanos”.

A Dish, subsidiária da EchoStar, protestou à FCC em junho, alegando que a comissão não deveria destruir sua rede 5G “tirando sua força vital — o espectro licenciado que a EchoStar gastou bilhões para adquirir, construir e utilizar”. Retirar o espectro concedido à EchoStar esfriaria os investimentos em todo o país, afirmou.

A EchoStar informou, esta semana, que a investigação da FCC sobre o assunto foi resolvida com a venda do espectro à SpaceX.


Fonte: Estadão




Postagem Anterior Próxima Postagem