O termo vem da sociologia e apareceu pela primeira vez em 1956, mas traduz "o espírito de uma época", segundo Colin McIntosh, editor-chefe do Dicionário de Cambridge
Mídias sociais intensificam tendência a relações parassociais, segundo especialistas - Créditos: UnsplashEleita pelo Dicionário de Cambridge como “palavra do ano” em 2025, pelo aumento de sua influência simbólica e dos usos em contextos específicos, “parassocial” define “uma relação que alguém experimenta com uma pessoa famosa que não conhece, um personagem de livro, filme ou série de TV, etc., ou uma inteligência artificial”.
O termo vem da sociologia e apareceu pela primeira vez em 1956, quando os sociólogos Donald Horton e R. Richard Wohl estudavam o surgimento da mídia de massa — a televisão e o rádio —, que facilita a criação de pontes em forma de “interações”, ainda que unilaterais, entre pessoas que não se conhecem.
Apesar de limitadas, essas interações indiretas têm uma influência considerável nos afetos e no imaginário social: incentivam comportamentos simulados e hábitos de consumo, e podem até gerar obsessões.
Muito mais relevante hoje, com a ampliação das mídias e sua adoção na “palma da mão” (literalmente), a palavra parassocial foi escolhida com base nas interações virtuais com celebridades e personalidades de forma geral, que produzem efeitos intensos e podem gerar discussões complexas, como a que pauta a crescente mercantilização das relações parassociais numa época de profissionais “influenciadores” e o crescimento de tecnologias de chatbots que simulam relações interpessoais e orgânicas, como o ChatGPT.
De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela Talk Inc, um em cada dez brasileiros já recorreu aos chatbots como apoio emocional, para desabafar, pedir conselhos ou conversar. Além disso, estima-se que até 48,7% dos usuários de IA com diagnósticos de saúde mental usem o ChatGPT para fins de “suporte terapêutico”.
A escolha também indica essas mudanças sofridas pelo termo, que precisou passar por atualização no Dicionário a fim de abarcar a nova relação com as inteligências artificiais generativas.
Uma outra justificativa, segundo o Dicionário de Cambridge, foi o fenômeno de comoção geral causado pelo anúncio, em agosto de 2025, do noivado da cantora norte-americana Taylor Swift, que movimenta legiões de milhões de fãs globalmente. A relação parassocial de um fã com seu artista favorito alimenta uma indústria cultural inesgotável.
De acordo com Colin McIntosh, editor-chefe do Dicionário, a palavra reflete o zeitgeist de 2025, o espírito de uma época.
É importante, no entanto, diferenciar uma interação parassocial de uma relação parassocial (descrita pela sigla PSR), que existe além de um consumo imediato e se torna um vínculo emocional duradouro, sustentado como algo além de um fenômeno cultural.
Nas relações parassociais, a ficção frequentemente toma o lugar do real, explica, em artigo, a pesquisadora Marsaa Salsabila Syawal, da Universidade da Indonésia.
A sensação de uma intimidade unilateral emerge principalmente com a possibilidade de ser “visto” através das interações em tempo real nas redes sociais, o que dá ao público a impressão de ser “compreendido, validado e acolhido” pelas personalidades nesses “encontros hipotéticos com elas”, que se dão no campo do virtual.
“A frequência e a autenticidade da autoexposição das figuras da mídia nas redes sociais fortalecem as conexões socioemocionais das pessoas”, conclui Syawal.
Da Redação / Com informações exame.com

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